terça-feira, 14 de setembro de 2010

15 de Setembro de 2010

A primeira casa, na Calçada da Vitória

15 de Setembro de 2010 (11:53) – Depois das férias, o regresso à estrada. Há muito para contar e podia tentar por começar por falar da saudade – ou da falta dela. Depois das férias, saudade não é coisa que esteja em falta. É sempre das pessoas que temos mais saudades – de que tenho mais saudades. De todas as que lá deixei, a que somei as que conheci neste Verão. Das que conheci nas férias, não me lembro de ter encontrado alguém com quem, pelo menos, não tivesse simpatizado. A verdade é que conheci muita gente de quem gostei muito, pessoas muito diferentes de mim, mas com traços que eu aprecio: o bom carácter e um óptimo sentido de humor. E um bom sentido do amor também...
Tornaram-se notórias as diferenças entre Macau e Portugal, a primeira delas a sensação de calor, muito menor em Portugal. Fui a um casamento do Nuno e da Ana, amigos do tempo da faculdade, e, mesmo vestido de fato e ao sol, não senti calor. Estava ausente a humidade omnipresente em Macau. Mais uma vez, é difícil explicar a opressão da de Macau e a ausência dela em Macau – podíamos entrar nos caminhos da política... e entraremos: a diferença entre a opressão de Macau e a de Portugal é a de que, ao comum dos olhos europeus, a China oprime os seus de forma violenta. Em Macau, a perspectiva é a de que há opressão e silenciamento para os que se movem contra a ordem estabelecida, mas é sempre esse o risco para quem se vê envolvido numa situação dessas, seja ame que parte do mundo for. Um governo assenta num sistema que o legitima e que ele legitima. Qualquer elemento que desafie aforça desse sistema, sofre as consequências, sejam elas quais forma. Tianamen foi brutal, mas não é uma coisa permanente. Além disso, o capitalismo consegue a mesma docilidade, sem tantos e tão negativos efeitos secundários. A China é um paraíso capitalista, miseráveis incluídos.
Voltando às férias... Lisboa é uma cidade bonita, solarenga e com horizonte. À noite podemos ver as estrelas, ausentes do céu de Macau. Quando a Cátia chegou a Lisboa – as saudades um do outro estavam ao nível do insuportável – fomos para casa da Olga, uma amiga que morava numa casa arrendada em Telheiras, cujo arrendamento partilhava com duas outras amigas. Esses primeiros dias foram de passeios, compras e visitas à família. Por aqui se pode perceber que foram umas férias sem pausas. Fomos a Ponte de Lima, terra da Olga e vila acolhedora onde a traça antiga está bem preservada e a traça recente está com rédea curta – o horizonte está preservado. A vida nocturna também era intensa, mas era em parte devido ao facto de estarmos em Agosto, tempo de regresso à terra dos migrantes.
No dia 8, um domingo, eu e a Cátia fizemos a viagem de regresso a Lisboa e, no dia seguinte, à tarde, apanhámos o avião rumo aos Açores, com a primeira paragem a dar-se na Terceira, onde estivemos três dias com o Zé, meu cunhado. Comer, beber e deixarmo-nos encantar pela paisagem foi tudo – ou quase – quanto aconteceu. Eu já lá tinha estado e não fiquei tão surpreendido, mas isso não invalida o facto da ida ser sempre um enorme prazer. É-o não só pelo sítio, mas também pela família que lá mora. Depois foi a vez do Faial, onde só estivemos uma noite. Também foi uma visita muito agradável – foi curioso constatar quão marcada é a 'personalidade' de cada uma das ilhas. Parece óbvio, mas só uma ida lá é que dá peso ao encantamento que imaginamos ter quando nos falam das ilhas. Continuando o relato, acampámos com um casa lde amigos e, além do Porto Pim, das piscinas naturais – também tínhamos mergulhado numas na Terceira – e da Caldeira do Inferno, fomos até à ponta dos Capelinhos, mesmo ao lado do vulcão. Para o fazermos, subimos a encosta partindo do farol que, em 1957, era onde a ilha originalemte acabava. O terreno era peculiar... ou nem por isso, era tudo poeira vulcânica. A peculiaridade vinha do facto de o terreno estar coberto por uma fina camada de poeira preta, o que transformava aquela num cenário ideal para um western português – ocorre-me o realizador ideal para o fazer...
Sexta-feira partimos do porto da Horta e, pelas 18h30, estávamos na Madalena, na ilha do Pico. Perto das 20h00, já estávamos acomodados na Pousada de Juventude em São Roque do Pico. Durante os dias seguintes não parámos de comer, de beber e de andar de um lado para o outro. O dia de sábado foi o do casamento do Hugo e da Luciana e foi bom. Foi boa a camaradagem, foi bom o convívio entre os desconhecidos. Depois de os do Pico terem acabado por dançar uma chamarrita para instrução dos restantes, passámos pela discoteca Skipper e, algumas bebidas depois, fomos 'fazer barulho' à casa onde os recém-casados estavam hospedados, onde bebemos mais álcool com travo a celebração. O dia a seguir acabaria por se tornar memorável, por duas razões: em primeiro lugar pela volta às lagoas, quase todas elas secas, mas sempre um prazer para a vista, em grande medida devido à circundante paisagem deslumbrante.
A segunda razão, pela perda da carteira, a qual confirmei quando acabámos a volta. Primeiro procurámos nos sítios onde tínhamos estado durante a  manhã e depois eu e a Cátia fomos fazer a parte do percurso onde eu tinha a certeza de que havia a possibilidade de eu ter deixado cair a carteira, ou seja, no primeiro miradouro em que parámos, assim como no primeiro dos lagos. Não o consegui ver em qualquer dos sítios. Voltamos para São Roque na esperança de que alguém a pudesse ter achado e a ter entregado na policia. Primeiro fui à GNR, onde deixei os meus dados. O policia de serviço aconselhou-me a ir à PSP, o que fiz. Cheguei lá, bati à porta e o policia, depois de ter visto no livro de registo que naquele dia não tinha entrado nada, perguntou-me se eu já tinha ido à Madalena. Eu disse-lhe que não e ele foi-me dizendo que havia várias esquadras. De seguida, ligou para a esquadra da Madalena e de lá ouvi dizer que a carteira estava nas Lajes. Agradeci ao policia, saí da esquadra e telefonei à Cátia a dar-lhe a boa nova. Ela ficou contente. Quem também ficou contente foi o restante grupo de amigos que estavam com ela no Clube Naval, a maioria deles os de Macau. Ouvir a manifestação de alegria deles pelo telemóvel teve o seu quê de tocante. Depois ainda voltei ao posto da GNR, para dizer ao policia que já estava tudo resolvido. Ele ficou contente, até me apertou a mão – parecia tão contente quanto eu!
Nessa tarde, fomos visitar os currais das videiras do vinho do Pico – classificado como Património Mundial pela UNESCO – e depois fomos a Cachorro, uma aldeia cujo nome vêm de uma pedra de pedra vulcânica com a forma da cabeça de um cachorro. Em Cachorro, há uma adega onde vendem aguardentes e licores de sublime sabor. Nós  trouxemos uma garrafa pequena de licor de amora. A noite começaria com a ida à esquadra da PSP nas Lajes e no regresso da minha carteira aos meus bolsos. O agente que lá estava foi simpático e contou-nos a história da carteira, a qual tinha sido entregue por um de velhotes francês – o polícia disse-nos que pareciam pessoas sérias. Ele pôs-se a ligar à SATA para ver se conseguia obter o meu número de telemóvel. Apesar de ter insistido e de ter tido que aquilo se tratava de um caso de policia, a SATA não lhe deu qualquer informação – tudo funcionou como devia. Ele disse-me que, no dia seguinte, o plano dele era saber junto da CGD qual o meu número – os meus cartões estavam na carteira. Depois de termos jantado, fomos às festas de São Roque, onde estivemos um par de horas e onde vi e ouvi os Goma – não sabia o nome delas na altura – e eram razoáveis: tinha bom som, mas as músicas deixaram-me a sensação de serem demasiado parecidas uma às outras, sem que,, mesmo dentro da toada a meio tempo que é a dos Goma, houvesse alguma que quebrasse isso. O timbre de voz do vocalista era semelhante à do Manel Cruz, vocalista dos extintos Ornatos Violeta.
No dia seguinte, preparámos as malas, almoçámos e voltámos para o Faial no barco das 15h00 – esperámos por uma ambulância que trazia uma senhora em estado grave, a qual, soubemo-lo depois, viria a morrer. Eram sete os que estiveram também no “Peters” a beber um gin tónico e foram sete os que partiram do aeroporto da Horta no avião rumo ao aeroporto da Portela, onde chegámos cerca das 23 horas. Eu e a Cátia ainda fomos ao Bairro Alto com a Luciana e o Hugo. Os dias seguintes passaram-se a correr, com as últimas coompras e as últimas – algumas delas primeiras – visitas. Infelizmente, sem possibilidade de segundas visitas. Saí de Lisboa no dia 20 cerca das 15h00, com as saudades da Cátia a aumentarem em razão exponencialmente proporcional à distancia e com outras saudades a ficarem também por matar. Cheguei a Macau no sábado às 16h00 locais e, a partir daí, os minutos foram-se escoando a uma velocidade cada vez maior. Muitos deles forram passados nas mudanças para a casa nova, com a ajuda dos amigos. Outros foram passados a preparar material para as aulas e outros ainda em jantares de aniversário ou de inauguração da casa – o do aniversário no dia 11, num local coberto, mas ao ar livre, foi sob os auspícios de uma intensa chuvada e de uma magnífica e valente trovoada.
Mais notícias em breve. Fiquem bem... sempre.