20 de Agosto de 2009 (21:34) – Ontem foi de manhã, seguido de uma passagem pela agência para ir buscar original do contrato que o Calvin me tinha pedido para que a agência pudesse ficar com uma cópia. O colega dele deu-mo e, antes de eu me vir embora, ele viu o meu saco com pão e achou que aquilo era para o meu pequeno-almoço. Ele não sabia que eu já o tinha tomado, mas eu não pensei nisso. Tratei logo de ficar com a impressão de que ele teria a impressão de que eu – os portugueses – acordava tarde por causa da profissão, o que é parcialmente verdade. Foi um comentário… bom, se calhar é mais comum as pessoas aqui irem comprar pão do próprio dia para o pequeno-almoço. Enfim, uma das minhas reacções a destempo. Depois disso, foi trabalho ou lazer no computador, como almoço e o jantar na companhia de “There Will Be Blood”, realizado por Paul Thomas Anderson e com Daniel Day-Lewis no principal papel.
Hoje o despertar foi relativamente cedo, apesar de ontem à noite me ter custado a adormecer, mas, com mais ou menos horas dormidas, lá acabei por vir parar ao dia de hoje. Depois das compras fui ao Ou Mun para os meus cafés da manhã, ida marcada pela presença de uma mulher, talvez na casa dos 30, ruiva, com sardas, pele clara e interessantes olhos azuis – há mulheres chinesas bonitas, é claro: pele muito clara, olhos escuros e rasgados e cabelo preto liso ou ondulado. Uma ruiva é que é mais fora de comum, seja em que lugar do planeta for. Quando eu ia a sair, ela preparava-se para almoçar e tinha pedido uma Coca-Cola. Chegado a casa, dediquei-me a trabalhos vários no computador.
No dia a dia há sempre pormenores nos quais reparamos e sobre os quais reflectimos e que depois se nos varrem do pensamento, talvez por a memória de curta duração ter as suas próprias prioridades quantos aos dados a armazenar. Um desses ‘pormenores’ é o relativo ‘luxo’ da casa que arrendei, especialmente se tiver em conta os ordenados que aqui normalmente se praticam. Os remorsos duram sempre pouco porque se tenho o poder económico que me permite ter uma casa confortável, não vejo razão para prescindir disso. Quando a situação não o permite, vive-se numa menos confortável. Outro pormenor: o calor e a humidade afectam mais os europeus, mas mesmo os chineses sofrem com ele, pois é frequente ver as pessoas a suarem ou de lenço na mão a limparem o suor do rosto. Deste modo, o uso do guarda-chuva/ guarda-sol faz todo o sentido, mas é um gesto e um hábito demasiado estranho à cultura europeia/ portuguesa: por exemplo, dar e receber objectos com as duas mãos é algo ao qual é possível ir ao encontro de, funcionando com uma espécie de curso de especialização. Aqui, vejo menos chapéus ou bonés do que estava à espera. Vêm-se alguns chapéus cónicos, mas poucos; é como se contra à tradição rural destes se opusesse a tradição urbana dos guarda-sóis. Enfim, nada como a antropologia de bolso – ou será de pacotilha? – para chegar a conclusões rápidas e definitivas.
O almoço deu para acabar de ver o “There Will Be Blood” e para começar a ver o “The Last King of Scotland” com Forrest Whittaker no principal papel. Quanto ao primeiro, para além da excelente interpretação do Daniel Day-Lewis, há também a filmagem e o argumento, que também me agradaram muito. As cenas finais explicam o título do filme e ‘escrevem’ a moral da história: haverá sempre sangue intencionalmente vertido, quer no exercício do poder, quer na mudança de poder, sejam os fautores iluminados por Deus ou por uma verdade laica. O realizador pode não ter tido a intenção de fazer um filme ‘político’, mas não me parece tortuosa fazê-lo: o padre – fé, religião, regime antigo – é brutalmente assassinado pelo empresário de exploração petrolífera – dinheiro, laicidade, legalidade e nova era –, com o primeiro incapaz de perceber como morde o cão da nova era: um ‘miúdo’ de velhas crenças contra um homem de uma mundividência, em parte por ele criada. Duas frases: em fim de filme, o empresário a gritar «Eu é que sou a Terceira Revelação!!!» e, depois de matar o padre com um pino de bowling, responde ao criado que procura por ele com «I’m finished», que tanto se lê ‘acabei/ terminei’ com o meu problema com o padre, como ‘estou acabado’. É o aparecimento do velhos conceitos de macro e microcosmo e dos germes de auto-destruição que cada sistema encerra em si mesmo. Se calhar estou a esticar a corda, mas foi isto que o filme me sugeriu.
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