quinta-feira, 29 de outubro de 2009

29 de Outubro de 2009

29 de Outubro de 2009 (00:14) – Para mim a televisão tornou-se uma entidade sem vida – partindo do princípio de que em tempos a fora: no serviço noticioso, a seguir ao – falso – problema nuclear do Irão vir a história de uma família que andava a experimentar um papagaio – tenho memória de que era movido a energia solar – diz tudo. A estação de que estou a falar é da BBC, de que suspeito guardei uma imagem de credibilidade que, afinal, era – pelo menos – parcialmente falsa.

Foram nove dias de um jogo novo com uma mão um pouco melhor, mas as terças e as quintas continuam a ser intranquilos dias de aulas. No fim, tudo será contabilizado e se verá qual o saldo. Na sexta-feira à noite, depois das aulas fui com a Cátia até à Lusofonia, um evento cultural levado a cabo por esta altura do ano e que dura o fim-de-semana. Muita gente de muitos sítios numa festa, logo um acontecimento onde a venda de comida e de bebida marca o decorrer dos acontecimentos. Vi lá um ou dois alunos meus e, até ao fim da noite ali, conheci mais algumas pessoas – muitos nomes e muitas caras para fixar. A Cátia estava a vender caixas e quadros e a venda correu bem. No sector alimentar, o sítio mais concorrido foi a barraca do Brasil por causa das caipirinhas – só bebi três. Da vez em que estive lá à espera para ser atendido, pude observar, apesar do barulho dos bêbados à minha frente, o trabalho das mulheres que as estavam a preparar. Era um local de trabalho pouco invejável: muitas horas de pé sempre nos mesmos exíguos metros quadrados a trabalharem ininterruptamente a grande velocidade. Umas a ‘pilar’ açúcar com um almofariz juntamente com a cachaça, outras a misturar lima e gelo e outras a encherem os copos com as doses de cachaça – havia várias garrafas dela em cima da mesa. Mais uma vez, um trabalho nada invejável e ao qual, provavelmente, se somava o extra de ter ouvir os bêbados a reclamarem por causa da falta de rapidez delas no atendimento – e de falta de entendimento delas – da sua sede. Estive ainda um pouco mais à conversa com pessoas várias até eu e a Cátia termos saído dali num táxi, chamado por dois ex-alunos meus da CPSP que estavam em formação naquela zona – pelo menos parecia. Cheguei a casa cerca das 02:38.

Acordei no sábado cerca das 08h00 e depois do pequeno-almoço no Ou Mún, voltei para casa para almoçar, tendo depois voltado a lá ir para me encontrar com a Paula e o Pedro para irmos a Zhuhai, com o objectivo de comprarmos os bilhetes de autocarro com destino a Foshuan, cidade da China que será objecto da minha visita na semana que vem. Depois das formalidades aduaneiras, fui comprar umas – por mim muito – necessitadas calças e camisolas. À excepção de um dos pares de calças, as restantes peças de roupa eram brancas. Passámos pelos DVDs e comprei Black Sabbath, Ozzy Osbourne, Skinny Puppy, Slayer, Metallica e mais um documentário sobre heavy metal. Acabámos por não conseguir comprar os bilhetes porque – depois de uns minutos de troca de impressões inentendidas por ambas as partes – não era possível comprá-los com tanto tempo de antecedência. Passámos pela banca de um senhor chinês que vende anéis, colares e incenso – entre outras coisas – e um comprei um anel e duas caixas de incenso. Já com tudo tratado, fomos ao E.S.Quimo, onde comemos e conversámos durante um bom bocado. De volta a Macau, o passo seguinte foi um excelente jantar na “A Petisqueira”, depois da qual seguimos para a segunda noite da Lusofonia. Vi o Manuel a tocar guitarra no Grupo Folclórico de Macau e depois passei mais ou menos o tempo a ver o movimento e a ouvir os Quinta do Bill, os quais deram, segundo fontes fidedignas, um bom espectáculo. Não sendo um apreciador da música deles, é fácil reconhecer que a música deles é animada e a verdade é que animou as pessoas. Estava muito calor – esteve-o durante as noites todas – e eu estava um bocado cansado e eu e a minha falta de disposição voltámos cedo para casa, à qual cheguei cerca das 00:45.

No domingo, despertei de uma noite mais ou menos bem dormida que as anteriores e, ao pequeno-almoço, sucederam-se os cafés no Ou Mún. Dei umas voltas para ver de livros – não comprei nada – e depois do almoço voltei ao café acima, onde estavam o Paulo e Pedro com as minhas compras do dia anterior – então deixadas em casa deles – e combinarmos o jantar com outros suspeitos – Mané, Manuel e o filho David – num restaurante brasileiro na Nova Taipa. Ainda vim a casa ver mais Sons Of Anarchy e depois lá fui jantar. À refeição seguiu-se uma caminhada de uns minutos até à Lusofonia, que seria dominada pela actuação dos Mercado Negro, banda portuguesa de reggae. Eram bons, mas eu estava com pouca vontade de dançar. O som não me pareceu estar grande coisa, infelizmente. De resto, estive à conversa com quantos do grupo lá estavam; conversa essa pontuada pela caipirinha que a Mané me ofereceu, pela caipirinha que a Cátia partilhou comigo – tal como uma da noite anterior – e pelos licores – de um fruto cujo nome me escapa – dos Açores. Também houve tempo para um copo de sangria e depois fui-me embora com o Rogério e a Sandra de táxi – eu não tinha dinheiro.

Na segunda-feira acordei cerca das 09h00 e estive a ver o “Cunning Stunts” dos Metallica, um dos DVDs de Zhuhai… quer dizer, feito lá. É estranho ver aquilo porque, de facto, hoje a onda é outra: menos arrogante, mesmo um Lars Ulrich, o qual continuará a ser talvez o menos preferido pelos fãs da banda. O DVD retrata a digressão do Load e é provável que o espectáculo deles consuma tanta energia quanto droga. Aquilo começava a ser muita pose. Hoje há pouca, mas aquilo é uma multinacional: se é verdade que quando dão 50 mil dólares ara ajudarem na investigação do desaparecimento de uma fã deles num concerto mostram preocupação, também é verdade que o fazem porque podem. Também é uma boa campanha de RP, mas aqui se calhar estou a ser cínico. Mas lá tomei o pequeno-almoço e fui até ao Caravela para os cafés e para ver se conseguia ler ou escrever alguma coisa. Já era meio-dia e uns trocos e havia muita gente a almoçar. Muito barulho. Vim para casa e tratei do almoço, depois de ter procurado por um candeeiro de mesa na Daiso – sem sucesso. A seguir, estive a tratar de assuntos pela Net, nomeadamente ver com a Cátia o teste para os alunos do CCAC. Às 19h15 encontrei-me com o grupo de suspeitos habituais para irmos ver os Delfins, naquilo que é a última digressão deles. Chegámos ao castelo – ou fortaleza ou outro edifício qualquer do qual só sobravam algumas muralhas ou muros – e sentámo-nos. As minhas reservas eram grandes: eles a partir de certa altura começaram a editar discos com músicas que oscilavam entre o aborrecimento e um aborrecimento grande, sem esquecer aquilo que parecia uma certa pose, em especial do vocalista Miguel Ângelo. À hora marcada lá começaram e o que eu digo é que gostei do concerto. As músicas sofreram importantes arranjos rítmicos e harmónicos – enfim, o suficiente para serem vizinhos da estranheza. Aquilo estava mais rock – por si só não quer dizer nada – e a verdade é que aquilo ganhou vida. Foi fácil perceber que o Rui Fadigas – baixista – é o condutor. A secção rítmica foi, como é de regra em qualquer banda, o grande motor da banda. Os outros portaram-se bem. O Miguel Ângelo não se saiu mal, à parte uma ou duas tiradas redundantes para o objectivo do espectáculo, que é a música: que ele tenha gravado/ convivido em estúdio com o Carlos do Carmo ou que tenha gravado em Inglaterra só é um facto pertinente e verdadeiramente relevante para os da banda. Deixando de lado o aparte, o importante é que gostei de ter presenciado o concerto. Dancei ao som da música daquele concerto, vários são os que o podem testemunhar. O som do PA estava impecável e, quando no fim do concerto vi Carlos Cruz – ex-colega de curso da EPMAA com quem falei um bocado – por detrás da mesa de mistura percebi que o resultado não poderia ter sido outro. Depois fomos ao tailandês para umas doses de conversa e de comida, findas as quais foi cada pessoa para sua casa.

Terça-feira foi dia de IFT – correu bem – e de módulo VI, que não correu mal, mas cometi um ou dois erros, todos falta de concentração… e da lembrança que eles seguem à risca as regras que estão no livro. Quarta-feira foi dia de módulo I e de olhar para as provas dos alunos do CCAC com base no teste escrito da Cátia. Alguns revelavam sinais pouco auspiciosos, mas seria coisa que se viria a revelar sem fundamento, embora tivesse sido estranho que só dez tivessem feito o teste. Quinta-feira/ hoje foi de relativa tranquilidade, as aulas correram bem e não houve grandes acidentes. Os testes escritos dos alunos do CCAC tiveram notas elevadas e lembrei-me dos meus alunos da polícia. Ainda bem que tudo terminou bem. Foi um bom prémio para ambos, para ela especialmente. A próxima semana trará mais novidades, pois há uma ida à China. Até depois.

domingo, 18 de outubro de 2009

19 de Outubro de 2009

19 de Outubro de 2009 (00:25) – “Projecto dos Serviços Juvenis na Área dos Comportamentos Desviantes” é bonito, não é? Era assim que estava no cartaz da montra de um escritório de um departamento governamental – escapa-me o nome. Fiquei a pensar que não será só na China que há algo assim. Havê-lo-á em Portugal? Caso não haja, não creio que o dia venha longe.

A semana foi uma de alguma ansiedade, em especial por causa do módulo VI: dera-lhes como TPC a escrita de uma previsão astrológica inventada para o ano de 2010, cujo objectivo era treinarem as expressões de futuro, Futuro do Imperfeito incluído. Vimos vocabulário. Tinha de lhes ter dado um ‘modelo para eles seguirem. Em vez disso, expliquei-lhes o que pretendia. Terminada a explicação, fiquei com impressão de que não tinham reagido muito bem; isto é, não perceberam o que haviam de fazer. Na 5ª feira, corrigi o erro arranjando-lhes um modelo, que levei algum tempo a conseguir escrever – claro que primeiro achei que era uma coisa complicada de se fazer. Não achava nada na Net que seguisse o esquema que eu tinha imaginado: uma estrutura onde eu pudesse simplesmente substituir uns substantivos, adjectivos e verbos por outros. Claro que a solução era algo tão simples como copiar – inventando aqui e ali – uma previsão já existente de um signo qualquer, que lhes desse uma ideia do pretendido. Na aula de 5ª feira ditei-lhes o texto e depois vimos vocabulário. Pareceram-me mais esclarecidos. A aula correu bem, ao invés da de 3ª feira: uma das causas do nervosismo é a auto-avaliação do meu desempenho, adequada preparação das aulas incluída. Não gosto de responder ‘não sei’ quando me fazem uma pergunta: não me parece uma resposta que eu veja neles como tendo ficado com boa impressão. Parece faltar uma resposta mais sintáctica e um pouco menos semântica. O que acontece é que eles com a gramática não se dão mal; já com o lado semântico a coisa não corre muito bem. A solução é simples: tenho de agir.

Aqui o tempo está a ficar cada menos húmido, logo suportável até nos poucos dias de algum calor das últimas três semanas. Depois do jantar com a Paula e o Pedro na 6ª feira, passei pela Pin-to e a única coisa que me fez gastar dinheiro – 80 patacas – foram dois CDs dos Soul Coughing. Só tenho primeiro álbum; e só em cassete. Enfim, gosto da banda e por isso considero o dinheiro bem gasto. A Pin-to anda parca em certo tipo de novidades. Nem sempre me apetece ouvir música electrónica experimental. A Saji 1 e a Saji 2, colectâneas editadas pela Subjam que comprei em Hong Kong, caem dentro desse género. A música é agradável e interessante e com uma identidade tão própria que me parece fazer fronteira com a falta de identidade. É uma música intimista, embora diferente da de 1926, grupo ou artista de quem não sei nada: o CD que eu tenho é uma música ‘pianística’ – só um dos temas tem fita pré-gravada – que oscila entre o lirismo clássico e o lirismo contemporâneo. É agradável, mas faltam-lhe temperos.

No sábado a manhã começou com a vinda ao Ou Mún para os cafés. Depois de “Broken Summers” de Henry Rollins, comecei a ler “Os Irmãos Karamazov” de Dostoievski. Uma vida interessante: até certa altura viciado no jogo, terá também participado numa conspiração política que o levou a ser condenado à morte por fuzilamento. Porém, no último instante, a sua pena ficou reduzida a quatro anos de trabalhos forçados na Sibéria. Regressaria a S. Petersburgo dez anos depois um homem profundamente modificado. Já tinha lido outras coisas dele; o estilo e a pertinência são marcas que também este trabalho exibe. A estrutura das histórias e a forma de as contar são simples. São os assuntos e os traços de personalidade das personagens que operam a magia. Depois disso, estive o resto do dia em casa a trabalhar e acabei algumas das coisas que tinha em mãos, nomeadamente por em ordem o caderno de mandarim. À noite vi três episódios da primeira série do “Sons of Anarchy”, de Kevin Sutter, o qual também esteve por detrás do “The Shield”, uma série à volta do dia-a-dia e das tricas de uma esquadra de polícia e que contava com a Glen Close no elenco. Em comparação, o “Sons of Anarchy” é mais limpo, menos claustrofóbico. A série gira à volta de um bando de motoqueiros que se dedica ao tráfico de armas na sua vila ‘perdida’ no interior dos Estados Unidos. Há os negros que traficam cocaína ou heroína, os mexicanos que também traficam armas – logo rivais dos motoqueiros brancos – e os nazis com uma fábrica de metadona e que estão a tentar invadir Charming, a aldeia. O outro bando é o da polícia, a qual tenta gerir, por intermédio do seu velho chefe, a paz e a estabilidade do sítio trocando favores com um seu conhecido de há muito, o presidente do clube de motoqueiros – o polícia novo, sedento de ordem e progresso, quer impor a ‘lei e a ordem’. O presidente do clube anda com a mãe do vice-presidente, um puto novo e filho do criador do clube. Ele é o herói, do lado da justiça e da equidade e, sempre que possível, do não uso de armas – aparentemente, tem menos problemas em deixar um outro à beira da morte depois de o encher de porrada. O herói tem um filho nascido prematuramente da ex-mulher toxicodependente. O presidente e a mãe controlam o clube, são eles que o informam da sua conduta.

Ontem acordei depois de dormidas umas sete horas e fui até ao Ou Mún para a cafeína. Depois fui pagar a Internet, tendo depois passado pelo Royal para umas compras. Até à aula de mandarim, o tempo foi dividido entre a preparação e a ingestão do almoço e mais uma etapa na reorganização do caderno de mandarim. A aula correu bem, apesar da falta de estudo se fazer sentir um pouco. Depois foi o regresso a casa para uma sessão de exercícios, após a qual estive a passear na Net, tendo depois ido ter com a Paula e o Pedro para um jantar no tailandês. A sopa estava excessivamente picante. O movimento seguinte foi o da ida a casa da Cátia para beber um café e onde também ouvimos Wim Mertens enquanto cada um fazia ouvir o seu ponto de vista sobre o niilismo, Nietzsche, a moral e a presença ou ausência do Nicholas Cage no “Padrinho III”, entre outros assuntos. Vim-me embora e a seguir a isto vou-me deitar. Mais uma semana, mais cinco dias de trabalho. Mais uma volta – com novidades, como sempre.

domingo, 11 de outubro de 2009

11 de Outubro de 2009

11 de Outubro de 2009 (21:05) – Semana menos curta que a que precedeu. As aulas continuaram dentro do mesmo ritmo; a primeira leva de exercícios que preparei para as turmas de Módulo I e VI no IPOR foram entregues. Faltam preparar exercícios para mais sete unidades de matéria que será dada até fins de Janeiro. Gostaria de a passar a computador, mas é um processo que nas minhas mãos exige muito tempo por causa da minha lentidão nas teclas. Se for pelo método do ‘corte-e-cola’, popó tempo e trato de passar tudo a computador mais tarde – um investimento no futuro. Na terça-feira, fui ao CCAC apresentar a Cátia – e dizer adeus – aos meus agora ex-alunos. Ficam bem entregues: vão ser 90 minutos frutíferos e bem passados.

Em casa tudo está na mesma. Aos dias de semana só aqui venho para as refeições e para dormir ou então para, depois do almoço, voltar do trabalho. O prédio parece uma instalação contemporânea: Composição Para Três Berbequins. Não sei quanto tempo é que a obra vai demorar a executar e eu não gosto da composição porque o compositor parece não ter tido em consideração a possibilidade de o ouvinte estar próximo da fonte sonora. Não é tanto a vibração do chão e das paredes em si mesmas. É antes a perda de uma certa musicalidade. Continuo a ver documentários do John Pilger – War on Democracy, Freedom Next Time, New Rulers of The World e uma conferência em que ele diz que o Obama é uma criatura nascida do marketing político e económico –, assim como do Michael Parenti – Empire versus Democracy e Struggle For History – e do Alex Jones – o excelente The Obama Deception – com quem é preciso ter alguma cautela. Aparentemente está em curso – não sei se terá acabado – a coroação do imperador Obama: depois das Nações Unidas, recebeu agora o Prémio Nobel Da Paz. Um prémio destes tem um valor residual, pois não premeia os factos – quer dizer, sob a presidência dele ainda não morreram muitos milhares de pessoas. Talvez seja isso… A sexta-feira à noite foi uma de jantar no Boa Mesa, seguida de conversa com o Pedro, um dos tipos que lá trabalha – acho que ele não é sócio. Já ‘tenho’ mais uma nacionalidade. Segundo ele, pareço francês. Quem sabe o que se seguirá… Foi uma boa conversa, ele já esteve a viver em muitos sítios. Aparentemente, os australianos, de uma forma geral, não são bem vistos por aqui. São considerados arrogantes, os norte-americanos da Ásia. A história deles em Timor-Leste não é nada dignificante.

No sábado voltei a acordar às 7 da manhã e, depois de ter tomado banho, estive a ver o Jimi Hendrix – então com Gypsy, Sun & Rainbows – em Woodstock. Dá prazer ver e em especial ouvir a música: é um cliché dizê-lo, mas é uma música que vai resistir à passagem do tempo. É engraçado ver o concerto, pois pela postura de palco parece ser uma pessoa humilde e com pouca vontade de protagonismo. É fácil ver o gozo dele em estar a tocar – ali ou noutro sítio qualquer, suponho. Depois fui beber os meus cafés ao sítio de sempre e depois de umas compras, voltei para casa e preparei o almoço, tendo revisto – fingia que revia – a anterior aula de mandarim. Depois do almoço, lá fui para a minha terceira aula, tendo depois voltado ao Ou Mún para um chá de limão gelado – Tong Lemon Chá – com a Paula e o Pedro. Depois fui para casa passar umas coisas e, passado um bocado, estava novamente no Ou Mún para o jantar de aniversário da Cristina. Do grupo dos suspeitos só faltava a Cátia. Um par de horas bem passadas a conversar e a comer e depois o regresso a casa ao computador para pôr correspondência em dia.

Também hoje o pequeno-almoço foi ao som de Hendrix em Woodstock. Ouvir a música dele relembra-me a importância do Mitch Mitchell, o baterista. Parece possuir uma energia ilimitada e ele contribui muito para a música. Teria sido interessante ele e o Hendrix fazerem música só os dois, afim do que o John Coltrane e o Rashied Ali – morreu há pouco tempo atrás – fizeram no Interstellar Space. Do pouco que eu conheço do Coltrane – os músicos de jazz têm sempre gravações em quantidades descomunais; quase fazem dos músicos de rock, com excepção do Frank Zappa, uma bando de preguiçosos – esse é um dos meus álbuns favoritos. O outro é o Giant Steps. Depois de comprar uma caixas de CD no ‘hipermercado dos 300’ Daiso – á porta do qual fui ‘assediado’ por uma filipina. Não é só nas discotecas, pelos vistos… – vim para casa e almocei enquanto via o John Pilger na Melbourne Writers Festival – para falar de Power, Propaganda and the Silence Of Writers. Depois acabei de passar a limpo um trabalho que fiz na faculdade sobre o Malangatana: está feito, menos uma coisa pendente. Depois disso fui à minha sessão de exercício, após a qual jantei.

Vou terminar com as minhas impressões acerca da música dos Blackbird e o seu Body Of Work: 1984-2004, saco de 7 CDs que agrupa todo o material de uma banda já extinta. O East is Red/ Generation 97 de 1984 soa a rock doa anos 70, dentro do que eu me lembro do estilo dos Mott the Hoople, dos Slade ou de certas coisas dos The Who, mas com um som misturado à maneira dos anos 80. Manifesto (1986), Living Our Lives (1987), People Have The Power (1989) e Uniracial Subversion (1995) mantém, no geral, um som à maneira da década de 80 do século XX, mas de 1986 a 1995 vão refinando o seu modo de expressão, com um momento de experimentalismo sonoro, muitas vezes partindo da inclusão de fitas pré-gravadas. Estilisticamente, o seu rock é normalmente de tipo ligeiro, mas entremeiam-no com blues, reggae e até um punk rock sujo que me lembra os Crass. As preocupações são de tipo libertário e, além de temas ecológicos, falam muito da opressão dos trabalhadores em todo o mundo, socorrendo-se de gente do meio socialista operário de finais do século XIX e inícios do do XX – além de versões de canções da Patti Smith. A instrumentação é, com excepção do aparecimento do ehru – violino chinês – em alguns dos temas, baixo, bateria, sintetizador, guitarra, fitas pré-gravadas e voz. Singing In the Dead Of Night (2004), mantém muitas das características anteriores, mas a mistura parece melhor: mais limpa, sem tanta bateria tratada. Outra mudança é a da maior presença do ehru nas canções. Característica que sempre mantiveram foi o de cantarem em mandarim – suponho eu – e em inglês, com preponderância clara da primeira das línguas. Com excepção dos dois álbuns menos antigos, muitos deles tinham algo que me lembrava os Minimal Compact, fosse qual fosse o tipo musical – memórias musicais de Clash e Crass também foram evocadas durante a audição. Parece-me que seria por causa do timbre de voz do vocalista e do seu modo de inflexão. Não é possível classificá-los imediatamente; o seu interesse não parece exclusiva ou primordialmente musical. As que embalagens que escolheram, capas de cartolina/ cartão pardo e folhetos desdobráveis de papel pardo, dizem muito acerca deles. Eu diria que a grande inspiração deles foram os Beatles – ou o John Lennon – ainda que a música de uns e de outros tivesse sido muito diferente. Ouvi-los foi tempo bem empregue – voltará a sê-lo quando os ouvir de novo. Verei o que me reserva esta semana que agora começa. Até depois.

segunda-feira, 5 de outubro de 2009

5 de Outubro de 2009

5 de Outubro de 2009 (19:12) – O dia de sexta-feira também foi bom e intenso. Mais uma daquelas ocasiões em que, quando o nervosismo e a preocupação, sobretudo relacionados com as aulas, não tomam conta de mim, vejo a minha vinda para aqui como um espécie de bênção. A outra versão disto é que esta oportunidade surgiu e eu, contrariamente a outras ocasiões, agarrei-a. Materialmente falado, tinha tudo para isso; e eu também estive à altura – já disse isto demasiada vez. Adiante.
Na sexta-feira o ponto de encontro foi à mesma hora e no mesmo sítio do dia anterior. Depois dos cafés, fomos até à Ponte nº12 – salvo erro, o Porto Yuengtong – para irmos até Jiuzhou, em Zhuhai. Comprámos os bilhetes, preenchemos o boletim de saúde, demos o BIR ao funcionário da alfândega, após o que saímos para o exterior e esperámos. No interior, que lembrava o ambiente d o antigo centro de saúde do Cacém, a senhora tinha dito que o percurso demoraria cerca de 30 minutos – a travessia propriamente dita não demorou mais de três minutos. Esperámos de 10 a 15 minutos para que pudéssemos entrar a bordo do barco, do qual estavam a sair aqueles que tinham chegado a Macau. Estávamos na fila, mas aparentemente havia uns quantos impacientes e puseram-se à frente de toda a gente, em parte para tentarem perceber o que se estava a passar. São muitos os chineses a não respeitarem quem chegou primeiro; mas, tal como com o arroto e a cuspidela, não são uma minoria aqueles que não acham graça. As passadeiras não fazem os automobilistas pararem, apenas o fazendo a existência de um peão-obstáculo – incontornável – no seu caminho. Os peões também fazem das suas: se uma multidão decide atravessar mesmo com o sinal verde para os muitos carros prontos a arrancar, atravessam com a toda a calma.
A embarcação a bordo da qual fomos era uma versão mais pequena e mais de despida de um cacilheiro já velho e sentámo-nos nos bancos de madeira que por lá havia e três minutos depois já nos estávamos a levantar para sairmos. Depois das formalidades alfandegárias habituais para entrarmos na China, saímos para o exterior de praça grande com duas bandeiras. Decidimos continuar pelo nosso lado direito – ir em frente – e ver o que o local nos oferecia. As construções eram semelhantes às que tinha visto para os lados de – também Zhuhai – Gongbei: pouco cuidadas, com muitos pisos e bastantes apartamentos por piso, com os passeios e as ruas cobrindo-se de folhas caídas. Dirigimo-nos para a zona mais à beira do rio. Havia ali um informal micro-mercado ao ar livre, onde vendiam comida e bugigangas: tentaram tentar-nos, mas nada encontrámos ali que pudesse ser tentador.
Descemos um pouco até ao espaçoso caminho cimentado mesmo à beira do rio. Estava um dia solarengo, a humidade estava dentro de limites relativamente suportáveis e havia sombra, dada pelas árvores a meia dúzia de metros do sítio onde estávamos. A dada altura do nosso caminho, vi dois polícias que caminhavam na nossa direcção e, com as mãos, fizeram-nos saber que deveríamos sair dali e subir para a parte superior mais próxima dos prédios. Seguimos as indicações deles, embora não tivéssemos imediatamente tentado imaginar qual seria o motivo para aquilo, embora tivéssemos conjecturado, com algum grau de acerto, que aquele caminho seria zona de acção militar ou policial e portanto, será proibida a circulação a pessoal civil ou outro sem autorização. A dado momento, virámos à esquerda, até darmos com uma espécie de condomínio fechado com fábricas, nas quais as pessoas que ali moravam trabalhavam. Aquilo tinha dois pontos de entrada – já tínhamos passado por um deles – e ambos tinham lá seguranças a ver quem entrava e quem saía.
Contornámos o ‘condomínio’ e fomos em sentido oposto àquele que fizéramos, agora junto à larga e grande avenida paralela ao rio e da qual não conseguia perceber nem fim nem princípio. Voltámos a passar pelo terminal marítimo e ponto seguinte da nossa curiosidade foi um pequeno mercado de peixe e marisco vivo, os quais – segundo disseram à Paula uns alunos dela – podiam ser levados a um restaurante ali das proximidades para serem cozinhados e comidos. Quarenta ou cinquenta metros depois de termos deixado mercado para trás, chegámos ao porto de onde saíam ‘cruzeiros’ panorâmicos em volta da península de Macau. Depois de um período de procura de bilhetes – cada uma custaria 80 RMB – e de horas e locais de partida, o Pedro lá encontrou um tipo que falava inglês e, com ajuda dele, lá fomos fazer o cruzeiro. Para irmos para o deck – ou deque – superior tivemos de desembolsar mais 10 RMB… nós e muitos outros.
Sentámo-nos numa mesa pequena de maneira a tentar impedir que alguém também ali se instalasse, mas sem sucesso – não tenho a certeza que todos percebam o que é ser invasivo; foi como esta a almoçar sozinho no restaurante e na minha mesa de 60x60 sentar-se um estranho à minha frente para almoçar também. O barco começou a andar e, sentado de frente para a popa, tinha Macau à minha direita. Tudo estava do lado oposto ou abrigado do sol quando, de repente, a multidão partiu freneticamente em direcção à minha direita, tentando apanhar os melhores lugares – sentado num banco de plástico encostado a uma grade de ferro – para, extaticamente, poderem ver a paisagem. De uma forma geral, tendo em conta que os chineses são extremamente consumistas, percebi que eles eram fáceis de controlar. Não chegou a ser uma epifania, mas aquele episódio tornou mais tangível a relativa facilidade com que o governo central chinês exerce o seu controlo. Basta estar na alfândega e ver como agem os funcionários: percebe-se que seguem as regras de perto, mas apenas para não perder a face. Seriam uma dádiva para qualquer governo ocidental – talvez isto não passe de um erro de análise. Durante o trajecto à volta de Macau – só foi até à zona dos casinos, não longe da estátua de Kun Iam, a Deusa da Misericórdia –, foram muito poucos os que não participaram no acto de tirarem fotografias ou da paisagem ou uns aos outros. Foi uma constante ao longo do percurso, era como se aquilo fosse um trabalho pago à peça.
Regressados ao porto, foi decidido voltarmos a Macau para o almoço. À chegada a Macau e após o barco ter atracado, o frenesim voltou a tomar conta da multidão, com as pessoas a atropelarem-se umas às outras – o Pedro, aquando da saída, tinha estado a tentar fazer de muro para uma senhora de idade poder passar, mas havia quem não quisesse saber disso; só queriam era passar à frente, fosse como fosse – eu não quero estar no meio de uma multidão aqui se ocorrer alguma emergência. Este tipo de episódios são frequentes aqui, de uma forma mais acentuada do que em Lisboa. Fomos ao Boa Mesa e, chegada a comida, foi o silêncio que imperou. Dali foi cada um para sua casa par, se a memória não me falha, nos voltarmos a encontrar no tailandês para o jantar – provavelmente o mais leve que ali comemos.
O Sábado foi feito de cafés no Ou Mún e das duas horas da aula de mandarim. Há muito para memorizar: é uma língua que requer esse modo específico de apreensão de conhecimentos mais do que qualquer outro. Depois da aula, voltei a casa e li e tratei de material para as aulas, tendo voltado a sair para o jantar no D. Afonso III com a Paula e o Pedro. Depois de jantados, fomos ver do bar de jazz: estava fechado. Seguimos até ao Jardim Camões – encontrei lá dois polícias que tinham sido meus alunos no curso da manhã que dei na CPSP – e vimos – o possível – da Fundação Oriente. É uma zona bonita e silenciosa, longe do reboliço. No jardim, caminhei descalço por cima de um caminho feitos de pedras pequenas que, segundo a Paula, os velhotes dizem ser bom para a coluna. Aquilo doía um bocado, mas lá consegui ir até ao fim.
Dali fomos até um bar que eles conheciam – o nome escapa-me – e estivemos lá umas horas à conversa. O tipo que estava no balcão – acho que era o dono – era português e contou-nos uma ou outra história. A que me ficou na memória foi a da viagem dele de mota ao Sri Lanka junto ao mar e ser preso durante uma semana, tendo sido informado que aquela era uma zona minada, na qual três franceses haviam perdido a vida algum tempo antes. O guarda que lhe levava a comida chamava-se Fernando – é o legado português num porto de passagem onde os portugueses nunca se instalaram. Aparentemente, há muitos nomes e apelidos em portugueses, mas é facto desligado de uma efectiva e prolongada permanência no território. Cada um depois foi para a sua casa e ontem o vinho e o whiskey fizeram do dia um período de tempo penoso. Ainda assim, bebi cafés, fiz compras, escrevi, fiz exercício, jantei e passei a computador aquilo que tinha escrito. Hoje acordei depois de uma noite de oito horas bem dormidas e fui tratar de, entre outros assuntos, pagar a renda, cafés no Caravela incluídos. A preparação do almoço e o deglutir da refeição forma ao som de dois berbequins, um no 12º andar e outro no 17º. Foi difícil não perder a cabeça.
Já jantei e ainda vou pensar nas aulas de amanhã e na apresentação da Cátia aos alunos do CCAC, assim como na entrega das listas de faltas do mês de Setembro. Já não falta tudo para o fim da semana.

domingo, 4 de outubro de 2009

4 de Outubro de 2009

4 de Outubro de 2009 (21:26) – Foi uma semana de trabalho mais curta, a razão o 60º aniversário da implantação da república popular na China, a qual é comemorada durante dois dias. Este ano calhou serem na quinta e na sexta-feira. Ainda bem.
As aulas correram bem, mas para a semana espero que já tenha o material extra todo pronto para lhes dar e só então estarei verdadeiramente descansado. As probabilidades são reduzidas. As aulas no IFT vão precisar de algo mais do que as folhas que tenho, pois não me parece que eles estejam seguros quanto aos seus conhecimentos de português. Vão ser precisas revisões de compreensão oral, até porque não deve haver tempo para mais. O pessoal do Módulo I está prestes a entrar em cena mais uma vez; isto é, para a semana que vem vão fazer uso do que lhes ensinei. Os do Módulo 6 também vão ter de fazer compreensão oral. De segunda a quarta-feira, o tempo – fora o das aulas – foi passado a preparar material e a esquecer-me disto e daquilo no IPOR. Na quarta-feira fui almoçar com a Cátia para prepararmos as aulas dela no CCAC – ontem vi que ela não vai ter muito tempo para acabar a unidade 3, terei de ver quantas horas é que ela vai ter ao certo, teste incluído. O almoço foi interessante: é sempre interessante conhecermos os outros e darmo-nos a conhecer. A última noite da semana de trabalho terminou com um jantar no restaurante chinês do Leal Senado onde servem pratos tailandeses – eu escolho sempre o Singapore Fried Vermicelli.
Na quinta-feira de manhã, depois dos cafés no Ou Mún, parti para Zhuhai com a Paula e o Pedro. Chegámos de autocarro às Portas do Cerco – é lá o terminal –, um treta da qual só sobrou uma parede com um arco – imaginem uma secção de um aqueduto pequeno pintado de amarelo post-it – e tirámos uma fotografia, antes de entrarmos para dentro do terminal alfandegário de construção recente. Com o meu BIR e a minha impressão digital as cancelas electrónicas escancaram-se de par em par facultando-me a saída de Macau. Caminhei numa zona de ninguém convenientemente pavimentada e entrei no terminal de Gongbei – tal como o outro tinha lojas de duty free e pastelarias – o qual servia de ponto de entrada na China continental. Depois de preenchidos a declaração de saúde e um cartão de imigração – chegada e entrada separados por um picotado – e esperarmos na fila atrás da linha amarela pela nossa vez, mostrei o passaporte, enquanto a funcionária se certificava de que era eu a pessoa que estava de pé em cima dos pés vermelhos pintados no chão. Carimbado o passaporte, saí para o ar natural exterior da China continental.
Ficou decidido que a vista ao centro comercial mesmo à beira do terminal alfandegário ficaria para a vinda. A nossa missão era a visita a um dos sítios que constavam de uma folha de sugestões – não me lembro por quem foram dadas – que a Paula tinha. Quando olhei à minha volta, além de pessoas, vi um largo razoavelmente grande, na orla do qual estavam edifícios altos e de onde partia ma avenida larga, ladeada por palmeiras pouco viçosas e, segundo pude investigar, com 300 metros de comprimento – teria a via mais do que uma avenida? No topo de um dos edifícios estava uma televisão gigante, que me fez esquecer a profusão delas existentes no interior do terminal alfandegário do qual tinha saído – a única forma de evitar o contacto visual com aquela aparição orwelliana era ou fechar os olhos ou olhar para o chão. Após breve conferência, ficou decidido que iríamos ver o New Yuan Ming Palace. Foram precisos alguns minutos e a simpatia e presteza de um chinês – estava a vender bandeiras – e de uma chinesa – à espera de ser passageira de um autocarro – para apanharmos, do lado certo da rua, a carreira nº1, uma das que tinha paragem próxima do nosso destino. Havia muita gente na rua a comemorar aquela a implantação da República Popular da China e a vender bandeiras. O tráfego era intenso, mas não me pareceu que fosse muito mais que o habitual: Zhuhai é a terceira maior cidade da província de Cantão, salvo erro a mais industrializada do país. Mora aqui muita gente mas, contrariamente a Macau, é bastante espaçosa.
Lá apanhámos o 1 e descemos na paragem próxima do palácio. Fomos às bilheteiras, demos 120 renminbis por entrada e lá entrámos. O palácio é uma réplica ampliada de um existente em Pequim e que está profundamente ligada à história da China, quer por o Palácio Yuan Ming pertencer à primeira dinastia de imperadores chineses, que por os jardins imperiais terem sido queimados por tropas francesas e britânicas durante a Segunda Guerra do Ópio – aliás, essa destruição é, na China de hoje, ainda um símbolo de agressão estrangeira e humilhação. O espaço incluía uma espécie de aquaparque, um lago muito grande – há outro mais pequeno – e outros pontos de diversão, os quais incluem espectáculos a bordo de embarcações que circulam no lago maior. É sítio com muita sombra e muita humidade. Passeámos durante um bocado e ainda se falou numa viagem de teleférico para se ver a vista, mas os 60 renminbis facilmente nos dissuadiram dos nossos intentos.
A paragem seguinte foi à beira do lago, onde havia uma casa de madeira, onde se escrevia o nome em chinês de quem lá fosse pagar para ser feito – já numa outra casa do outro lado do lago me tinha dado a vontade. Lá me decidi e então a senhora disse-me que fazê-lo custava 50 RMB e pediu-me o nome. Eu dei-lhe o meu e mais os dois de família e ela escreveu-o em mandarim com os caracteres chineses. Gastei mais 120 RMB e comprei um quadro – um rolo em baixo e outro em cima – de seda, onde tinha o papel onde seria escrito o meu nome quase completo. Deu-o ao calígrafo, um tipo novo que fez um poema partindo do que a senhora lhe tinha dado. Em cima da mesa tinha a carteira profissional, da qual constava o nome do seu mestre – segundo informação da senhora, um dos mais afamados na China. Com um pincel preto bastante grosso lá escreveu desenhando o poema e terminou aquilo com a aposição de três carimbos e o nome do seu mestre, em sinal de respeito e homenagem. Aparentemente eles nunca assinam as obras com o seu próprio nome – de qualquer modo, o quadro está pendurado na minha sala. Demos mais uma volta e fomos almoçar, não sem antes termos reparado que havia muitos chineses a olhar para nós. Chegámos à conclusão que seria por, possivelmente, sermos os únicos ocidentais que ali havia – eu não vi nenhum em todo tempo que ali estivemos. Depois de almoçados, fomo-nos embora.
Novo problema: onde apanhar o autocarro de volta – normalmente, uma dada carreira aqui não faz o mesmo percurso à ida e à volta. O que acabou por acontecer foi apanharmos um autocarro até ao fim da linha e depois fazermos a volta até ao posto fronteiriço. A viagem acabou por ser demorada porque foram quase duas vezes percursos longos que só passaram por 4 ou 5 avenidas. Valeu a pena: as pessoas continuavam a olhar para nós fomos passando por aquilo que pareciam subúrbios. É imaginar uma Pontinha ou um Camarate várias vezes maior, localizada numa área relativamente plana, com sítios cheios de gente e sujidade e prédio muito altos entremeados com oficinas e fábricas. Tanto as pessoas quanto as construções têm um ar gasto e é grande a lista de razões. É difícil de descrever a escala correcta daquilo que assaltou os meus sentidos naquela viagem. Tudo é vasto e há muita gente a trabalhar ali, apesar de Zhuhai ser um sítio relativamente agradável para se viver. Em toda a viagem não vi mais nenhum ocidental, apenas o olhar admirado de alguns dos passageiros chineses e até uma postura que parecia de receio quando nos sentávamos ao lado deles. Nada disso me incomodou.
Já na avenida do posto fronteiriço, voltei a ver a discoteca – casino? – Yesterday, uma construção cuja fachada cruzava a traça de vários monumentos egípcios – Gizé, Esfinge e Luxor – decorado por – talvez falsos – baixos-relevos, tudo coberto com tinta dourada foleira. Cinco minutos depois, desci do autocarro para a rua, agora com mais gente do que de manhã. Um polícia – parecia da PSP – em modo de passeio e que tinha passado por mim, haveria de, uns metros adiante, ir atrás de – e apanhar – um miúdo que estava a vender coisas no passeio, para de seguida deixá-lo, virar-se e começar a embirrar com o calígrafo sem antebraços que estava no passeio a desenhar para tentar fazer algum dinheiro. Depois de atravessada a praça, descemos por umas escadas rolantes até ao ‘centro comercial’, uma galeria labiríntica de lojas de tecto baixo facilmente do tamanho do Colombo e no qual as indicações se resumem a pouco mais do que os letreiros verdes a indicar a saída. O átrio, ao qual vão dar as escadas rolantes, foi tomado por bancas que vendem ou tabaco ou vendem telemóveis e acessórios electrónicos vários. Comprei uma caixa com 10 filmes do Jim Jarmush, a primeira série do Sons of Anarchy, um concerto-documentário com o John Zorn e um leitor ‘universal’ de formatos digitais – um LUFD. Comprei também um duplo CD dos Metallica, composto do último álbum e do ‘álbum preto’, embora uma das fotografias interiores tivesse sido tirada do “Master of Puppets”. Adquiri também um suporte para incenso num senhor cujo negócio principal era o dos colares, anéis e estatuária, tendo tido direito a um shot de chá.
O regresso a casa foi feito pelo mesmo caminho e passando pelas mesmas formalidades. Chegado a casa, pus o aparelho a funcionar, fiz o jantar, trabalhei um pouco e depois fui-me deitar. O dia de Sábado fica para amanhã.