sábado, 18 de dezembro de 2010

!8 de Dezembro de 2010

18 de Dezembro de 2010 (23:46) – Que notícias há? Bom, o The Standard (TS) abria a sua edição com um anúncio da Value Partners, empresa de gestão... ia continuar com as notícias dos jornais, mas deixou de fazer sentido.
O dia 4 de Novembro foi de ida para o trabalho e de regresso a casa para almoçar e para pagar à Lorna, a empregada que me limpa a casa e me passa a roupa a ferro. Ela diz que para conseguir fazer tudo precisa de mais uma hora. Ainda vou decidir. Voltei para o IPOR e tratei apenas – ou quase – de assuntos de trabalho. Tentar tocar os bois todos para a frente é difícil. No dia seguinte, depois das aulas, tive um final de noite inesperado. Divertido. Foi fascinante ver a quantidade de mobília depositada nas ruas e ainda em boas condições – fui ajudar um amigo carregar uns cadeirões de bambu que uma amiga viu junto a uns caixotes de lixo e os quais eram para a loja que ele vai abrir. Depois destes episódios, os detalhes do dia-a-dia dos restantes dias perderam-se no turbilhão da sucessão dos acontecimentos em andamento rápido. A cidade continua com o mesmo movimento de sempre e o trabalho também. Provavelmente falta de capacidade minha, mas os esquecimentos têm-se sucedido. No entanto, nem sempre. As festas vão acontecendo, houve mesmo duas dois fins de semana seguidos. Uma foi um jantar, o qual começaria mais tarde porque alguns dos convivas – eu incluído – tinham ido ver os Blasted Mechanism.
Nunca os tinha e gostei. Cenicamente, a banda é apelativa e tudo está de acordo com o universo filosófico e discursivo dela. Musicalmente, não me parecem tão interessantes. Timbricamente, sim; quanto à estrutura e à consequente dinâmica interna, nem por isso. As canções são muito semelhantes entre si – o andamento de cada uma das canções é semelhante. Isto parece um bocado impressão à crítico musical, mas depois de ver o concerto fiquei com a impressão de que eles prometem mais do que depois acabam por dar. Visualmente, muito elaborados e fora do vulgar; musicalmente, o alternativo deles é relativamente convencional – nem vou começar a falar dos Coil ou assim... lembrei-me dos Hedningarna e dos Stealing Orchestra. Os Blasted Mechanism são bastante bem sucedidos e as ideias são, dentro de certos parâmetros, apelativas. Não foi tempo perdido.
Voltando ao assunto central, esse jantar só acabaria às seis e meia da manhã. A festa seguinte foi um pós-jantar que começou às 10 da noite e acabou às sete e meia da manhã do dia seguinte. O bom espírito reinou nas duas, embora o ambiente desbragado tivesse reinado na segunda. A casa, que está viva comigo e com a Cátia – na verdade, tem tudo a ver com a Cátia... – ganhou mais uns amigos, espero eu.
No fim de semana de 14 e 15, eu e a Cátia fizemos um ano de namorados. É curiosa a velocidade que o tempo às vezes parece ter. é bem sabido que um minuto tem sempre 60 segundos, mas a verdade é que não temos a sensação de namorarmos há tanto tempo. É prova que a relação é saudável e está viva. Eu gosto muito desta mulher.
O ponto alto foi quando fomos ao restaurante do Hotel Mandarim Oriental, de 5 estrelas, para um jantar que não é possível descrever sem utilizar, o adjectivo soberbo – creio que sem a presença da soberba... Não importa, a verdade é que escolhemos o Menu de Degustação, composto por 9 pratos. Cuisine française, mas poso dizer que não fiquei com fome, bem pelo contrário, foi, de facto, uma experiência espantosa, facto ao qual não era alheio o ter ao meu lado a senhora que tinha. Falar da comida – falar do amor não é para todas as ocasiões – e da experiência de ter estado naquele restaurante não é tarefa fácil, pois a qualidade da confecção – o apuro do sabor – estavam para além da experiência das minhas papilas gustativas. Tentei eternizar cada grama de comida o mais que pude e, se calhar, consegui. Não houve um único prato de cujo sabor não tivesse gostado. Os pratos estiveram à altura da ocasião, num espaço onde a minha t-shirt branca não se sentiu intimidada.
Eu e a Cátia também fomos a Zhuhai buscar um fornecimento de DVD's. Trouxe uma caixa de todos os episódios do Monty Python's Flying Circus, outra caixa com todos os filmes do Fellini, outra com os filmes do Kusturica, a segunda série do “Sons of Anarchy” - aparece o Henry Rollins a fazer de chefe dos neo-nazis – e também videos musicais: Eminem, Blue Cheer e Heaven & Hell. O do Eminem foi uma desilusão: uma encenação fraca e, musicalmente, fez, com excepção de duas ou três músicas, um medley dos maiores êxitos dele. Os Blue Cheer ainda não vi. Os Heaven & Hell, banda composta por Tommi Iommi. Geezer Butler, Vinnie Appice e o falecido Ronnie James Dio, então com apenas 64 anos. O concerto foi bom, foi um prazer ouvir a voz do Di, além de poder testemunhar, não só a forma afável e sóbria como se dirigia ao público, mas também a genuína simpatia de que tantos falavam.
O dia a dia normal
Budas do Camboja na Calçada da Vitória
As grades nas janelas
Os dias da semana são passados no trabalho, a preparar material para o trabalho e, em casa, a ler, a escrever ao computador ou então a ver episódios do “Dexter”, com Michael C. Hall, um dos actores principais do “Sete Palmos Debaixo de Terra”. A representação dele é muito boa, embora o argumento seja mais linear do que o do série que o tornou famoso. O actor faz de serial killer que, durante o dia, é o especialista de sangue da equipa forense da polícia de Miami.
Os próximos dias também serão bastante atarefados, pois há actividades de Natal para preparar com os alunos. Veremos como corre a leitura de poesia e a produção de cadáveres esquisitos, ambos tendo como tema de fundo o Natal. Há dias que nos deixam, enquanto professores, com uma sensação de inutilidade. Às vezes, essa sensação aparece, em parte, porque o silêncio quase permanente dos alunos nas aulas nem sempre é fácil de suportar. O fim de semana que agora está a chegar ao fim, foi muito bom. Ontem fomos a uma festa de Natal numa tasca no Cais 22, zona junto ao Rio das Pérolas, onde se a conversa e a cerveja fluíram naturalmente. Hoje a tarde foi mais tranquila, pois fomos a um concerto de música clássica, organizado por um amigo, e cujo tema era o Natal. Para além de canções de Natal, algumas com interpretações em registo jazz, o destaque foi para excertos do “Messias” de Haendel. Tudo isto foi seguido de um bom jantar. Foi bom estar ali a ouvir. Estes concertos começaram em Junho e continuarão para o ano que vem. Brevemente, mando mais notícias da frente de batalha.

quarta-feira, 3 de novembro de 2010

4 de Novembro de 2010

Um jantar numa tasca tailandesa, Macau
16ºB, Calçada da Vitória
Trânsito em Macau
Dia normal no Leal Senado
4 de Novembro de 2010 (11:33) – Quando comecei este artigo, os dias em Macau estavam relativamente quentes. Tinha acabado de mudar-me para a casa nova – é bom estar na casa nova. Casa nova, vizinhos novos. Pois bem, o meu vizinho do lado, que não vejo muitas vezes, deixa-me os jornais na porta exterior – como todas as casas em Macau que eu conheço, também a minha tem duas portas, uma exterior e outra da casa propriamente dita. Os jornais que recebo são o The Standard (TS) e o China Daily (CD). O meu vizinho deixa-mos lá por que o inquilino anterior, o Rogério, então meu colega no IPOR, também os recebia. Resolvi aproveitar a oportunidade e investigar os jornais e dar conta de algumas das notícias que enchem essas publicações deste lado do mundo.
A 1 de Setembro, o CD fez saber que, em Hong Kong, um cada três estudantes sentia ansiedade com o começo das aulas, a mesma cidade onde os serviços sociais estimam que 17,9% das famílias viviam abaixo da linha de pobreza. Os pobres estavam atentos ao debate à volta do ordenado mínimo. Isto enquanto se assistia ao aumento da especulação imobiliária nos leilões de construções das zonas mais caras da cidade, enquanto se esperavam tufões e tempestades para a província de Zheijiang – zona leste da China, costa de Taizhou – a destruição ambiental ao longo do rio Yangtze – percorre 19 províncias e é crucial para o bem-estar de 400 milhões de pessoas que vivem na bacia do rio – alarmou as autoridades que planeavam tratar os esgotos e plantar árvores. Quem quisesse adquirir um telemóvel teria de apresentar a sua identificação – o governo dizia que era para diminuir o lixo electrónico, as mensagens pornográficas e as fraudes feita por telemóvel. Isto também acontecia na Alemanha e na Holanda. Trocas cândidas, cruciais para o futuro para os dois países, é que chineses e japoneses viam como desejável no fórum Pequim -Tóquio. Analistas chineses achavam que as sanções dos EUA à Coreia do Norte eram ineficazes e pouco amigáveis. A Microsoft queria expandir o seu mercado com o aumento do uso do seu motor de busca Bing na China continental, depois da saída da Google.
A 14 de Setembro, o TS – de Hong Kong, equivalente talvez ao The Sun ou ao Correio da Manhã – falava daqueles que perseguiam outras pessoas, do capitão chinês que ainda estava preso pelas autoridades japonesas e da boa forma da economia chinesa. Referiam também um sítio criado pelo governo chinês para ouvir as queixas das pessoas, as quais achavam que a corrupção e o conluio dos membros do governo com os proprietários de terrenos eram os problemas mais graves. Para alem do aumento dos preços dos bens essenciais e das casas, o que não aumentavam eram os salários. Nas queixas, não era esquecida a “harmonização das opiniões” – censura que o governo fazia. O CD falava do engarrafamento épico de milhares de camionistas na auto-estrada Pequim-Tibete e do governador Schwarzenegger a preparar a Califórnia para os caminhos-de-ferro de alta velocidade com comboios chineses. Notícia era também o aumento dos negócios da BMW, da Audi e da Mercedes-Benz na China, devido ao florescimento do sector dos carros de luxo na China. Coisa curiosa: havia um suplemento do jornal sobre Davos – Fórum Económico Mundial – que era produzido “com a colaboração do comité organizador Davos Tiajin e o Tiajin Daily”. A história continua...
A 15 de Setembro, o CD falava do elogio à China tecido pelo responsável da área do clima na ONU, no qual destaca os passos dados pelo país na área ambiental. Os jovens empreendedores queixavam-se dos obstáculos financeiros e burocráticos na formação de uma empresa. Bill Gates e Warren Buffet tinham vindo apelar ao sentido caritativo dos milionários chineses, a ver se eram como eles – há algo que não bate bem nesta história... A pressão americana para a China aumentar o valor do yuan continuava, assim como a possibilidade dos efeitos negativos dessa acção. Em Cuba, 500 mil  funcionários públicos iam ser despedidos. Falta de dinheiro era a razão – os EUA vão ganhar e transformar aquilo em algo pior do que é, é uma questão de tempo. Em Hong Kong, o preço das casas ia continuar a aumentar – um dia só lá vivem pessoas ricas... Muitos diziam que, na China, a performance art estava morta. Sustentavam que tinha deixado de ser uma arte radical e que se tinha rendido às pressões do comércio e do consumismo. Dizia Zhou Wenham, crítico de arte: “As empresas estão também a contratar actrizes e actores amadores para levarem à cena a chamada performance art. O único propósito é captar a atenção das pessoas para os seus produtos... se há arte ou não, já ninguém se importa”.
No dia 26 de Setembro, o CD abria com uma reportagem sobre os custos humanos do desenvolvimento da China e exemplificava com uma advogada de uma firma norte-americana. Ela trabalhava cerca de 3000 horas por ano; ou seja 375 dias por ano a oito horas de trabalho. O jornal também falava do poder de Sarah Pallin – é poder de quem trabalha para a Fox News. Destaco o título “Para que servem os amigos? Para, talvez, uma saúde melhor”, com o artigo a seguir o tom moralizador do título. Falava-se também de uma exibição no Museu de Arte Moderna em Nova Iorque de um lado desconhecido de Henri Matisse.
No dai 27 de Setembro, o TS falava de um desvio de 43% no custo previsto para um dos novos troços do metro de Hong Kong – entre as razões alegadas estavam as de um aumento de custo de materiais na ordem dos 55% em relação há três anos. A HSBC Insurance teve um aumento de 36% nos lucros. Entre colunas de opinião e de artigos que instruiam o leitor na arte de ficar rico, surgiam notícias no meio da publicidade. O CD falava do contencioso – a subir de tom – entre a China e o Japão acerca da posse das ilhas Diaoyu, do pacto entre a China e a Rússia e do ‘flower power’ exposto na praça Tianamen, tendo por fim a comemoração do Dia Nacional. Havia uma fotografia de crianças tibetanas a dançarem, celebrando a conclusão de mais um troço ferroviário da linha Qinghai – Tibet, a mais alta do mundo. O jornal publicava um documento emitido pelo Gabinete de Informação do Conselho de Estado sobre o Prorgesso dos Direitos Humanos da China em 2009.
No dia 28 de Setembro, o TS falava da visita de Bill Gates – que se encontrou com Li Keqiang, salvo erro vice primeiro-ministro da China – e Warren Buffet em Pequim. O jornal falava de aldeões que esperavam os bulldozers que lhes iam demolir as casas. Benigno Aquino, presidente das Filipinas, tinha intenção de distribuir contraceptivos ao pobres, apesar da oposição da Igreja Católica . Peter Jackson estava em conflito com a indústria cinematográfica australiana, que ele acusa de querer ganhar dinheiro com “The Hobbit” e acabar com a industria cinematográfica neozelandesa – de notar que os australianos são considerados os americanos desta zona. A capa da edição era um anúnico da Corporação Mongoliana de Mineração, apoiada pelo Citigroup e pela JPMorgan.
No dia 29 de Setembro, o TS noticiava celebrações do Confúcio.
No dia 1 de Outubro, o CD abria com a contagem decrescente para o lançamento da segunda sonda lunar chinesa. Depois havia a paragem nas conversações entre norte e sul coreanos. Warren Buffet ia investir mais na China dado o seu potencial de crescimento económico.
No dia 7 de Outubro, o TS noticiava que uma mulher de 97 anos tinha sido atacada por um rato num apartamento.
No dia 8 de Outubro, nào me lembro se no TS ou no CD, falava da crise dos reféns de Hong Kong nas Filipinas. Outras das vítimas tinham sido os meios de comunicação: o presidente Benigno Aquino poderia intentar acções contra certos órgãos de comunicação e reduziria ou eliminaria as acusações dos processos movidos contra os políticos responsáveis – traz-me à memória o perdão de George W. Bush ao seu amigo I. Lewis Libby, alta patente na Casa Branca, acusado de perjúrio e de obstrução à justiça. O preço das casa em Hong Kong continuava a ser assunto. Alice Cheng, irmã do bilionário coleccionador de arte chinesa Robert Cheng, tinha comprado um vaso da Dinastia Qing por perto de 235 milhões de Hong Kong dólares. Xangai tentava acabar com a especulação imobiliária.
No dia 11 de Outubro a capa do TS era um anúncio do banco Lloyds TSB International. Kim Jong Un aplaudia as tropas norte-coreanas, repetindo os gestos do pai.
No dia 13 de Outubro, em Hong Kong os leilões de casas quebravam recordes. As três mulheres mais ricas do mundo eram chinesas. A poluição e o cheiro de um aterro em Tseung Kwan, em Hong Kong, era motivo para uma manifestação por parte dos residentes da zona. No CD, o presidente o Hu Jintao erguia a tocha dos Jogos Asiáticos no Templo do Céu, dando início à cerimónia da passagem da tocha. Fosse em Hong Kong, fosse em Xangai, o preço das casas andava perto do incomportável. O desenvolvimento, a guerra cambial com os EUA, o prémio Nobel e o desenvolvimento e a sustentabilidade ocupavam grande parte do espaço editorial/ de opinião. Um em cada três moinhos eólicos erguidos no mundo – a cada 30 minutos – eram erguidos na China.
No dia 14 de Outubro, o CD dizia que a receita da China ia diminuir e isso aliviaria a pressão feita pelos EUA e pela União Europeia. A estrutura 4-2-1 (4 avós, 2 pais, 1 filho) estava a criar problemas de assistência à 3ª idade. A China continental oferecera-se para iniciar conversações militares com Taiwan. A Festa do Fantasma, semelhante ao Halloween, durante a qual os Portões do Submundo se abrem para que os fantasmas viessem, parecia ter o desinteresse dos mais jovens, embora houvesse quem achasse que isso mudaria quando o governo reconhecesse a festa como parte da herança cultural intangível da nação. Nos artigos de opinião, destacava-se a da violência domestica, descrita como um dos piores flagelos da China moderna. O TS dizia que os lucros da JPMorgan tinham subido 23%. Em Hong Kong, um aterro planeado para um parque natural  não ia por diante. Um grupo de anciãos reformados do PC Chinês tinham pedido a abolição das restrições à liberdade de expressão.
No dia 15 de Outubro, a capa do TS era um anúncio da Swiss International Air Lines. A dívida dos EUA à China subia para níveis recorde.
No dia 17 de Outubro, o CD reproduzia as palavras de um porta-voz do Ministério do Comercio em que este dizia que a estabilidade da economia chinesa erra benéfica para os americanos e que estes deviam parar de politizar as questões cambiais. Aumentava a desigual redistribuição da riqueza e isso parecia preocupar o PC Chinês. Na secção dos comentários, os ‘alvos’ – com ou sem razão – eram Liu Xiaobo e a disputa sobre a posse das ilhas Diayu entre a China e o Japão. Na China, o preço das casas subia. A pessoa mais velha da China tinha 125 anos.
No dia 18 de Outubro, o TS falava de violentos protestos anti-japoneses en Sichuan.
No dia 19 de Outubro, a capa do TS era da Blackrock, um banco de investimento de Hong Kong. Tudo apontava para que o sucessor de Hu Jintao em 2013 seja o 'príncipe' Xi Jinping, o actual vice-presidente. A tensão entre chineses e norte-americanos sobre o yuan continuava. Aparentemente, Bin Laden vivia confortavelmente numa casa protegido por locais e membros dos serviços secretos paquistaneses, dizia um oficial da NATO, que acrescentava que ninguém da Al-Qaeda vivia numa caverna. Que surpresa! Esta farsa torna-se menos hilariante a cada dia que passa. O resto do jornal eram anúncios e artigos para a classe média alta – ou com pretensões de subirem a esse estrato. O CD abria com a reunião do Partido Comunista Chinês, onde se tinham pedido reformas. Outra notícia dava-nos conta do interesse dos chineses mais abastados por charutos.
No dia 20 de Outubro, o TS dizia que na China as taxas de empréstimo e de depósito subiam para conter a inflação.
No dia 22 de Outubro, o TS diz que o tufão Megi ameaçava Hong Kong. A inflação continuava a subir. Um activista de tofu tinah recebido uma prelecção de um juíz sobre educação cívica antes de ser mandado para a prisão durante 14 dias. Depois disso, havia publicidade: de políticos metidos em escândalos de terrenos a chorarem-se. O CD publicava mais artigos de opinião sobre os direitos humanos na China. Nessa área, a opinião que tinham sobre a abordagem dos ocidentais não era a melhor... A publicidade, a música e as artes faziam o resto.
No dia 23 de Outubro, o CD abria com a hostilidade entre a China e os EUA como central na reunião do G-20. Depois, o jornal noticiava um treino no Aeroporto Internacional de Pequim com a vista à preparação  para a eventualidade de um ataque terrorista. A Mercedes-Benz investiria 3 mil milhões de euros na China até 2018. Na secção de artigos, “Lute por um futuro melhor, mais brilhante” falava de modernização, mudanças, oportunidades, meio ambiente, desafios e desenvolvimento – a 'chave-mestra' para todos os problemas na China.
Notícia sem fonte e sem data: o novo código da Internet, HTML5, era uma poderosa actualização na recolha de dados, pois podia recolher vários meses deles – eu já li sobre esta possibilidade existir... há 3 ou 4 anos.
Este é o fim da investigação. Isto não parece tudo igual? Os bonecos têm uma cara diferente... Como diz a canção: “A única fuga/ É a loucura!”

terça-feira, 14 de setembro de 2010

15 de Setembro de 2010

A primeira casa, na Calçada da Vitória

15 de Setembro de 2010 (11:53) – Depois das férias, o regresso à estrada. Há muito para contar e podia tentar por começar por falar da saudade – ou da falta dela. Depois das férias, saudade não é coisa que esteja em falta. É sempre das pessoas que temos mais saudades – de que tenho mais saudades. De todas as que lá deixei, a que somei as que conheci neste Verão. Das que conheci nas férias, não me lembro de ter encontrado alguém com quem, pelo menos, não tivesse simpatizado. A verdade é que conheci muita gente de quem gostei muito, pessoas muito diferentes de mim, mas com traços que eu aprecio: o bom carácter e um óptimo sentido de humor. E um bom sentido do amor também...
Tornaram-se notórias as diferenças entre Macau e Portugal, a primeira delas a sensação de calor, muito menor em Portugal. Fui a um casamento do Nuno e da Ana, amigos do tempo da faculdade, e, mesmo vestido de fato e ao sol, não senti calor. Estava ausente a humidade omnipresente em Macau. Mais uma vez, é difícil explicar a opressão da de Macau e a ausência dela em Macau – podíamos entrar nos caminhos da política... e entraremos: a diferença entre a opressão de Macau e a de Portugal é a de que, ao comum dos olhos europeus, a China oprime os seus de forma violenta. Em Macau, a perspectiva é a de que há opressão e silenciamento para os que se movem contra a ordem estabelecida, mas é sempre esse o risco para quem se vê envolvido numa situação dessas, seja ame que parte do mundo for. Um governo assenta num sistema que o legitima e que ele legitima. Qualquer elemento que desafie aforça desse sistema, sofre as consequências, sejam elas quais forma. Tianamen foi brutal, mas não é uma coisa permanente. Além disso, o capitalismo consegue a mesma docilidade, sem tantos e tão negativos efeitos secundários. A China é um paraíso capitalista, miseráveis incluídos.
Voltando às férias... Lisboa é uma cidade bonita, solarenga e com horizonte. À noite podemos ver as estrelas, ausentes do céu de Macau. Quando a Cátia chegou a Lisboa – as saudades um do outro estavam ao nível do insuportável – fomos para casa da Olga, uma amiga que morava numa casa arrendada em Telheiras, cujo arrendamento partilhava com duas outras amigas. Esses primeiros dias foram de passeios, compras e visitas à família. Por aqui se pode perceber que foram umas férias sem pausas. Fomos a Ponte de Lima, terra da Olga e vila acolhedora onde a traça antiga está bem preservada e a traça recente está com rédea curta – o horizonte está preservado. A vida nocturna também era intensa, mas era em parte devido ao facto de estarmos em Agosto, tempo de regresso à terra dos migrantes.
No dia 8, um domingo, eu e a Cátia fizemos a viagem de regresso a Lisboa e, no dia seguinte, à tarde, apanhámos o avião rumo aos Açores, com a primeira paragem a dar-se na Terceira, onde estivemos três dias com o Zé, meu cunhado. Comer, beber e deixarmo-nos encantar pela paisagem foi tudo – ou quase – quanto aconteceu. Eu já lá tinha estado e não fiquei tão surpreendido, mas isso não invalida o facto da ida ser sempre um enorme prazer. É-o não só pelo sítio, mas também pela família que lá mora. Depois foi a vez do Faial, onde só estivemos uma noite. Também foi uma visita muito agradável – foi curioso constatar quão marcada é a 'personalidade' de cada uma das ilhas. Parece óbvio, mas só uma ida lá é que dá peso ao encantamento que imaginamos ter quando nos falam das ilhas. Continuando o relato, acampámos com um casa lde amigos e, além do Porto Pim, das piscinas naturais – também tínhamos mergulhado numas na Terceira – e da Caldeira do Inferno, fomos até à ponta dos Capelinhos, mesmo ao lado do vulcão. Para o fazermos, subimos a encosta partindo do farol que, em 1957, era onde a ilha originalemte acabava. O terreno era peculiar... ou nem por isso, era tudo poeira vulcânica. A peculiaridade vinha do facto de o terreno estar coberto por uma fina camada de poeira preta, o que transformava aquela num cenário ideal para um western português – ocorre-me o realizador ideal para o fazer...
Sexta-feira partimos do porto da Horta e, pelas 18h30, estávamos na Madalena, na ilha do Pico. Perto das 20h00, já estávamos acomodados na Pousada de Juventude em São Roque do Pico. Durante os dias seguintes não parámos de comer, de beber e de andar de um lado para o outro. O dia de sábado foi o do casamento do Hugo e da Luciana e foi bom. Foi boa a camaradagem, foi bom o convívio entre os desconhecidos. Depois de os do Pico terem acabado por dançar uma chamarrita para instrução dos restantes, passámos pela discoteca Skipper e, algumas bebidas depois, fomos 'fazer barulho' à casa onde os recém-casados estavam hospedados, onde bebemos mais álcool com travo a celebração. O dia a seguir acabaria por se tornar memorável, por duas razões: em primeiro lugar pela volta às lagoas, quase todas elas secas, mas sempre um prazer para a vista, em grande medida devido à circundante paisagem deslumbrante.
A segunda razão, pela perda da carteira, a qual confirmei quando acabámos a volta. Primeiro procurámos nos sítios onde tínhamos estado durante a  manhã e depois eu e a Cátia fomos fazer a parte do percurso onde eu tinha a certeza de que havia a possibilidade de eu ter deixado cair a carteira, ou seja, no primeiro miradouro em que parámos, assim como no primeiro dos lagos. Não o consegui ver em qualquer dos sítios. Voltamos para São Roque na esperança de que alguém a pudesse ter achado e a ter entregado na policia. Primeiro fui à GNR, onde deixei os meus dados. O policia de serviço aconselhou-me a ir à PSP, o que fiz. Cheguei lá, bati à porta e o policia, depois de ter visto no livro de registo que naquele dia não tinha entrado nada, perguntou-me se eu já tinha ido à Madalena. Eu disse-lhe que não e ele foi-me dizendo que havia várias esquadras. De seguida, ligou para a esquadra da Madalena e de lá ouvi dizer que a carteira estava nas Lajes. Agradeci ao policia, saí da esquadra e telefonei à Cátia a dar-lhe a boa nova. Ela ficou contente. Quem também ficou contente foi o restante grupo de amigos que estavam com ela no Clube Naval, a maioria deles os de Macau. Ouvir a manifestação de alegria deles pelo telemóvel teve o seu quê de tocante. Depois ainda voltei ao posto da GNR, para dizer ao policia que já estava tudo resolvido. Ele ficou contente, até me apertou a mão – parecia tão contente quanto eu!
Nessa tarde, fomos visitar os currais das videiras do vinho do Pico – classificado como Património Mundial pela UNESCO – e depois fomos a Cachorro, uma aldeia cujo nome vêm de uma pedra de pedra vulcânica com a forma da cabeça de um cachorro. Em Cachorro, há uma adega onde vendem aguardentes e licores de sublime sabor. Nós  trouxemos uma garrafa pequena de licor de amora. A noite começaria com a ida à esquadra da PSP nas Lajes e no regresso da minha carteira aos meus bolsos. O agente que lá estava foi simpático e contou-nos a história da carteira, a qual tinha sido entregue por um de velhotes francês – o polícia disse-nos que pareciam pessoas sérias. Ele pôs-se a ligar à SATA para ver se conseguia obter o meu número de telemóvel. Apesar de ter insistido e de ter tido que aquilo se tratava de um caso de policia, a SATA não lhe deu qualquer informação – tudo funcionou como devia. Ele disse-me que, no dia seguinte, o plano dele era saber junto da CGD qual o meu número – os meus cartões estavam na carteira. Depois de termos jantado, fomos às festas de São Roque, onde estivemos um par de horas e onde vi e ouvi os Goma – não sabia o nome delas na altura – e eram razoáveis: tinha bom som, mas as músicas deixaram-me a sensação de serem demasiado parecidas uma às outras, sem que,, mesmo dentro da toada a meio tempo que é a dos Goma, houvesse alguma que quebrasse isso. O timbre de voz do vocalista era semelhante à do Manel Cruz, vocalista dos extintos Ornatos Violeta.
No dia seguinte, preparámos as malas, almoçámos e voltámos para o Faial no barco das 15h00 – esperámos por uma ambulância que trazia uma senhora em estado grave, a qual, soubemo-lo depois, viria a morrer. Eram sete os que estiveram também no “Peters” a beber um gin tónico e foram sete os que partiram do aeroporto da Horta no avião rumo ao aeroporto da Portela, onde chegámos cerca das 23 horas. Eu e a Cátia ainda fomos ao Bairro Alto com a Luciana e o Hugo. Os dias seguintes passaram-se a correr, com as últimas coompras e as últimas – algumas delas primeiras – visitas. Infelizmente, sem possibilidade de segundas visitas. Saí de Lisboa no dia 20 cerca das 15h00, com as saudades da Cátia a aumentarem em razão exponencialmente proporcional à distancia e com outras saudades a ficarem também por matar. Cheguei a Macau no sábado às 16h00 locais e, a partir daí, os minutos foram-se escoando a uma velocidade cada vez maior. Muitos deles forram passados nas mudanças para a casa nova, com a ajuda dos amigos. Outros foram passados a preparar material para as aulas e outros ainda em jantares de aniversário ou de inauguração da casa – o do aniversário no dia 11, num local coberto, mas ao ar livre, foi sob os auspícios de uma intensa chuvada e de uma magnífica e valente trovoada.
Mais notícias em breve. Fiquem bem... sempre.

quinta-feira, 10 de junho de 2010

11 de Junho de 2010


11 de Junho de 2010 (11:57) – Mais uma vez de volta a estas páginas. A 29 de Maio morreu Dennis Hopper, o actor que fez e produziu o Easy Rider, um filme icónico dos anos 60 – assim foi considerado pela crítica. Também esteve no Blue Velvet e colaborou com Gorillaz em “Demon Days”.
As próximas linhas serão dedicadas às impressões tidas em alguns espectáculos a que aqui assisti no âmbito do XXI Festival de Artes de Macau. Vou começar pelo espectáculo “Jazz com a Orquestra de Macau”, o qual teve lugar, às 20h00, no auditório da Torre de Macau. Foi agradável e para mim teve o especial interesse de ouvir peças do George Gershwin pela primeira vez, caso de “Um Americano em Paris”e “Rhapsody in Blue” – da qual não estou certo de se poder passar para “Rapsódia em Azul”. A outra peça do programa era um concerto para piano e orquestra. O pianista faria um encore de dois temas, o primeiro deles dedicado à mãe e o outro fá-lo-ia com a orquestra, o segundo acompanhado da orquestra e no qual o, salvo erro, oboísta, vestido com um fato vermelho, fez pantominas. A orquestra pareceu bem, o maestro e o pianista também estiveram bem. Saí de lá satisfeito, mas não com a sensação de ter assistido a uma coisa extraordinária. Claro que o tempo foi bem empregue. Quando saí, estava a chover e eu estava com fome. Fui jantar.
O dia 16 de Maio foi o de “A Lança Dupla de Luk Man Long”, pelo Grupo Infantil da Associação de Ópera Chinesa dos Kaifong de Macau. Foi numa cinema com o nome “Alegria”, começou às 15h00 e acabou cerca das 18h00, com um intervalo de cerca de dez minutos pelo meio. A história gira à volta de uma batalha “(…) entre os Han da dinastia Song e os Jurchens da dinastia Jin (…)”, a qual será vencida pelo general Jurchen de nome Luk Man Long... na realidade um filho do império Song, o que depois lhe será confirmado pela sua ama. Acabará por regressar ao acampamento Song e os Jurchen serão derrotados. A 'dupla lança' é a arma que Luk Man Long usa muito bem, graças ao domínio da técnica de combate com esta – já teria reparado antes, mas é curioso o lado simbólico da arma. O Cinema Alegria fica num edifício muito antigo, numa paralela à Avenida Horta e Costa – uma das mais importantes avenidas de Macau – e fica numa zona com construções também elas antigas, talvez de cerca de meados do século passado – esqueci-me do meu carbono 14. Cheguei lá de táxi, na companhia de uma amiga – Paula, professora na Escola Portuguesa de Macau. O sítio não era muito longe do IFT – Instituto de Formação Turística – onde tenho dado aulas. O cinema é um espaço que não parece ter muito uso, o que deve ser um erro de percepção meu, pois não vou muito para aqueles lados. Devem exibir lá coisas, pois, quando entrei, nada havia que indicasse abandono. Era apenas o exterior do edifício que tinha esse ar – aqui o clima trata mal os edifícios, coitadinhos. À frente do palco, o fosso (?) da roquestra, onde estavam uns quantos músicos – só viria a ver três ou quatro – a providenciarem a banda sonora. Eu não estava muito desperto e houve uns momentos me que perdi o fio à meada, mas aquilo foi interessante. Era teatro com música, misturado com dança. Quando havia fífias, ninguém perdia o andamento. As pessoas à minha volta acharam graça e gostaram muito do espectáculo – entenderam-no de uma maneira necessariamente muito diferente da minha. Aplaudiram muito o grupo, que parecia ser bastante famoso. Apesar disso, a sala não estava cheia. Os miúdos, todos abaixo dos 15 anos, estiveram bem.
O espectáculo seguinte foi a 22 de Maio no Centro Cultural de Macau, desta vez para ver ”Sabroso Nunca! (Bom Petisco!)”, espectáculo de teatro de revista a cargo do Grupo de Teatro Dóci Papiaçam di Macau, peça antecedida pelo Trio Balichão, um grupo musical do qual fazia parte o pai – avô ? – de Miguel de Serra Fernandes, dramaturgo e encenador da peça. Miguel de Serra Fernandes, advogado de profissão, é co-fundador do grupo e é autor de praticamente todos os textos dele, os quais têm a particularidade de serem escritos em patuá, dialecto de Macau que tem sido objecto de investigação de Miguel de Serra Fernandes – e não só. Este ano o tema era a culinária macaense, cujas receitas se têm perdido, às vezes por falta de vontade das pessoas em as partilhar. À volta deste tema duas histórias que se encontram, a finalidade das principais personagens de ambas as histórias a de ganharem um concurso de culinária macaense. Se a peça foi engraçada, teve sobretudo muto interesse por causa do patuá, o qual me soa ao crioulo cabo-verdiano – há um livro publicado sobre o patuá que se chama ”Maquista Chapado”, mas que parece que está esgotado, foi também uma noite boa. É especialmente de louvar o grupo, que se tem mantido em actividade, pois tudo o que se viu é resultado do amor à camisola. Tenho vindo a perceber melhor o que é não desistir de uma ideia que se tem. É por isso que ando a ficar cada vez mais fã de Motorhead.
O último desta série de espectáculos foi no dia 23 no Teatro D. Pedro V, com Movin’ Melvin Brown, o qual apresentou o espectáculo “Me, Ray Charles and Sammy Davis Jr.”. O título resume o evento, ele a interpretar sobretudo canções dos cantores acima mencionados, às quais juntou canções de Harry Belafonte, Nat King Cole e dois ou três originais dele. Incluiu também um moonwalk à Michael Jackson ao som de, salvo erro, um tipo de música irlandesa. Normalemente, cada uma das peças era antecedida de uma pequena história. As do Ray Charles e as do Sammy Davies Jr. foram divertidas: o humor a (re)tratar assuntos sérios resulta sempre bem. O que teve mesmo piada foi que aquela noite foi bem mais que uma surpresa agradável, pois eu e uma série de amigos fomos lá a pensar que aquilo poderia não ser grande espingarda – a fonte dessa impressão era uma pessoa que tinha ido ver o espectáculo na noite anterior. Quando ele começou a cantar – bem – e a exibir a sua mestria na arte do sapateado, todas as dúvidas se dissiparam. A energia e a alegria dele fez as pessoas dançar e bater palmas – bom, eu dancei e bati palmas. E o riso dele – he... he... he... – foi também um ‘momento’ alto. A verdade é que tudo aquilo me pareceu muito genuíno. Até houve duas mulheres que foram ao palco dançar, uma delas chinesa – se pensarmos que os chineses normalmente não gostam da exposição... – e a outra portuguesa. No fim do espectáculo, fui comprar um CD e, de seguida, pus-me na fila para o autógrafo. Quando chegou a minha vez, disse-lhe que tinha gostado do espectáculo, em especial do momento James Brown que ele incluiu. Ele disse que tinha feito um espectáculo baseado no ‘Padrinho’ no ano anterior. Depois fui-me embora. Enfim, eu não lhe disse nada de especial. O que é que eu poderia dizer? A impressão dos meet and greet que vi tantas vezes confirmou-se. Foi uma noite muito boa, com alegria e música.
Com este espectáculo terminou a minha experiência enquanto espectador no XXI Festival de Artes de Macau. Depois disto, as saídas têm sido mais para jantares. Os concertos de certo tipo nesta zona do planeta são raros – os Metallica vão ao Japão a 25 e a 26 de Setembro. Talvez vá ver... embora esses concertos de interior não sejam com o palco no meio do pavilhão. Slayer e Motorhead , nada. Estou a sonhar alto quando penso em Tom Waits. É tentar ver o que há em Hong Kong. A verdade é que eu já vi muitos dos artistas que queria ver pelo menos uma vez na vida. Há outras coisas para fazer e outros sítios para ir ver. Não hão-de faltar coisas interessantes para fazer. Vão é deixar de existir motivos para eu estar desocupado.

domingo, 23 de maio de 2010

24 de Maio de 2010

24 de Maio de 2010 (13:00) – Os extensos relatos acabei-os há muito e é provável que não volte a haver nos tempos mais próximos. Continua sempre a acontecer muita coisa, como seria de esperar. EM Portugal, falhei o primeiro concerto entre portas dos Metallica e voltarei a oportunidade de rever Motorhead. O dia-a-dia está sempre repleto de acontecimentos, mas Junho já se vislumbra e é com ele os passos finais do semestre lectivo. As viagens de regresso a Portugal já estão marcadas há muito – é necessário fazer as marcações com grande antecedência para se conseguirem preços “camaradas”. O relato que a seguir se apresenta já tem quase um mês, mas os afazeres têm sido muitos. Aqui vai:
As aulas tiveram uma pausa de 1 a 6 de Abril, dias de repouso que foram bem aproveitados, como depois poderão ler. Depois desta pausa, é sempre sem paragens até meados de Julho. O calor aumenta pouco a pouco e a minha capacidade em decorar códigos para transferências também não: é a quarta ou quinta vez que vou ao banco para me darem códigos novos. Isto foi antes da pausa,que serviu para parar um pouco e não ter outras preocupações que não fossem ter outras preocupações. Aqui há quase sempre algo de engraçado a acontecer, como há cerca de mês e meio ou dois, num fim-de-semana em que eu e a Cátia estivemos em Hong Kong. Durante esse fim-de-semana, vimos um para de concertos, um no sábado, outro no domingo. O de sábado foi a oitava sinfonia de Bruckner e foi um assombro. A óptima execução foi fundamental para que aquela música tivesse adquirido um carácter quase sobre-humano para – suponho – todos quantos lá estiveram. O concerto de domingo foi o da Orquestra Chinesa de Hong Kong, também ela muitíssimo boa. Gostei da música que eles executaram, embora a esta distancia já não me lembre da música. Algumas das peças eram estreias. Voltando à história do restaurante vegetariano... estávamos todos sentados à mesa quando, perto do fim da refeição, um dos tipos que lá trabalhava chegou-se ao pé de nós e perguntou-me se eu ouvia heavy metal e eu respondi-lhe que sim. Perguntei-lhe porque é que ele me tinha feito a pergunta e ele respondeu-me que era porque eu tinha cara de quem ouvia heavy metal. Já sei porque é que a ideia existe: tenho cara disso.
Depois desse episódio não aconteceu mais nada desse nível – não me estou a lembrar e nada neste momento. No entanto, tenho ido a espectáculos no Centro Cultural de Macau e em outras salas, sejam eles de música para orquestra ou concertos de rock. Umas das últimas bandas que gostei de ouvir no último concerto que fui ver – concerto de beneficiencia para o projecto Na Terra – formam os Elf Fátima, de Hong Kong. São uma banda de rock instrumental dentro do género Ísis, soando mais aos Mono, mas mais pesados e agressivos. Colaboraram com os portugueses The Allstar Project, os quais também navegam nestas águas. Até que enfim uma banda com música intensa e alta! Dentro do género, os concertos têm sido bons, mas normalmente dentro de um género mais calmo, mesmo quando são bandas rock. Há algumas que são frenéticas, mas nada que seja mesmo “pesado”. Tenho comprado CDs, mas é difícil dedicar-me a dar impressões de todos eles – ainda tenho testes para corrigir, embora já não falte muito para acabar. Já decidi que não vai haver mais TPC ou “assignments” para eu ficar a ver em casa.
A última viagem que fiz, fi-la com a Cátia e fomos às Filipinas. Foi uma viagem para não esquecer. Não houve muitas peripécias e a as que houve aconteceram comigo, a começar pelo meu esquecimento de “Os Irmãos Karamazov” num balcão antes dos gabinetes de controlo de entradas, onde tinha estado a preencher os papeis de chegada ao pais e declaração de saúde – Quem é você? Porque está aqui? É um ser humano saudável? Que doenças tem? Se calhar, você é um terrorista... Descalce os sapatos! Consegui recuperar o livro, estava no mesmo sítio onde o tinha deixado. Isto aconteceu às duas da manhã, enquanto esperávamos – tínhamos chegado a Manila por volta da meia noite e meia – pelo voo interno de ligação, que cerca das cinco e meia nos levaria para, salvo erro, Caticlan. Enquanto esperámos, bebemos café e comemos uns donuts que eram uma das especialidades das Filipinas e observámos a intensa actividade do aeroporto. Nada de muito estranho se pensarmos que aqui não só o sol começa a despontar muito cedo, como vivem muitas pessoas. Apanhámos o bimotor e no aeroporto fomos conduzidos para o exterior por um tipo que nos acompanharia até Boracay e que nos pareceria estar a tentar sugerir um hotel da sua preferência e com o qual ganharia algo – se calhar o hotel era mesmo bom. Apanhámos um barco e em Boracay, apanhámos um tuk tuk até à zona dos hotéis... e ele sempre na nossa companhia, o que não nos deixou muito à vontade. Ele acabou por se ir embora quando nos decidimos a ficar no Regency Resort.
Os dias que lá passámos forma muito repousantes: acordávamos, íamos tomar o pequeno-almoço e depois andávamos entre a piscina e a praia de areia branca e água muito transparente e relativamente fria. Até ao fim do dia, este vai vai-vem era interrompido pela sesta. Estávamos sempre na praia para ver o pôr-do-sol, um acontecimento muito bonito que demorava entre quinze a trinta minutos a dar-se. O azul e o vermelho do céu nessa ocasião também não serão esquecidos. Era nessa altura que a praia, se começava a encher de gente, em especial de filipinos, o que nos surpreendeu um pouco. Aliás, a maior parte dos hóspedes das unidades hoteleiras eram filipinos. Achámos que seriam emigrantes queiam passar ali as férias – tinham de ser pessoas com um certo poder económico. Não importa, a atmosfera do sítio era muito muito boa. Depois íamos jantar, por vezes com banda sonora cortesia das bandas de covers ao vivo – normalmente de música rock, embora tivesse havido uma vez em que, depois de passeio nocturno pós-jantar pela praia, tivéssemos ouvido uma banda reggae que tocava especialmente bem. Depois do passeio, deitávamo-nos. Eram assim os dias, calmos, agradáveis e com muito amor.
O regresso teve o seu quê de mais calmo. Saímos do hotel numa carrinha fornecida – mediante pagamento, claro – pelo estabelecimento e fizemos a viagem de volta ao porto por corredor de alcatrão que ligava esses dois pontos. Os muros desse corredor eram um amontoado de edifícios relativamente baixos e de formas e qualidade variáveis, cujo fim para o qual foram construídas também variava. Podiam servir tanto para habitação – a maioria das construções mais precárias – como para empresas: bancos, barbeiros , agencias de viagens, mercearias, stands de automóveis de luxo, companhias de seguros, hotéis e tascas. Também aqui a poeira é um agente sempre presente. O braço no qual regressámos para Caticlan também pertencia ao hotel e, lá chegados ao porto, fomos para uma carrinha que nos transportou durante 50 metros até à entrada do aeroporto. No balcão, pedimos para irmos no mesmo vôo – acabámos por conseguir porque alguém não compareceu, felizmente para nós – e perguntaram-nos quanto pesávamos – terá sido isso? Sei que as malas foram pesadas. Esperámos um pouco: a vantagem dos aeroportos pequenos é que não temos de andar muito. Lá subimos para o bimotor e ele cerca das 13h30 subiu connosco lá dentro. O céu limpo proporcionou-me uma vista aérea das ilhas que também me ficará na memoria. Qualquer das ilhas teria uma praia na qual seria agradável ficar. Os postais, no entanto, não fazem jus à experiência em primeira mão.
Passado um bocado estávamos de volta a Manila, onde voltámos a esperar algumas horas, entretidos entre os balcões da CEBU ou da Air Phillippines, os postos de abastecimento de comida e o exterior onde podíamos observar a cidade -  muito distante – e alguns edifícios como uma igreja cristã – sim, em Boracay vi um tipo a carregar uma cruz de madeira maior do que ele -  um Marriot Hotel., os dois símbolos de poder semelhante às das – quaisquer – bandeiras que se espalhavam ao longo da rua que permitia o acesso ao aeroporto. Só provavelmente os países europeus é que me parece terem uma relação mais distante com a bandeira. Modifica-se um pouco no Oriente, onde há sempre muitas bandeiras. Lá acabámos por apanhar o avião de regresso a Macau, onde chegámos cerca das 22 horas – ou seriam 21 horas? Não importa, foram dias de férias que não vou esquecer.
A vida continua e, neste momento na linha do horizonte, começam a surgir os exames finais. Dentro de cerca semana e meia serão os do IFT – estão marcados para dia 3 de Junho – e perto do fim do mês realizar-se-ão os restantes. Aqui no IPOR, muitos dos alunos são estudantes e muitos eles vão começar a faltar, o que vai tornar as salas de aulas mais vazias... Mudando de assunto: 2010 tem sido um ano de mortes de cientistas e artistas que eu aprecio: primeiro foi o Howard Zinn, depois foi o Pete Steele dos Type O Negative a 14 de Abril e agora no dia 16 de Maio foi Ronnie James Dio, os dois últimos ligados ao mundo heavy metal. Foi mais supreendente a do primeiro, pois só tinha 48 anos. Os TON eram uma banda incontornável e invulgar em muitos aspectos, pois faziam escolhas musicais um tanto invulgares e tinham um sentido de humor invulgar. Se sabíamos que podíamos contar com isso, não sabíamos bem a que é que isso soava. Góticos que tocavam hardcore – isto devia ser confuso para muitos críticos. Não interessa, o conceito de praticamente tudo isto saia da cabeça do Pete Steele. O meio ficou com menos capacidade de auto-crítica.
Para quem ouviu e ouve heavy metal, ele era uma das suas figuras mais carismáticas – para os outros um perfeito desconhecido. Foi ele quem popularizou o sinal dos "cornos". Foi vocalista não só dos Black Sabbath e dos Rainbow – com o Ritchie Blackmore, dos Deep Purple – mas também dos Dio, banda que ele fundou. Ouvi-o pela primeira vez quando ouvi o "The Last In Line" dos Dio e a música "Evil Eyes" ficou-me no ouvido e na memória. Ilustra bem o carácter da voz dele. Ronnie James Dio já tinha 67 anos e tinha um cancro no estômago. Ainda assim esperava vencê-lo para ir em mais uma tournée, desta vez como vocalista dos Heaven and Hell, onde todos são ou foram membros dos Black Sabbath – Geezer Butler no baixo, Tommi Iommi na guitarra e Vinnie Appice na bateria. O Dio não era alguém que eu ouvisse com muita frequência, mas sempre que ouvia alguma coisa nova, normalemnte gostava do que ouvia e prometia a mim mesmo que havia de comprar música dele. A última coisa que ouvia com ele foi numa das canções de “The Devil You Know” – no programa do Henry Rollins na KCRW. A música – a arte em geral – tem muito por onde escolher, mesmo se ignorarmos o “lixo” – para outros poderá ser um “luxo”, mas há sempre um limite. Voltando ao assunto, o Dio foi uma pessoa e um músico/ artista que não terá tido rasgos de genialidade, mas cque foi sempre visto como bom músico/ artista. Foi um músico bom e isso já é mais raro: há meios mais dados aos egos e o do rock é um dos deles. Nesse aspecto, o meio ficou mais pobre.
Bom, por agora chega. O trabalho chama-me. Mais notícias virão. 

domingo, 21 de março de 2010

21 de Março de 2010


21 de Março de 2010 – segunda parte (15:00)No dia seguinte, acordámos e, antes de termos mudado de quarto – do 103 para o 202 – fomos tomar o pequeno-almoço. estávamos num espaço aberto de algumas árvores, com adeiras e mesas de madeiras a fazerem, do lado oposto da estrada, de esplanada da hospedaria, com vista sobre o rio Mekong. É difícil de descrever o prazer e o agrado que sentíamos em estar ali. O pequeno-almoço, de 30000 kips – 30 patacas, dois euros e meio – tinha – teve sempre – como constantes a taça de frutas – banana, papaia, manga, ananás, melancia ou maçã – e um sumo natural de frutas várias. O saboros e suave café do Laos, ao qual podíamos adicionar leite condensado, podia ser substituído por chá. Para comer, os diferentes combinados combinavam as baguetes com ovos estrelados, omoletes, bacon e fiambre. Havia combinados com sandes de vegetais, carne de porco ou atum.
O primeiro dia foi passado a comer e a passear..  enfim, algo de comum ao resto dos dias. Mas esse foi marcado pela obtenção, numa agencia de viagens a troco de 140 dólares por pessoa, de um voo de Luang Prabang para... Hanói. Aquela viagem de autocarro foi de uma irrepetibilidade que quisemos que fosse permanente. Depois, eu o Rogério e a Sandra subimos, a troco de 20.000 kips, ao monte Phu Si, de oonde se podia ver toda a cidade eonde também havia alguns templos budistas – aqui não vi estátua do Buda que não fosse dourada ou cuja expressão não fosse fascinante e enigmática. A subida do monte nada teve de especial, contrariamente à descida, com muitas fotografias tiradas a Budas de tamanhos vários sentados, deitados e de pé, ao ar livre ou em cavernas.
Ao exercício, sucedeu-se o almoço, tendo nós os quatro andado às voltas – às compras ou a beber café – até cerca das 16h30, quando fomos fazer a viagem de barco, arranjada numa das muitas agencia que por ali havia, de duas horas com o único objectivo de vermos o por-de-sol no Mekong no rio Mekong. Foram duas horas muito bem passados e o por-de-sol era muito bonito. Éramos nós os quatro mais o condutor numa espécie de barco estreito observando a vida à beira-rio e até parámos numm banco de areia para uns banhos e fotografias com uns miúdos curiosos que por lá apareceram. Era noite quando acabámos o passeio. Depois decidimo-nos por uma ida – a primeira de três – ao mercado nocturno fazer compras. É difícil escolher coisas, de que de facto precisamos, de entre tanto artesanato produzido industrialmente. Nessa noite, comprámos umas sandes gigantes com recheio variável, a um preço simpático, a uma senhora à qual voltaríamos mais duas vezes.
O dia seguinte, terça-feira, foi um e acordar cedo par irmos fazer um trekking, que incluiu passar por uma aldeia da, salvo erro, tribo Hmong e que depois de uma caminhada de cerca de duas horas, nos levaria à queda de água de, se não me engano, Kuang Si. Estava quente, o sol era forte e o ar estava seco. A caminhada soube-nos bem: muitas árvores com alguma humidade por elas causada, além dos trilhos nos quais era preciso caminhar – sobretudo a descer – com algum cuidado. Chegámos ao sítio onde a queda de água terminava o seu maior percurso e dava lugar a outras bem mais pequenas, entre elas havendo alguns sítios onde era possível nadarmos – sempre com cuidado, pois o fundo era bastante irregular. Naturalmente, tomámos banho. Depois dos mergulhos, almoçámos e seguimos caminho até à saída, não sem antes vermos ursos pretos do Laos enjaulados a brincarem – estão próximos da extinção. Ainda esperámos um pouco pela carrinha que nos tinha levado, mas 15 minutos depois lá apareceu. O resto do dia foi passado a andar por Luang Prabang e, ao anoitecer, tomarmos o caminho do mercado e da banca das sandes. Antes de nos irmos deitar, sentámo-nos os quatro a conversar na mesma mesa onde havíamos tomado o pequeno-almoço – nunca a veríamos ocupada por ninguém a não ser por nós.
Na quarta-feira, levantámo-nos à mesma hora e, tomado o pequeno-aloço, eu e a Cátia esperámos um pouco a té uma carrinha com pelo menos 20 anos de idade apanhar-nos para o nosso passeio de kayak. Até chegarmos ao local da partida, demorámos cerca de 45 minutos, pois foi preciso ir buscar as embarcações para nós e para o guia. Lá chegámos e pusemo-nos na água para o que viria a ser umja viagem de um pouco mais de três horas, paragem breve  para o almoço – de arroz, como no dia anterior – incluído. Foi uma viagem cansativa, mas bonita. Navegávamos no meio de um rio tranquilo muito visitado, muito usado pela população laociana. É um local onde o rio corata a terra feita de árvores e elevações de altura variável. É-me difícil de descrever. O percuros foi encurtado devido ao nosso cansaço e acabei por cair ao rio... no momento em que estava na margem a sair do kayak. Enquanto os kayak estavam a ser carregados, havia uns franceses que queriam fazer negocio com os guias: eles iam de kayak até Luang Prabang e os guias levam-lhes as bicicletas. O negocio não foi por diante,, pois o casal francês, tanto quanto me lembro, propuseram-lhes um preço muito baixo... demasiado baixo. Lá fizemos o caminho de volta e, quando chegámos à hospedaria, eu fui para a esplanada escrever – ou se calhar foi no dia anterior e nesse dia sentámo-nos na esplanada a conversarmos os quatro até chegar a hora do jantar e irmos fazer um percurso semelhante ao da noite anterior. O fim da noite era na esplanada à conversa até às duas ou três da manhã.
Na quinta-feira de manhã, depois do pequeno-almoço, não me lembro do que fizemos ou a que sítio fomos – acho que ficámo-nos pelas imediações da hospedaria. seja como for, a Sandra e o Rogério partiram e eu e a Cátia, depois de almoçarmos, alugámos um par de bicicletas e fomos dar um mergulho no, salvo erro, Nam Khan, um dos rios que vai dar ao Mekong. Depois de termos pago 22.500 kips, atravessámos a ponte de bambu por cima do rio. Lá estivemos a nadar e a deixar-nos levar pela corrente numa zona de rápidos – havia umas miudinhas a fazerem-no e nós imitámo-las – em que a água ficava abaixo do joelho. A noite começava a sentir-se. Saímos do banco de areia onde tínhamos estado e ainda estivemos a nadar um pouco mais numa zona de água quieta e observámos uns putos a tentarem fazer com que os papagaios voassem – só um dos miúdos é que o conseguiu fazer com sucesso. Fizemos o caminho de volta no, se não me engano, Sikhunmeuang , templo budista onde assistimos às orações, cantadas pelos monges. Foi um momento intenso, gostei muito. Depois, já noite, fomos até uma outra esplanada a um quilometro de onde estávamos hospedados e, com vista – outra – para o Mekong, bebemos uma cerveja e conversámos. No regresso, começou a chover. Fomos jantar e acabámos por nos deitarmos não muito tarde.
No dia seguinte, às 9 horas, preparámos as nossas coisas e saímos da hospedaria pouco depois do meio-dia. Almoçámos e, por 40.000 kips, um tuk tuk levou-nos até ao aeroporto, um edifício pequeno. Fizemos o scanning da bagagem enquanto entrávamos. Quatro metros depois, verificaram-nos os passaportes; outros tantos depois, fizemos o check-in – se calhar foi ao contrario... – e andámos dez metros até à sala de espera de – quê? – 100 metros quadrados e esperámos uma hora para apanharmos um bimotor da Air Laos onde, no percurso de 40 minutos até Hanói, nos foi servida uma refeição – não me desagradou. Aterrámos e apanhámos um táxi de 9 lugares que deixava as pessoas em vários lugares. Pagámos cerca de 8 dólares e, depois de umas voltas em que acabámos os únicos dentro do táxi, lá achámos uma hospedaria, onde dormimos num quarto limpo por 17 dólares. O episódio do táxi não me pareceu invulgar, pois aqui parece funcionar a lógica do que é mais prático, ainda que o cliente possa ser um tudo nada ‘prejudicado’.
O que restava desse dia foi passado a passear, a jantar e a ver televisão antes de acordarmos no dia seguinte para a nossa partida de Hanói, não sem antes termos feito umas compras. Fomos para o aeroporto num táxi com taxímetro e acabámos por pagar 16 dólares. Esperámos uma hora, durante a qual pudemos, perplexos, assistir a uma – invulgar – cena de pugilato à entrada do aeroporto, com meia dúzia de policias atentarem controlar um dos homens da disputa. Hora e meia depois da partida, o avião aterraria em Macau. Na memoria, ficaram as pessoas do Laos e do Vietname – simpáticas, tal como as do Cambodia – e as montanhas, motos, barcos e rios. No coração... é fácil de adivinhar.

21 de Março de 2010


21 de Março de 2010 – primeira parte (14:00) – No momento em que estou a começar a passar o texto a limpo, estou a tentar ouvir Secret Mommy, enquanto o vizinho do lado me proporciona o prazer do berbequim a furar a parede. Falta saber se sou mais ou menos teimoso que o berbequim. O texto que se segue começou a ser composto em fins de Fevereiro, já as aulas tinham começado. Neste momento, o primeiro terço do segundo semestre já está quase cumprido.
“As semanas anteriores, dominadas pela minha lentidão na correcção dos testes finais ,  exames orais do primeiro semestre, os testes de colocação e respectivas provas orais deram lugar ao início das aulas no IFT. Comecei o nível IV com uma nova postura que espero se traduza em comentários menos negativos. O tempo também ocupado pela preparação do segundo semestre no IPOR – sobretudo o lado burocrático – foi, no entanto, o da expectativa da ida para o Laos, com a passagem em Hanói, durante uma semana. As férias começaram às 14:20 de sábado, quando eu e a Cátia partimos do aeroporto de Macau com destino a Hanói, eu com vontade de sentir até que ponto o Vietname era diferente do Cambodia – várias eram as pessoas que diziam haver sobretudo semelhanças entre os países, em tempos relativamente distantes conhecidos por Indochina. Depois de duas horas de viagem, aterrámos. O tempo estava encoberto e os poucos agasalhos que trazíamos vestidos de Macau – nas mochilas, só tínhamos roupa de Verão – forma opção adequada, pois a temperatura no exterior rondava os 13ºC e fazia-se sentir uma aragem, embora não fosse excessivamente fria.
Dentro do aeroporto, fomos a um posto de informações. Com aquilo que nos deram, apanhámos um táxi e, 15 dólares americanos depois, apeámo-nos em frente ao Hotel Prince, no Old Quarter. A ideia era procurarmos uma estalagem ou lugar que não nos custasse 20 dólares por noite. Acabámos por ficar no hotel, pois o que ouvimos dos recepcionistas foi de que o preço da dormida eram 13 dólares – diferença substancial em relação ao valor que nos tinham dado no posto de informações. Deixámos as nossas coisas no quarto – pequeno, agradável, com televisão, com um frigorífico cheio de bebidas e casa-de-banho privativa -  e fomos à pastelaria em frente saciar o animal que começava a rugir no nosso estômago. Pagámos um pouco mais de 200.000 dong, pouco mais de 10 dólares. Viríamos a descobrir que o câmbio de rua variava entre os 17.000 e os 19.000 dong por dólar.
Vou agora falar das impressões que o caminho do aeroporto até ao hotel – um percurso de 30 quilómetros. Hanói – aliás, Ha-Noi – fica no fim de um percurso feito em auto-estradas cruzando-se umas com as outras, ladeadas por campos cultivados e por cultivar, assim como fábricas, inseridas ou não em complexos industriais – do táxi pude ver as instalações da Canon e da Panasonic. Aquelas marcas da engenharia humana, relativamente espaçadas entre si, contra o céu encoberto e de alguma humidade no ar, fizeram-me lembrar as ‘manhãs de nevoeiro‘. Já na cidade, o frenesim não me apanhou de surpresa. O tráfego, dominado pela presença das motos, era intenso e o buzinar das viaturas era constante, quase um traço cultural. Neste aspecto, os condutores em Lisboa são uns meninos. Toda a arquitectura da cidade estava normalmente degradada e era visível a pobreza dos vietnamitas; ainda assim, e do que pude observar, não tão acentuada como a dos cambodianos, que tiveram de penar por causa do Pol Pot e do Nixon.
Às 17h00, já a noite se fazia sentir, fomos dar uma volta por aquela zona da cidade de pelo menos 6,5 milhões de habitantes, a qual ‘tem‘ como ‘eixo‘ um grande lago – Hoan Kiem – à beira do qual pudemos ver os néons coloridos de alguns arranha-céus e a luz de potentes holofotes que rasgavam o escuro da noite – talvez tamanha efusividade tivesse a ver com o facto de a cidade comemorar, em 2010, 1000 anos de existência. Fomos andando ao longo do espaço ajardinado à volta do rio, a traça colonial misturada com os traços do cosmopolitismo recente: estruturalmente, nada de muito diferente quando comparado com o Ocidente. As iluminações de Natal – estrelas e pinheiros de néon – que iluminavam as avenidas de Lisboa, não são diferentes das de Hanói encimadas pelo foice e o martelo. Continuámos a andar mais um pouco um pouco ao acaso, até que voltámos a dar com o hotel. Vimos um pouco de televisão e depois fomos jantar.
Para quem está habituado a uma hora portuguesa, o início da noite às 18 horas provoca sempre estranheza. As 22 horas na Ásia parecem-me sempre meia-noite ou perto disso. Jantámos perto do hotel, num restaurante apenas acessível a bolsas europeias ou outras mais endinheiradas de qualquer dos hemisférios. A escolha de sítio para comermos era limitada, pois muito do comércio estava fechado por ser o Ano Novo Chinês – começava, salvo erro, nod ia seguinte às 10h51 da manhã. Depois de uma refeição de pratos-a-atirar-para-o-picante, voltámos para o hotel e vimos um pouco de televisão – não havia leitor de DVD, pois de outro modo teríamos visto alguns dos DVDs que tínhamos comprado à tarde. Muitas das cópias aúdio e vídeo não são de boa qualidade; isto é, as capas eram manhosas.
O dia seguinte começaria às 5h30 da manhã, pois tínhamos de apanhar o avião para Vientienne no Laos às 8h10. Depois de termos acordado os empregados que estavam a dormir na recepção do hotel e de termos pago, de forma inesperada e a contragosto, 50 dólares pelas despesas – 30 pela estadia e 20 pelo táxi – lá atravessámos a manhã húmida e de nevoeiro até ao aeroporto. Depois de uma viagem de cerca de uma hora e um quarto a preencher boletins de saúde e formulários de chegada/ partida – ou entrada/ saída – aterrámos na República Democrática do Povo do Laos – Laos PDR. Nas costas dos formulários constavam algumas frases úteis no Laos. Ei-las: Sabai-Dee – Olá; Sabai-Dee Bor? – Como está/ estás?; Kalunaa – Por favor; Khawp Jai – Obrigado; Anee Thau Dai – Quanto é que isto custa?; Sohk Dee Der – Adeus e toma cuidado. Dentro do aeroporto preenchemos um formulário para a obtenção de visto, o qual, para alem de uma fotografia – tinha pensado que eram necessárias duas e, por isso, tinha tirado a do meu passe dos autocarros – custou 35 dólares – o preço variava de país para país; este era para os oriundos da União Europeia.
O objectivo seguinte era conseguirmos transporte para Luang Prabang. Preferíamos ir de aviao, mas os voos estavam cheios ficámos em lista de espera para o caso de haver desistências, mas sem resultados. O preço de ida era 85 dólares por pessoa; o de ida e volta, algo como 140 ou 150 dólares. Sobrou a viagem de 10 horas de autocarro que, tanto quanto então sabíamos, começava às 19 horas. Entretanto, encontrámo-nos com Sandra e com o Rogério, que também iam para Luang Prabang... de avião. Estivemos um pouco a conversar, até que eles partiram; combinámos encontrar-nos em Luang Prabang. Nós apanhámos um tuk tuk – custo da viagem: 40000 kips – e fomos até ao terminal de autocarros para comprarmos os bilhetes. A Cátia trouxe-os dizendo que iríamos no autocarro das 13h30. Fomos almoçar à cidade a um restaurante/ café/ padaria que ostentava o nome Swedish Bakery. O almoço foi bom. Voltámos ao terminal e, depois de termos pago mais 40000 kips pela viagem ao centro da cidade, apanhámos um que estava prestes a sair – eram 13 horas.
Iam tantos turistas quanto cidadãos laoseanos no autocarro, um veículo com cerca de 40 anos de idade e com um ar condicionado que não funcionava. Face ao calor intenso – ainda assim, não opressivo – que se fazia sentir, aquela não era uma boa notícia... a primeira. A viagem de 10 horas transformar-se-ia numa de quase 12, com paragens constantes – semelhante, em frequência, às do comboio inter-regional em Portugal – e quase sempre breves. Mochilas e sacos ocupavam os bancos vazios e partes do corredor de acesso aos lugares. A música funcionava intermitentemente, com um dos condutores ao comando do leitor de discos – leitor de todos os formatos e feito, quem sabe, na China – a trocar de CDs e a verificar as ligações entre o aparelho e o sistema de altifalantes. O grande contra de tudo foi o autocarro não possuir suspensões ou amortecedores: de cada vez que havia uma irregularidade na estrada, por pequena que fosse, éramos, sentados, sacudidos em várias direcções, a violência das sacudidelas variando com o grau da irregularidade.
A paisagem, verde, tinha um ar seco; algo natural, pois estamos na estação seca. As habitações, as pessoas e as povoações apresentam-se-nos e dispõe-se-nos de uma foram que me lembra o que vi no Cambodia, mas sempre sem um grau de pobreza tão acentuado. As estradas alcatroadas são longas e estreitas, ladeadas por terras vermelhas/ castanhas-claras onde, aos aglomerado as de casas sobretudo de madeira ou de tijolo, se sucedem espaços pontuados por esta ou aquela casa. Os veículos de eleição são as motos; é também frequente vermos autocarros. Em termos topográficos, a paisagem é dominada por vales e muitas zonas montanhosas cobertas de árvores. Cerca da meia-noite e meia chegámos a Luang Prabang. Descemos e logo nos ofereceram os serviços de um tuk tuk. Regateado o preço, entrámos para o tuk tuk que nos cabia. Esperámos meia dúzia de minutos. O ‘nosso’ condutor estava a demorar-se porque queria levar mais pessoas. Saímos e pusemo-nos à procura de outro tuk tuk; ele logo o conduziu até nós e lá nos levou até à hospedaria onde a Sandra e o Rogério estavam – aquando da nossa partida de Vientienne, tínhamos-lhes pedido para nos reservarem um quarto. Depois de um pequeno episódio de mau entendimento entre as partes, lá chegámos à hospedaria no exterior da qual estava o Rogério à nossa espera. A rua estava deserta e era quase nula a iluminação.

sexta-feira, 19 de março de 2010

19 de Março de 2010


19 de Março de 2010 (17:14) – Depois de tanto tempo passado, é certo e sabido que a selectividade da memória vai-se fazer sentir no relato da segunda parte das férias no reino da Cambodja. E que depois disto já houve aulas, dois anos novos – um chinês e um português – um Natal e uma viagem ao Laos com passagem pelo Vietname.
A minha memória tem quase a certeza de que apanhámos o autocarro de Phnom Penh para Siem Riep às 14h00 do dia 20. Fomos levados até ao sítio – uma rua qualquer – onde era possível apanhar o autocarro de tuk tuk – que português tão fraco… Foi uma viagem de 6 horas com os seus pontos de interesse, a começar pelos vídeos que passavam na televisão de música pimba em khmer com as letras em rodapé, talvez para ajudar a quem quisesse depois fazer uma carreira no mundo do karaoke. O percurso foi feito quase sempre em linha recta, numa estrada ocupada por vários tipos de veículos que se iam afastando do caminho à medida das buzinadelas do condutor do nosso autocarro, as quais pouco s intervalos tinham entre si. Ao longo do caminho, houve duas ou três paragens para idas à casa de banho e reabastecimento de víveres. A paisagem rural era bastante diferente da da urbana, no sentido em que a pobreza rural parecia mais próxima da suficiente. De resto, a maioria das casas eram feitas de madeira e a cerca de dois metros do solo – porque seria não sei, mas a verdade é que o espaço evitavam melhor eventuais cheias além de servirem como espaço para armazenamento de materiais ou sala de refeições ou de quarto de sesta. A terra seca e o pó que tudo cobre, omnipresente, compõe o resto do quadro. Nas paragens à beira da estrada, os bolos, os biscoitos e os pedaços de ananás, todos dentro de sacos de plástico, são os itens alimentares mais consumidos. É já noite – anoitece cedo deste lado do mundo – quando chegamos a Siem Riep, a um lugar que é o terminal apenas porque lá se vislumbram autocarros – o sítio não é iluminado; a luz existente é a proveniente dos faróis das viaturas. De posse das malas, vejo que um portão feito de ferro soldado e chapa ondulada a abrir-se. Do outro lado da escuridão saem ao nosso encontro condutores de tuk tuk prontos para nos levarem aos nossos destinos, quaisquer que eles fossem. Depois de regateado o preço, lá entrámos na noite de Siem Riep. As construções degradadas de tijolo, de madeira e de ferro ladeiam a estrada, de modo semelhante ao que havia visto em Phnom Penh. A escassa iluminação ao longo da estrada que mascara mal a miséria, mas não é por causa disso que a vida aqui pára: depois dos Khmeres Vermelhos...
Chegámos finalmente à hospedaria – guesthouse – que havíamos marcado em Phnom Penh. De nome Babel, é ainda hoje o meu sítio de referência no que respeita a local de estadia porque foi uma conjugação óptima de vários factores, como o preço – 13 dólares por noite – e a qualidade das instalações: os quartos não eram fantásticos, embora tivessem tudo quanto era necessário. Na Babel a qualidade que mais se destacava era a – mais do que familiaridade – a atmosfera de uma certa convivialidade. O pequeno espaço exterior tinha talvez uma dúzia de mesas para as refeições, com um tecto feito de cana ou de palmeira – não me lembro bem. O estabelecimento, gerido por um espanhol, um francês e um italiano, era um misto de bom local de férias e casa. Infelizmente, devido ao desentendimento gerado pelo fraco nível de entendimento de um dos recepcionistas da hospedaria onde tínhamos ficado em Phnom Penh, só ficámos no Babel uma noite, embora lá voltássemos para uma ou outra refeição ou mesmo um copo depois do jantar. A hospedaria para onde nos mudámos era muito diferente: os quartos eram semelhantes em qualidade, mas o ambiente não era propício à convivialidade – na Babel, os empregados eram eficazes e simpáticos e a comunicação e o convívio com eles faziam-se sem problemas. nesta hospedaria o tratamento era obsequioso e o serviço demorado. (Fins de Fevereiro de 2010)
Já não me lembro o que aconteceu na primeira noite. Provavelmente, jantámos e estivemos pela Babel a beber um copo – eles tinham uma espécie de zona de chill-out no exterior – e a contemplara as estrelas. Coisa rara, pois não há estrelas no céu de Macau: em Macau, estrelas, só talvez as que se passeiam no asfalto. No dia seguinte, acordámos cedo para irmos à zona dos templos de Angkor – mais de mil de todos os tamanhos possíveis, segundo consta – para vermos – para ver tudo seriam precisos cerca de 7 dias –os mais importantes templos do complexo, a começara por Angkor Wat, i.e. ‘templo da cidade’, talvez o maior monumento religioso do planeta. Os tuk tuk pararam à entrada do complexo, para que adquiríssemos um ingresso do qual viria a constar uma fotografia que eles nos tiraram na hora – é claro que tenho o meu! Viria a ser, não surpreendentemente, uma viagem inesquecível. Andámos por uma estrada relativamente bem pavimentada e com postes de iluminação na estrada – tão rara aposta justifica-se pelo orgulho nacional que os cambodjanos sentem por aqueles monumentos; afinal, Angkor Wat está incorporado na bandeira do país. O importante retorno financeiro que aquilo proporciona também justifica o investimento. Depois de mais uns minutos de tuk tuk, parámos em frente ao templo e fomos ‘assaltados’ por miúdos a venderem água fresca, livros, guias e bebidas gaseificadas frescas, assim como os seus serviços de guias. Tudo em inglês, debitados a toda a velocidade, pois o dinheiro é um bem bem escasso por ali. Dizemos-lhes que não e começamos a entrar.
O edifício está um pouco degradado, mas isso é rapidamente esquecido quando vemos todos os espaços do templo com figuras e motivos que giram à volta de representações do Buda e de Vishnu, assim com de histórias à volta deles. Para mais consultem um livro... volumoso. No exterior, a quantidade, o tamanho e o grau de pormenor dos baixos relevos impressiona. Os mais afamados deles são um que retrata a batalha entre dois clãs e a outra o Churning Of The Sea Of Milk, que trata da obtenção do elixir da imortalidade e cuja busca é motivada por um episódio de despeito – os dois episódios são provenientes da mitologia hindu. Passamos o tempo a passar por pessoas e espíritos-guardiões, a descer e a subir escadarias de pedra de graus de inclinação e erosão variáveis e, à sombra ou ao sol, sermos objectos fotográficos das nossas máquinas. O tempo estava muito quente e seco.
Passadas umas duas horas, fomo-nos embora e a paragem seguinte foi a do Templo de Bayon – o mais importante de Angkor Thom, em tempos uma capital do império khmer. É o famoso templo das torres feitas de quatro rostos serenos representando o Buda. Para chegarmos ao cimo das torres e ficarmos próximos dos rostos, tivemos de subir uma escadaria de pedra muitíssimo inclinada feita de meios degraus provocadas pelo uso. Maravilhámo-nos, tirámos fotografias, descemos e acabámos por ir almoçar. Fomos novamente ‘assaltados’, desta vez por crianças e não foi fácil dizermos ‘não’ a quase todas elas. Miúdos e miúdas, muitos deles muito persuasivos, a venderem bugigangas, postais e livros pirateados, falando sobretudo inglês e com conhecimento de algumas capitais europeias – uma arma de vendas muito importante. De Bayon seguimos para Preah Khan, um templo khmer onde as árvores crescem vindo de dentro das ruínas, a caminho do qual passámos pelo bonito Terraço do Elefantes, o qual tem uma parede de 350 metros onde os elefantes estão esculpidos.
Em Angkor, as ruínas convivem mais ou menos bem com as árvores que delas nascem – que remédio! – e não há nada aqui que não seja bonito, mas o pouco tempo não permite não permite uma apreciação devida. Acho que foi em Preah Khan que comprei que comprei um berimbau e um chocalho, ambos feitos de cana... mas talvez não: se calhar, o que comprei lá foi um par de CD-Rs de música tradicional khmer aos músicos amputados que lá estavam a tocar. Onde se calhar comprei os instrumentos foi em Ta Phrom, outro templo khmer onde as árvores também vêm de dentro das ruínas – bonito de ver e sem tempo para o fazer, claro.  O miúdo que me vendeu o chocalho vendeu tudo quanto tinha em cinco minutos, graças a muitos de nós. Terá sido uma tarde com menos trabalho para ele? Talvez, mas isto é só para me tentar fazer sentir bem, pois vivemos em mundos muito diferentes. Daqui subimos até ao templo de – segundo creio – Phnom Bakheng, templo hindu em forma de montanha, hoje muito popular por dali se poder ver um bonito pôr-do-sol. Depois de subirmos – mais uns – uns lances de escadas íngremes de degraus muito estreitos, juntámo-nos às outras dezenas de pessoas para o momento do pôr-do-sol – gostei da vista, embora não me parece que o meovimento descendente do sol tenha conferido tons especialmente extasiantes à paisagem. A massa humana que ali se encontrava voltou a fazer o percurso inverso, descida no fim da qual comprei mais uns CD-Rs de música khmer a músicos com os membros amputados – consequência das minas anti-pessoais, que continuaram a existir com o beneplácito do Império.Era já noite, e a saída de Angkor, apesar do trânsito intenso, fez-se com relativa rapidez. O resto da noite teve o jantar e uma ou outra actividade que foi ou um copo+conversa ou uma ida à vila fazer compras.
O dia seguinte foi o da ida ao Tonle Sap, um lago ligado ao rio Mekong que é o maior lago de água doce do Sudoeste Asiático e dentro do qual estão aldeias que dependem do lago para a sua subsistência. Foi isso que fomos ver. Saímos depois de tomado o pequeno-almoço e fomos, durante cerca de trinta minutos, de tuk tuk até um ponto não muito distante do lago onde, a troco de já não me recordo quantos dólares, alugámos um barco e as motas nas quais iríamos até ao dito cujo. Gostei da minha experiência de andar de mota, acho que me portei bem – apagou a anterior. O acidentado do percurso fez-me pensar no que será a dureza de uma prova de motocross. Chegados ao barco, lá começámos a nossa viagem até à aldeia, assente em cima de estacas bastante altas – na época das monções, quando o lago dos 2700 km2 da época seca passa a 16000 km2. Tinham viveiros de peixe e todos os percursos eram feitos de barco. Fomos recebidos por um aldeão simpático já de uma certa idade e que arranhava o francês. O nosso percurso continuou até uma zona de floresta ‘submersa’, onde a paz reinava e o silêncio tinha cheiro e textura muito agradável aos sentidos. Alguns de nós mergulhámos no Mekong na orla do lago. Apreciámos o máximo que pudemos aqueles momentos e depois regressámos, não sem antes distribuirmos cadernos e lápis, comprados a raparigas de uma escola associada a um templo budista e depois distribuídos às crianças da mesma escola, construída em madeira e também ela assente em estacas.
Depois almoçámos num restaurante-barco, findo o qual voltámos ao ponto de atracagem. Nova viagem de 10-15 minutos de mota, desta vez mais desconfortável. Chegados à hospedari, tomámos banho, jantámos e eu depois acabei por receber uma massagem ao corpo todo e na qual fui esticado em todas as direcções. Soube bem. O dia seguinte, dia 22 de Dezembro de 2009, foi o da preparação para o regresso a Phnom Penh e o da viagem de seis horas com muitas buzinadelas, karaoke na televisão e o ”Rambo II” em khmer. Chegados à cidade, eu, a Cátia e a Paula, depois de umas voltas, lá conseguimos achar uma hospedaria decente no centro da cidade. Pousados os nossos haveres, fomos em busca de alimento. Encontrámo-lo num bar e quem nos serviu foi uma portuguesa, não me lembro se do Porto se de Aveiro, que já trabalhava ali há alguns anos. Passeámos um pouco mais e depois recolhemo-nos. A manhã seguinte foi uma de compras, onde vimos livrarias e lojas de CD/ DVDs – tudo pirateado, com uma apresentação sofrível. Estava calor, o sol ocupava o céu sem nuvens e assim continuou até à nossa chegada ao aeroporto, onde 25 dólares depois – pagámos a saída também – consegui passar com o meu saco a tiracolo e as minhas duas estátuas de madeira em pé do Buda, uma em cada braço – elas foram pesadas numa balança mecânica antes de sermos autorizados a entrar na zona de embarque.
A paragem seguinte foi Banguecoque, onde passámos uma noite num hotel simpático e onde recebi, grátis, uma massagem de corpo inteiro bem menos violenta que a anterior. Tal como nos lá tinham deixado, assim também nos foram buscar às 7 da manhã para apanharmos o voo da de regresso a  Macau – claro que na verificação da bagagem de mão tivemos que descalçar os sapatos. Chegámos a Macau cerca das 13 horas, se não me falha a memoria. Termino esta crónica reafirmando que, das ruas sujas aos templos, esta viagem acabou por ter tudo o que foi preciso para ser a viagem inesquecível que neste momento é. (3 de Março de 2009)