5 de Outubro de 2009 (19:12) – O dia de sexta-feira também foi bom e intenso. Mais uma daquelas ocasiões em que, quando o nervosismo e a preocupação, sobretudo relacionados com as aulas, não tomam conta de mim, vejo a minha vinda para aqui como um espécie de bênção. A outra versão disto é que esta oportunidade surgiu e eu, contrariamente a outras ocasiões, agarrei-a. Materialmente falado, tinha tudo para isso; e eu também estive à altura – já disse isto demasiada vez. Adiante.
Na sexta-feira o ponto de encontro foi à mesma hora e no mesmo sítio do dia anterior. Depois dos cafés, fomos até à Ponte nº12 – salvo erro, o Porto Yuengtong – para irmos até Jiuzhou, em Zhuhai. Comprámos os bilhetes, preenchemos o boletim de saúde, demos o BIR ao funcionário da alfândega, após o que saímos para o exterior e esperámos. No interior, que lembrava o ambiente d o antigo centro de saúde do Cacém, a senhora tinha dito que o percurso demoraria cerca de 30 minutos – a travessia propriamente dita não demorou mais de três minutos. Esperámos de 10 a 15 minutos para que pudéssemos entrar a bordo do barco, do qual estavam a sair aqueles que tinham chegado a Macau. Estávamos na fila, mas aparentemente havia uns quantos impacientes e puseram-se à frente de toda a gente, em parte para tentarem perceber o que se estava a passar. São muitos os chineses a não respeitarem quem chegou primeiro; mas, tal como com o arroto e a cuspidela, não são uma minoria aqueles que não acham graça. As passadeiras não fazem os automobilistas pararem, apenas o fazendo a existência de um peão-obstáculo – incontornável – no seu caminho. Os peões também fazem das suas: se uma multidão decide atravessar mesmo com o sinal verde para os muitos carros prontos a arrancar, atravessam com a toda a calma.
A embarcação a bordo da qual fomos era uma versão mais pequena e mais de despida de um cacilheiro já velho e sentámo-nos nos bancos de madeira que por lá havia e três minutos depois já nos estávamos a levantar para sairmos. Depois das formalidades alfandegárias habituais para entrarmos na China, saímos para o exterior de praça grande com duas bandeiras. Decidimos continuar pelo nosso lado direito – ir em frente – e ver o que o local nos oferecia. As construções eram semelhantes às que tinha visto para os lados de – também Zhuhai – Gongbei: pouco cuidadas, com muitos pisos e bastantes apartamentos por piso, com os passeios e as ruas cobrindo-se de folhas caídas. Dirigimo-nos para a zona mais à beira do rio. Havia ali um informal micro-mercado ao ar livre, onde vendiam comida e bugigangas: tentaram tentar-nos, mas nada encontrámos ali que pudesse ser tentador.
Descemos um pouco até ao espaçoso caminho cimentado mesmo à beira do rio. Estava um dia solarengo, a humidade estava dentro de limites relativamente suportáveis e havia sombra, dada pelas árvores a meia dúzia de metros do sítio onde estávamos. A dada altura do nosso caminho, vi dois polícias que caminhavam na nossa direcção e, com as mãos, fizeram-nos saber que deveríamos sair dali e subir para a parte superior mais próxima dos prédios. Seguimos as indicações deles, embora não tivéssemos imediatamente tentado imaginar qual seria o motivo para aquilo, embora tivéssemos conjecturado, com algum grau de acerto, que aquele caminho seria zona de acção militar ou policial e portanto, será proibida a circulação a pessoal civil ou outro sem autorização. A dado momento, virámos à esquerda, até darmos com uma espécie de condomínio fechado com fábricas, nas quais as pessoas que ali moravam trabalhavam. Aquilo tinha dois pontos de entrada – já tínhamos passado por um deles – e ambos tinham lá seguranças a ver quem entrava e quem saía.
Contornámos o ‘condomínio’ e fomos em sentido oposto àquele que fizéramos, agora junto à larga e grande avenida paralela ao rio e da qual não conseguia perceber nem fim nem princípio. Voltámos a passar pelo terminal marítimo e ponto seguinte da nossa curiosidade foi um pequeno mercado de peixe e marisco vivo, os quais – segundo disseram à Paula uns alunos dela – podiam ser levados a um restaurante ali das proximidades para serem cozinhados e comidos. Quarenta ou cinquenta metros depois de termos deixado mercado para trás, chegámos ao porto de onde saíam ‘cruzeiros’ panorâmicos em volta da península de Macau. Depois de um período de procura de bilhetes – cada uma custaria 80 RMB – e de horas e locais de partida, o Pedro lá encontrou um tipo que falava inglês e, com ajuda dele, lá fomos fazer o cruzeiro. Para irmos para o deck – ou deque – superior tivemos de desembolsar mais 10 RMB… nós e muitos outros.
Sentámo-nos numa mesa pequena de maneira a tentar impedir que alguém também ali se instalasse, mas sem sucesso – não tenho a certeza que todos percebam o que é ser invasivo; foi como esta a almoçar sozinho no restaurante e na minha mesa de 60x60 sentar-se um estranho à minha frente para almoçar também. O barco começou a andar e, sentado de frente para a popa, tinha Macau à minha direita. Tudo estava do lado oposto ou abrigado do sol quando, de repente, a multidão partiu freneticamente em direcção à minha direita, tentando apanhar os melhores lugares – sentado num banco de plástico encostado a uma grade de ferro – para, extaticamente, poderem ver a paisagem. De uma forma geral, tendo em conta que os chineses são extremamente consumistas, percebi que eles eram fáceis de controlar. Não chegou a ser uma epifania, mas aquele episódio tornou mais tangível a relativa facilidade com que o governo central chinês exerce o seu controlo. Basta estar na alfândega e ver como agem os funcionários: percebe-se que seguem as regras de perto, mas apenas para não perder a face. Seriam uma dádiva para qualquer governo ocidental – talvez isto não passe de um erro de análise. Durante o trajecto à volta de Macau – só foi até à zona dos casinos, não longe da estátua de Kun Iam, a Deusa da Misericórdia –, foram muito poucos os que não participaram no acto de tirarem fotografias ou da paisagem ou uns aos outros. Foi uma constante ao longo do percurso, era como se aquilo fosse um trabalho pago à peça.
Regressados ao porto, foi decidido voltarmos a Macau para o almoço. À chegada a Macau e após o barco ter atracado, o frenesim voltou a tomar conta da multidão, com as pessoas a atropelarem-se umas às outras – o Pedro, aquando da saída, tinha estado a tentar fazer de muro para uma senhora de idade poder passar, mas havia quem não quisesse saber disso; só queriam era passar à frente, fosse como fosse – eu não quero estar no meio de uma multidão aqui se ocorrer alguma emergência. Este tipo de episódios são frequentes aqui, de uma forma mais acentuada do que em Lisboa. Fomos ao Boa Mesa e, chegada a comida, foi o silêncio que imperou. Dali foi cada um para sua casa par, se a memória não me falha, nos voltarmos a encontrar no tailandês para o jantar – provavelmente o mais leve que ali comemos.
O Sábado foi feito de cafés no Ou Mún e das duas horas da aula de mandarim. Há muito para memorizar: é uma língua que requer esse modo específico de apreensão de conhecimentos mais do que qualquer outro. Depois da aula, voltei a casa e li e tratei de material para as aulas, tendo voltado a sair para o jantar no D. Afonso III com a Paula e o Pedro. Depois de jantados, fomos ver do bar de jazz: estava fechado. Seguimos até ao Jardim Camões – encontrei lá dois polícias que tinham sido meus alunos no curso da manhã que dei na CPSP – e vimos – o possível – da Fundação Oriente. É uma zona bonita e silenciosa, longe do reboliço. No jardim, caminhei descalço por cima de um caminho feitos de pedras pequenas que, segundo a Paula, os velhotes dizem ser bom para a coluna. Aquilo doía um bocado, mas lá consegui ir até ao fim.
Dali fomos até um bar que eles conheciam – o nome escapa-me – e estivemos lá umas horas à conversa. O tipo que estava no balcão – acho que era o dono – era português e contou-nos uma ou outra história. A que me ficou na memória foi a da viagem dele de mota ao Sri Lanka junto ao mar e ser preso durante uma semana, tendo sido informado que aquela era uma zona minada, na qual três franceses haviam perdido a vida algum tempo antes. O guarda que lhe levava a comida chamava-se Fernando – é o legado português num porto de passagem onde os portugueses nunca se instalaram. Aparentemente, há muitos nomes e apelidos em portugueses, mas é facto desligado de uma efectiva e prolongada permanência no território. Cada um depois foi para a sua casa e ontem o vinho e o whiskey fizeram do dia um período de tempo penoso. Ainda assim, bebi cafés, fiz compras, escrevi, fiz exercício, jantei e passei a computador aquilo que tinha escrito. Hoje acordei depois de uma noite de oito horas bem dormidas e fui tratar de, entre outros assuntos, pagar a renda, cafés no Caravela incluídos. A preparação do almoço e o deglutir da refeição forma ao som de dois berbequins, um no 12º andar e outro no 17º. Foi difícil não perder a cabeça.
Já jantei e ainda vou pensar nas aulas de amanhã e na apresentação da Cátia aos alunos do CCAC, assim como na entrega das listas de faltas do mês de Setembro. Já não falta tudo para o fim da semana.
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