quarta-feira, 3 de novembro de 2010

4 de Novembro de 2010

Um jantar numa tasca tailandesa, Macau
16ºB, Calçada da Vitória
Trânsito em Macau
Dia normal no Leal Senado
4 de Novembro de 2010 (11:33) – Quando comecei este artigo, os dias em Macau estavam relativamente quentes. Tinha acabado de mudar-me para a casa nova – é bom estar na casa nova. Casa nova, vizinhos novos. Pois bem, o meu vizinho do lado, que não vejo muitas vezes, deixa-me os jornais na porta exterior – como todas as casas em Macau que eu conheço, também a minha tem duas portas, uma exterior e outra da casa propriamente dita. Os jornais que recebo são o The Standard (TS) e o China Daily (CD). O meu vizinho deixa-mos lá por que o inquilino anterior, o Rogério, então meu colega no IPOR, também os recebia. Resolvi aproveitar a oportunidade e investigar os jornais e dar conta de algumas das notícias que enchem essas publicações deste lado do mundo.
A 1 de Setembro, o CD fez saber que, em Hong Kong, um cada três estudantes sentia ansiedade com o começo das aulas, a mesma cidade onde os serviços sociais estimam que 17,9% das famílias viviam abaixo da linha de pobreza. Os pobres estavam atentos ao debate à volta do ordenado mínimo. Isto enquanto se assistia ao aumento da especulação imobiliária nos leilões de construções das zonas mais caras da cidade, enquanto se esperavam tufões e tempestades para a província de Zheijiang – zona leste da China, costa de Taizhou – a destruição ambiental ao longo do rio Yangtze – percorre 19 províncias e é crucial para o bem-estar de 400 milhões de pessoas que vivem na bacia do rio – alarmou as autoridades que planeavam tratar os esgotos e plantar árvores. Quem quisesse adquirir um telemóvel teria de apresentar a sua identificação – o governo dizia que era para diminuir o lixo electrónico, as mensagens pornográficas e as fraudes feita por telemóvel. Isto também acontecia na Alemanha e na Holanda. Trocas cândidas, cruciais para o futuro para os dois países, é que chineses e japoneses viam como desejável no fórum Pequim -Tóquio. Analistas chineses achavam que as sanções dos EUA à Coreia do Norte eram ineficazes e pouco amigáveis. A Microsoft queria expandir o seu mercado com o aumento do uso do seu motor de busca Bing na China continental, depois da saída da Google.
A 14 de Setembro, o TS – de Hong Kong, equivalente talvez ao The Sun ou ao Correio da Manhã – falava daqueles que perseguiam outras pessoas, do capitão chinês que ainda estava preso pelas autoridades japonesas e da boa forma da economia chinesa. Referiam também um sítio criado pelo governo chinês para ouvir as queixas das pessoas, as quais achavam que a corrupção e o conluio dos membros do governo com os proprietários de terrenos eram os problemas mais graves. Para alem do aumento dos preços dos bens essenciais e das casas, o que não aumentavam eram os salários. Nas queixas, não era esquecida a “harmonização das opiniões” – censura que o governo fazia. O CD falava do engarrafamento épico de milhares de camionistas na auto-estrada Pequim-Tibete e do governador Schwarzenegger a preparar a Califórnia para os caminhos-de-ferro de alta velocidade com comboios chineses. Notícia era também o aumento dos negócios da BMW, da Audi e da Mercedes-Benz na China, devido ao florescimento do sector dos carros de luxo na China. Coisa curiosa: havia um suplemento do jornal sobre Davos – Fórum Económico Mundial – que era produzido “com a colaboração do comité organizador Davos Tiajin e o Tiajin Daily”. A história continua...
A 15 de Setembro, o CD falava do elogio à China tecido pelo responsável da área do clima na ONU, no qual destaca os passos dados pelo país na área ambiental. Os jovens empreendedores queixavam-se dos obstáculos financeiros e burocráticos na formação de uma empresa. Bill Gates e Warren Buffet tinham vindo apelar ao sentido caritativo dos milionários chineses, a ver se eram como eles – há algo que não bate bem nesta história... A pressão americana para a China aumentar o valor do yuan continuava, assim como a possibilidade dos efeitos negativos dessa acção. Em Cuba, 500 mil  funcionários públicos iam ser despedidos. Falta de dinheiro era a razão – os EUA vão ganhar e transformar aquilo em algo pior do que é, é uma questão de tempo. Em Hong Kong, o preço das casas ia continuar a aumentar – um dia só lá vivem pessoas ricas... Muitos diziam que, na China, a performance art estava morta. Sustentavam que tinha deixado de ser uma arte radical e que se tinha rendido às pressões do comércio e do consumismo. Dizia Zhou Wenham, crítico de arte: “As empresas estão também a contratar actrizes e actores amadores para levarem à cena a chamada performance art. O único propósito é captar a atenção das pessoas para os seus produtos... se há arte ou não, já ninguém se importa”.
No dia 26 de Setembro, o CD abria com uma reportagem sobre os custos humanos do desenvolvimento da China e exemplificava com uma advogada de uma firma norte-americana. Ela trabalhava cerca de 3000 horas por ano; ou seja 375 dias por ano a oito horas de trabalho. O jornal também falava do poder de Sarah Pallin – é poder de quem trabalha para a Fox News. Destaco o título “Para que servem os amigos? Para, talvez, uma saúde melhor”, com o artigo a seguir o tom moralizador do título. Falava-se também de uma exibição no Museu de Arte Moderna em Nova Iorque de um lado desconhecido de Henri Matisse.
No dai 27 de Setembro, o TS falava de um desvio de 43% no custo previsto para um dos novos troços do metro de Hong Kong – entre as razões alegadas estavam as de um aumento de custo de materiais na ordem dos 55% em relação há três anos. A HSBC Insurance teve um aumento de 36% nos lucros. Entre colunas de opinião e de artigos que instruiam o leitor na arte de ficar rico, surgiam notícias no meio da publicidade. O CD falava do contencioso – a subir de tom – entre a China e o Japão acerca da posse das ilhas Diaoyu, do pacto entre a China e a Rússia e do ‘flower power’ exposto na praça Tianamen, tendo por fim a comemoração do Dia Nacional. Havia uma fotografia de crianças tibetanas a dançarem, celebrando a conclusão de mais um troço ferroviário da linha Qinghai – Tibet, a mais alta do mundo. O jornal publicava um documento emitido pelo Gabinete de Informação do Conselho de Estado sobre o Prorgesso dos Direitos Humanos da China em 2009.
No dia 28 de Setembro, o TS falava da visita de Bill Gates – que se encontrou com Li Keqiang, salvo erro vice primeiro-ministro da China – e Warren Buffet em Pequim. O jornal falava de aldeões que esperavam os bulldozers que lhes iam demolir as casas. Benigno Aquino, presidente das Filipinas, tinha intenção de distribuir contraceptivos ao pobres, apesar da oposição da Igreja Católica . Peter Jackson estava em conflito com a indústria cinematográfica australiana, que ele acusa de querer ganhar dinheiro com “The Hobbit” e acabar com a industria cinematográfica neozelandesa – de notar que os australianos são considerados os americanos desta zona. A capa da edição era um anúnico da Corporação Mongoliana de Mineração, apoiada pelo Citigroup e pela JPMorgan.
No dia 29 de Setembro, o TS noticiava celebrações do Confúcio.
No dia 1 de Outubro, o CD abria com a contagem decrescente para o lançamento da segunda sonda lunar chinesa. Depois havia a paragem nas conversações entre norte e sul coreanos. Warren Buffet ia investir mais na China dado o seu potencial de crescimento económico.
No dia 7 de Outubro, o TS noticiava que uma mulher de 97 anos tinha sido atacada por um rato num apartamento.
No dia 8 de Outubro, nào me lembro se no TS ou no CD, falava da crise dos reféns de Hong Kong nas Filipinas. Outras das vítimas tinham sido os meios de comunicação: o presidente Benigno Aquino poderia intentar acções contra certos órgãos de comunicação e reduziria ou eliminaria as acusações dos processos movidos contra os políticos responsáveis – traz-me à memória o perdão de George W. Bush ao seu amigo I. Lewis Libby, alta patente na Casa Branca, acusado de perjúrio e de obstrução à justiça. O preço das casa em Hong Kong continuava a ser assunto. Alice Cheng, irmã do bilionário coleccionador de arte chinesa Robert Cheng, tinha comprado um vaso da Dinastia Qing por perto de 235 milhões de Hong Kong dólares. Xangai tentava acabar com a especulação imobiliária.
No dia 11 de Outubro a capa do TS era um anúncio do banco Lloyds TSB International. Kim Jong Un aplaudia as tropas norte-coreanas, repetindo os gestos do pai.
No dia 13 de Outubro, em Hong Kong os leilões de casas quebravam recordes. As três mulheres mais ricas do mundo eram chinesas. A poluição e o cheiro de um aterro em Tseung Kwan, em Hong Kong, era motivo para uma manifestação por parte dos residentes da zona. No CD, o presidente o Hu Jintao erguia a tocha dos Jogos Asiáticos no Templo do Céu, dando início à cerimónia da passagem da tocha. Fosse em Hong Kong, fosse em Xangai, o preço das casas andava perto do incomportável. O desenvolvimento, a guerra cambial com os EUA, o prémio Nobel e o desenvolvimento e a sustentabilidade ocupavam grande parte do espaço editorial/ de opinião. Um em cada três moinhos eólicos erguidos no mundo – a cada 30 minutos – eram erguidos na China.
No dia 14 de Outubro, o CD dizia que a receita da China ia diminuir e isso aliviaria a pressão feita pelos EUA e pela União Europeia. A estrutura 4-2-1 (4 avós, 2 pais, 1 filho) estava a criar problemas de assistência à 3ª idade. A China continental oferecera-se para iniciar conversações militares com Taiwan. A Festa do Fantasma, semelhante ao Halloween, durante a qual os Portões do Submundo se abrem para que os fantasmas viessem, parecia ter o desinteresse dos mais jovens, embora houvesse quem achasse que isso mudaria quando o governo reconhecesse a festa como parte da herança cultural intangível da nação. Nos artigos de opinião, destacava-se a da violência domestica, descrita como um dos piores flagelos da China moderna. O TS dizia que os lucros da JPMorgan tinham subido 23%. Em Hong Kong, um aterro planeado para um parque natural  não ia por diante. Um grupo de anciãos reformados do PC Chinês tinham pedido a abolição das restrições à liberdade de expressão.
No dia 15 de Outubro, a capa do TS era um anúncio da Swiss International Air Lines. A dívida dos EUA à China subia para níveis recorde.
No dia 17 de Outubro, o CD reproduzia as palavras de um porta-voz do Ministério do Comercio em que este dizia que a estabilidade da economia chinesa erra benéfica para os americanos e que estes deviam parar de politizar as questões cambiais. Aumentava a desigual redistribuição da riqueza e isso parecia preocupar o PC Chinês. Na secção dos comentários, os ‘alvos’ – com ou sem razão – eram Liu Xiaobo e a disputa sobre a posse das ilhas Diayu entre a China e o Japão. Na China, o preço das casas subia. A pessoa mais velha da China tinha 125 anos.
No dia 18 de Outubro, o TS falava de violentos protestos anti-japoneses en Sichuan.
No dia 19 de Outubro, a capa do TS era da Blackrock, um banco de investimento de Hong Kong. Tudo apontava para que o sucessor de Hu Jintao em 2013 seja o 'príncipe' Xi Jinping, o actual vice-presidente. A tensão entre chineses e norte-americanos sobre o yuan continuava. Aparentemente, Bin Laden vivia confortavelmente numa casa protegido por locais e membros dos serviços secretos paquistaneses, dizia um oficial da NATO, que acrescentava que ninguém da Al-Qaeda vivia numa caverna. Que surpresa! Esta farsa torna-se menos hilariante a cada dia que passa. O resto do jornal eram anúncios e artigos para a classe média alta – ou com pretensões de subirem a esse estrato. O CD abria com a reunião do Partido Comunista Chinês, onde se tinham pedido reformas. Outra notícia dava-nos conta do interesse dos chineses mais abastados por charutos.
No dia 20 de Outubro, o TS dizia que na China as taxas de empréstimo e de depósito subiam para conter a inflação.
No dia 22 de Outubro, o TS diz que o tufão Megi ameaçava Hong Kong. A inflação continuava a subir. Um activista de tofu tinah recebido uma prelecção de um juíz sobre educação cívica antes de ser mandado para a prisão durante 14 dias. Depois disso, havia publicidade: de políticos metidos em escândalos de terrenos a chorarem-se. O CD publicava mais artigos de opinião sobre os direitos humanos na China. Nessa área, a opinião que tinham sobre a abordagem dos ocidentais não era a melhor... A publicidade, a música e as artes faziam o resto.
No dia 23 de Outubro, o CD abria com a hostilidade entre a China e os EUA como central na reunião do G-20. Depois, o jornal noticiava um treino no Aeroporto Internacional de Pequim com a vista à preparação  para a eventualidade de um ataque terrorista. A Mercedes-Benz investiria 3 mil milhões de euros na China até 2018. Na secção de artigos, “Lute por um futuro melhor, mais brilhante” falava de modernização, mudanças, oportunidades, meio ambiente, desafios e desenvolvimento – a 'chave-mestra' para todos os problemas na China.
Notícia sem fonte e sem data: o novo código da Internet, HTML5, era uma poderosa actualização na recolha de dados, pois podia recolher vários meses deles – eu já li sobre esta possibilidade existir... há 3 ou 4 anos.
Este é o fim da investigação. Isto não parece tudo igual? Os bonecos têm uma cara diferente... Como diz a canção: “A única fuga/ É a loucura!”