domingo, 23 de agosto de 2009

23 de Agosto de 2009

23 de Agosto de 2009 (15:40) – Foram dois dias de certa forma interessantes e de algum modo produtivos. Sexta-feira a saída de casa começou com a ida ao Serviço de Identificação para ir buscar o BIR – de residente não-permanente –, o qual me foi dado 15 minutos depois de lá ter chegado, não sem antes recorrerem à minha impressão digital para confirmarem a minha identificação. Saí de lá com um envelope selado contendo uns códigos que me parecem ter a função de ser uma solução de recurso caso a máquina de impressões falhe ou caso o BIR seja preciso e o sítio requeira o código; em suma, não sei para que servem. Saí de lá em direcção ao Ou Mun para o primeiro café da manhã e de lá saí para ver ‘electrodomésticos’ áudio – havia um ou outro de que gostei, mas são apenas casos a considerar, pois falta a ida a Zuhai. Não me posso esquecer de tratar do visto.

Fui até ao jardim Lou Lim Ioc em Tap Siac, próxima da casa que arrendei, para ver aquilo. O jardim tem muitos sítios para as pessoas se sentarem, embora não seja muito grande – é um tudo nada mais pequeno que o Jardim da Estrela, em Lisboa. Tem um pavilhão aberto onde as pessoas jogar, conversar ou fazer Tai Chi. Eu acabei por ficar num sítio afastado do pavilhão, sentado a uma mesa de pedra num banco também de pedra – havia mais três bancos – onde estive um bocado a escrever. Eram talvez 13h00 e as árvores proporcionavam uma sombra agradável. É sítio para voltar a ir com frequência – a possível. Voltei ao centro e fui buscar um sumo natural feito de passionfruit – acho que é esse o nome da fruta de interior roxo. Fi-la seguir de um segundo café. O almoço foi acompanhado por uma estreia cinematográfica: “O Padrinho”, realizado por Francis Ford Coppola. Mais vale tarde que nunca. O pré e pós-jantar foi ao computador ou a passar a limpo o Inimigos ou À volta da minha investigação acerca da música que se faz por esta zona do globo, em especial a vinda da China continental. É uma investigação que dá muito trabalho e que fica sempre incompleta, mas dos resultados dessa investigação darei conta quando ela estiver terminada.

Ontem, depois dos cafés da manhã, fui até Hong Kong e desta vez a viagem foi menos atribulada, apesar de, à entrada em Hong Kong, o meu faro se ter voltado a revelar infalível, ao escolher uma fila da qual demorei um quarto de hora a sair. A saída de Macau foi rápida: já foi com o BIR e fazendo uso da minha impressão digital para fazer abrir as cancelas – desculpem, portas – de vidro. Pensei logo no Alex Jones: a visão orwelliana do “1984” parece estar a materializar-se, na medida em que quem detém o poder – os governos são apenas uma dessas entidades – detém os dados pessoais de toda a gente e estou certo de que isso vai – está a – ser, enquanto objectivo último, utilizado em nosso desfavor. A descrição das massas de ‘escravos obedientes’ é muito objectiva e quem a utiliza – utilizou ou utilizava – vê muito claramente; isso é normalmente difícil quando se está do lado de dentro, ainda por cima crente da existência da liberdade não coarctada – são muitos os rostos do Bem e do Mal.

Chegado a Hong Kong, fui buscar a minha sandes de salada de ovo, comendo-a enquanto observava os edifícios – não sei qual o número de andares que têm de ter para se lhes poder chamar ‘arranha-céus’. O passo seguinte foi apanhar o metro e ir até Causeway Bay em busca das discotecas que não tinha conseguido achar duas semanas antes. Desta vez, tomei o caminho indicado com saída A, um túnel que levou cerca de 10 minutos a percorrer. A sensação foi um pouco claustrofóbica – o número de pessoas em circulação ajudava à sensação –, mas a vinda à superfície deu-se no interior da Times Square, o centro comercial – um dos muitos: em comparação com Hong Kong, Lisboa parece uma remota aldeia do interior – repleto de pessoas no qual se situava a CD Warehouse. Estive na loja uns 20 minutos: tem música boa, mas limitada às últimas novidades e sempre de nomes consagrados e imorredoiros, sejam eles Clash, Johnny Cash, Metallica ou Bob Dylan; os preços não são altos.

O objectivo seguinte era o do achamento da White Noise Records, a qual encontrei depois de andar meia dúzia de minutos às voltas, com ela a 50 metros da Times Square. A loja fica num segundo andar de um prédio pequeno e velho na Canal Road (East), tendo a assinalá-la um letreiro – que tinha a iluminação interior desligada – cor-de-laranja com letras pretas, metro e meio ou assim acima das cabeças dos pedestres. À entrada do prédio estava uma senhora a vender bugigangas. Subi uns lances de escadas de madeira estreitos, com as paredes ocupadas com cartazes vários, embora com ar de fazerem menção a eventos culturais. Cheguei, finalmente, à entrada – veio-me à lembrança a Pin-to. No interior, foi a forte a memória da Ananana ainda na Travessa da Flor D’Água e foi grande o meu contentamento. A oferta de música era bastante grande: tinha rock contíguo ao heavy metal – Mono, Ísis, Explosions In The Sky –, tinha hip-hop – sobretudo dos tipos da Anticon –, reedições de coisas dos anos 60 e 70, jazz, dub, techno, experimental… enfim, para praticamente todos os gostos. Tinha pouco tempo e acabei por comprar White – um chinês que teve a ajuda do Blixa Bargeld dos Einsturzende Neubauten – e mais dois outros CDs de artistas chineses sugeridas pelo tipo que me atendeu. Foi ele que me disse que é da China que vem a maior parte das melhores propostas musicais, havendo relativamente pouca coisa de Hong Kong. Os Queen Sea Big Shark e os Carsick Cars ficam para a próxima. Tanta coisa lá: a reedição digipack de álbuns dos Can…

Qual puto, fiz o caminho de regresso a casa e às 17:30 já estava a apanhar o jetfoil de regresso a Macau, aonde cheguei sem enjoos ou outras confusões. Passadas as portas de vidro, fui até à zona de paragens de autocarros e apanhei o 12, tendo descido na Rua do Campo, uma das grandes artérias da cidade. Eram 19:08 e decidi que ia jantar ao Boa Mesa: estava cansado e com vontade de estar no meio de pessoas. Era cedo e fiz tempo indo ao Royal fazer umas compras. Entrei no Boa Mesa e sentei-me na mesa do lado direito junto à porta de entrada – da outra vez tinha sido do lado esquerdo. Lá veio um sumo de laranja natural – se bem que eu tivesse pedido um dos outros – a que se seguiu uma omeleta, uma mousse de chocolate e um café. A televisão ao longe mostrava imagens de políticos portugueses – Jerónimo de Sousa e José Sócrates – no noticiário da RTP: nada de novo no reino. Em casa, continuei ao computador e foi proveitoso o trabalho.

Hoje quero ver o que é que eu consigo acabar, se o Inimigos se a investigação. Provavelmente nenhuma das duas. Amanhã vai começar a mudança para a outra casa, isto é, vai ser tempo de limpeza primeiro, para só depois haver mudança. Vai ser comprar panelas, pratos, talheres. Termino esta missiva ao som dos Eagle Twin e dos regressados Accused, autores desse clássico que é o “Wrong side of the grave”. Amanhã há mais.

7 comentários:

  1. Um jardim no meio dos arranha-céus deve ser um verdadeiro oásis...
    E a "passionfruit" em português é nada mais nada menos que...o maracujá...
    Há também alguns clássicos que me arrependo de ainda não ter visto...Às vezes parece que só por mero acaso é que acabamos por pôr a cinefilia em dia...

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  2. Também já tive de usar a minha impressão digital para abrir algumas portas...A ficção está a tornar-se realidade...
    E o Cartão do Cidadão que milhares(ou serão milhões?!...) de portugueses correram a ir buscar de forma desenfreada, esperando horas ou até mesmo dias para o obter, só para não ficarem de fora da novidade, exibindo orgulhosamente a sua imbecilidade ao entregarem-se de livre vontade a mais um instrumento do mecanismo de controlo estatal?...(Sem garantias de segurança dos dados recolhidos, como apontou a Comissão de Protecção de Dados...)
    Talvez fosse bom reveres o "Minority Report" do Spielberg, a partir de uma história do Philip K. Dick. É demasiado real...

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  3. Lisboa É uma remota aldeia do interior. E também um imenso bidé repleto de promiscuidade tacanha e coscuvelhice avulsa...A capital de Liliput, onde medra a gente pequenina...

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  4. E os chás?...Devem existir casas de chá fantásticas por aí...Já visitaste alguma?...

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  5. Obrigado pela tradução. Eu, de facto... Se calhar não era maracujá: estou a dizer isto porque não se parece com o que está nas embalagem. Se calhar é 'fruta de dragão' ou outra coisa. O jardim é um oásis, mas o silêncio não é grande: no meio de arranha-céus movidos a ar condicionado.
    Percebo agora o culto à volta dos três filmes, além de lá estarem lá o Brando, Al Pacino e o De Niro. Tenho de ver aquilo com comentário do Coppola.

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  6. Aqui também medra gente pequena, de certeza. Num sítio onde o chefe do executivo nomeado pelo governo central é referido como 'candidato'do governo - como se houvesse outro - e onde só um pequeno número de deputados é eleito pela população - eles utilizam termos como 'eleição directa' e 'eleição indirecta' -, não há muito a esperar em termos de transparência. Alojou-se-me no cérebro que, para muitas democracias, um pais com dois sistemas era coisa que não rejeitavam. Não sei se o dia não está perto...
    A mousse estava muito boa. Não estou a dizer isto por ser a minha sobremesa preferida.
    Há sítios que vendem chá. Não me lembro se visitei uma casa de chá, mesmo havendo. O Oriente é conjunto complexo de hábitos diferentes. Tenho a impressão que só a humidade é comum a toda esta zona. Abraço.

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