11 de Junho de 2010 (11:57) – Mais uma vez de volta a estas páginas. A 29 de Maio morreu Dennis Hopper, o actor que fez e produziu o Easy Rider, um filme icónico dos anos 60 – assim foi considerado pela crítica. Também esteve no Blue Velvet e colaborou com Gorillaz em “Demon Days”.
As próximas linhas serão dedicadas às impressões tidas em alguns espectáculos a que aqui assisti no âmbito do XXI Festival de Artes de Macau. Vou começar pelo espectáculo “Jazz com a Orquestra de Macau”, o qual teve lugar, às 20h00, no auditório da Torre de Macau. Foi agradável e para mim teve o especial interesse de ouvir peças do George Gershwin pela primeira vez, caso de “Um Americano em Paris”e “Rhapsody in Blue” – da qual não estou certo de se poder passar para “Rapsódia em Azul”. A outra peça do programa era um concerto para piano e orquestra. O pianista faria um encore de dois temas, o primeiro deles dedicado à mãe e o outro fá-lo-ia com a orquestra, o segundo acompanhado da orquestra e no qual o, salvo erro, oboísta, vestido com um fato vermelho, fez pantominas. A orquestra pareceu bem, o maestro e o pianista também estiveram bem. Saí de lá satisfeito, mas não com a sensação de ter assistido a uma coisa extraordinária. Claro que o tempo foi bem empregue. Quando saí, estava a chover e eu estava com fome. Fui jantar.
O dia 16 de Maio foi o de “A Lança Dupla de Luk Man Long”, pelo Grupo Infantil da Associação de Ópera Chinesa dos Kaifong de Macau. Foi numa cinema com o nome “Alegria”, começou às 15h00 e acabou cerca das 18h00, com um intervalo de cerca de dez minutos pelo meio. A história gira à volta de uma batalha “(…) entre os Han da dinastia Song e os Jurchens da dinastia Jin (…)”, a qual será vencida pelo general Jurchen de nome Luk Man Long... na realidade um filho do império Song, o que depois lhe será confirmado pela sua ama. Acabará por regressar ao acampamento Song e os Jurchen serão derrotados. A 'dupla lança' é a arma que Luk Man Long usa muito bem, graças ao domínio da técnica de combate com esta – já teria reparado antes, mas é curioso o lado simbólico da arma. O Cinema Alegria fica num edifício muito antigo, numa paralela à Avenida Horta e Costa – uma das mais importantes avenidas de Macau – e fica numa zona com construções também elas antigas, talvez de cerca de meados do século passado – esqueci-me do meu carbono 14. Cheguei lá de táxi, na companhia de uma amiga – Paula, professora na Escola Portuguesa de Macau. O sítio não era muito longe do IFT – Instituto de Formação Turística – onde tenho dado aulas. O cinema é um espaço que não parece ter muito uso, o que deve ser um erro de percepção meu, pois não vou muito para aqueles lados. Devem exibir lá coisas, pois, quando entrei, nada havia que indicasse abandono. Era apenas o exterior do edifício que tinha esse ar – aqui o clima trata mal os edifícios, coitadinhos. À frente do palco, o fosso (?) da roquestra, onde estavam uns quantos músicos – só viria a ver três ou quatro – a providenciarem a banda sonora. Eu não estava muito desperto e houve uns momentos me que perdi o fio à meada, mas aquilo foi interessante. Era teatro com música, misturado com dança. Quando havia fífias, ninguém perdia o andamento. As pessoas à minha volta acharam graça e gostaram muito do espectáculo – entenderam-no de uma maneira necessariamente muito diferente da minha. Aplaudiram muito o grupo, que parecia ser bastante famoso. Apesar disso, a sala não estava cheia. Os miúdos, todos abaixo dos 15 anos, estiveram bem.
O espectáculo seguinte foi a 22 de Maio no Centro Cultural de Macau, desta vez para ver ”Sabroso Nunca! (Bom Petisco!)”, espectáculo de teatro de revista a cargo do Grupo de Teatro Dóci Papiaçam di Macau, peça antecedida pelo Trio Balichão, um grupo musical do qual fazia parte o pai – avô ? – de Miguel de Serra Fernandes, dramaturgo e encenador da peça. Miguel de Serra Fernandes, advogado de profissão, é co-fundador do grupo e é autor de praticamente todos os textos dele, os quais têm a particularidade de serem escritos em patuá, dialecto de Macau que tem sido objecto de investigação de Miguel de Serra Fernandes – e não só. Este ano o tema era a culinária macaense, cujas receitas se têm perdido, às vezes por falta de vontade das pessoas em as partilhar. À volta deste tema duas histórias que se encontram, a finalidade das principais personagens de ambas as histórias a de ganharem um concurso de culinária macaense. Se a peça foi engraçada, teve sobretudo muto interesse por causa do patuá, o qual me soa ao crioulo cabo-verdiano – há um livro publicado sobre o patuá que se chama ”Maquista Chapado”, mas que parece que está esgotado, foi também uma noite boa. É especialmente de louvar o grupo, que se tem mantido em actividade, pois tudo o que se viu é resultado do amor à camisola. Tenho vindo a perceber melhor o que é não desistir de uma ideia que se tem. É por isso que ando a ficar cada vez mais fã de Motorhead.
O último desta série de espectáculos foi no dia 23 no Teatro D. Pedro V, com Movin’ Melvin Brown, o qual apresentou o espectáculo “Me, Ray Charles and Sammy Davis Jr.”. O título resume o evento, ele a interpretar sobretudo canções dos cantores acima mencionados, às quais juntou canções de Harry Belafonte, Nat King Cole e dois ou três originais dele. Incluiu também um moonwalk à Michael Jackson ao som de, salvo erro, um tipo de música irlandesa. Normalemente, cada uma das peças era antecedida de uma pequena história. As do Ray Charles e as do Sammy Davies Jr. foram divertidas: o humor a (re)tratar assuntos sérios resulta sempre bem. O que teve mesmo piada foi que aquela noite foi bem mais que uma surpresa agradável, pois eu e uma série de amigos fomos lá a pensar que aquilo poderia não ser grande espingarda – a fonte dessa impressão era uma pessoa que tinha ido ver o espectáculo na noite anterior. Quando ele começou a cantar – bem – e a exibir a sua mestria na arte do sapateado, todas as dúvidas se dissiparam. A energia e a alegria dele fez as pessoas dançar e bater palmas – bom, eu dancei e bati palmas. E o riso dele – he... he... he... – foi também um ‘momento’ alto. A verdade é que tudo aquilo me pareceu muito genuíno. Até houve duas mulheres que foram ao palco dançar, uma delas chinesa – se pensarmos que os chineses normalmente não gostam da exposição... – e a outra portuguesa. No fim do espectáculo, fui comprar um CD e, de seguida, pus-me na fila para o autógrafo. Quando chegou a minha vez, disse-lhe que tinha gostado do espectáculo, em especial do momento James Brown que ele incluiu. Ele disse que tinha feito um espectáculo baseado no ‘Padrinho’ no ano anterior. Depois fui-me embora. Enfim, eu não lhe disse nada de especial. O que é que eu poderia dizer? A impressão dos meet and greet que vi tantas vezes confirmou-se. Foi uma noite muito boa, com alegria e música.
Com este espectáculo terminou a minha experiência enquanto espectador no XXI Festival de Artes de Macau. Depois disto, as saídas têm sido mais para jantares. Os concertos de certo tipo nesta zona do planeta são raros – os Metallica vão ao Japão a 25 e a 26 de Setembro. Talvez vá ver... embora esses concertos de interior não sejam com o palco no meio do pavilhão. Slayer e Motorhead , nada. Estou a sonhar alto quando penso em Tom Waits. É tentar ver o que há em Hong Kong. A verdade é que eu já vi muitos dos artistas que queria ver pelo menos uma vez na vida. Há outras coisas para fazer e outros sítios para ir ver. Não hão-de faltar coisas interessantes para fazer. Vão é deixar de existir motivos para eu estar desocupado.