domingo, 21 de março de 2010

21 de Março de 2010


21 de Março de 2010 – primeira parte (14:00) – No momento em que estou a começar a passar o texto a limpo, estou a tentar ouvir Secret Mommy, enquanto o vizinho do lado me proporciona o prazer do berbequim a furar a parede. Falta saber se sou mais ou menos teimoso que o berbequim. O texto que se segue começou a ser composto em fins de Fevereiro, já as aulas tinham começado. Neste momento, o primeiro terço do segundo semestre já está quase cumprido.
“As semanas anteriores, dominadas pela minha lentidão na correcção dos testes finais ,  exames orais do primeiro semestre, os testes de colocação e respectivas provas orais deram lugar ao início das aulas no IFT. Comecei o nível IV com uma nova postura que espero se traduza em comentários menos negativos. O tempo também ocupado pela preparação do segundo semestre no IPOR – sobretudo o lado burocrático – foi, no entanto, o da expectativa da ida para o Laos, com a passagem em Hanói, durante uma semana. As férias começaram às 14:20 de sábado, quando eu e a Cátia partimos do aeroporto de Macau com destino a Hanói, eu com vontade de sentir até que ponto o Vietname era diferente do Cambodia – várias eram as pessoas que diziam haver sobretudo semelhanças entre os países, em tempos relativamente distantes conhecidos por Indochina. Depois de duas horas de viagem, aterrámos. O tempo estava encoberto e os poucos agasalhos que trazíamos vestidos de Macau – nas mochilas, só tínhamos roupa de Verão – forma opção adequada, pois a temperatura no exterior rondava os 13ºC e fazia-se sentir uma aragem, embora não fosse excessivamente fria.
Dentro do aeroporto, fomos a um posto de informações. Com aquilo que nos deram, apanhámos um táxi e, 15 dólares americanos depois, apeámo-nos em frente ao Hotel Prince, no Old Quarter. A ideia era procurarmos uma estalagem ou lugar que não nos custasse 20 dólares por noite. Acabámos por ficar no hotel, pois o que ouvimos dos recepcionistas foi de que o preço da dormida eram 13 dólares – diferença substancial em relação ao valor que nos tinham dado no posto de informações. Deixámos as nossas coisas no quarto – pequeno, agradável, com televisão, com um frigorífico cheio de bebidas e casa-de-banho privativa -  e fomos à pastelaria em frente saciar o animal que começava a rugir no nosso estômago. Pagámos um pouco mais de 200.000 dong, pouco mais de 10 dólares. Viríamos a descobrir que o câmbio de rua variava entre os 17.000 e os 19.000 dong por dólar.
Vou agora falar das impressões que o caminho do aeroporto até ao hotel – um percurso de 30 quilómetros. Hanói – aliás, Ha-Noi – fica no fim de um percurso feito em auto-estradas cruzando-se umas com as outras, ladeadas por campos cultivados e por cultivar, assim como fábricas, inseridas ou não em complexos industriais – do táxi pude ver as instalações da Canon e da Panasonic. Aquelas marcas da engenharia humana, relativamente espaçadas entre si, contra o céu encoberto e de alguma humidade no ar, fizeram-me lembrar as ‘manhãs de nevoeiro‘. Já na cidade, o frenesim não me apanhou de surpresa. O tráfego, dominado pela presença das motos, era intenso e o buzinar das viaturas era constante, quase um traço cultural. Neste aspecto, os condutores em Lisboa são uns meninos. Toda a arquitectura da cidade estava normalmente degradada e era visível a pobreza dos vietnamitas; ainda assim, e do que pude observar, não tão acentuada como a dos cambodianos, que tiveram de penar por causa do Pol Pot e do Nixon.
Às 17h00, já a noite se fazia sentir, fomos dar uma volta por aquela zona da cidade de pelo menos 6,5 milhões de habitantes, a qual ‘tem‘ como ‘eixo‘ um grande lago – Hoan Kiem – à beira do qual pudemos ver os néons coloridos de alguns arranha-céus e a luz de potentes holofotes que rasgavam o escuro da noite – talvez tamanha efusividade tivesse a ver com o facto de a cidade comemorar, em 2010, 1000 anos de existência. Fomos andando ao longo do espaço ajardinado à volta do rio, a traça colonial misturada com os traços do cosmopolitismo recente: estruturalmente, nada de muito diferente quando comparado com o Ocidente. As iluminações de Natal – estrelas e pinheiros de néon – que iluminavam as avenidas de Lisboa, não são diferentes das de Hanói encimadas pelo foice e o martelo. Continuámos a andar mais um pouco um pouco ao acaso, até que voltámos a dar com o hotel. Vimos um pouco de televisão e depois fomos jantar.
Para quem está habituado a uma hora portuguesa, o início da noite às 18 horas provoca sempre estranheza. As 22 horas na Ásia parecem-me sempre meia-noite ou perto disso. Jantámos perto do hotel, num restaurante apenas acessível a bolsas europeias ou outras mais endinheiradas de qualquer dos hemisférios. A escolha de sítio para comermos era limitada, pois muito do comércio estava fechado por ser o Ano Novo Chinês – começava, salvo erro, nod ia seguinte às 10h51 da manhã. Depois de uma refeição de pratos-a-atirar-para-o-picante, voltámos para o hotel e vimos um pouco de televisão – não havia leitor de DVD, pois de outro modo teríamos visto alguns dos DVDs que tínhamos comprado à tarde. Muitas das cópias aúdio e vídeo não são de boa qualidade; isto é, as capas eram manhosas.
O dia seguinte começaria às 5h30 da manhã, pois tínhamos de apanhar o avião para Vientienne no Laos às 8h10. Depois de termos acordado os empregados que estavam a dormir na recepção do hotel e de termos pago, de forma inesperada e a contragosto, 50 dólares pelas despesas – 30 pela estadia e 20 pelo táxi – lá atravessámos a manhã húmida e de nevoeiro até ao aeroporto. Depois de uma viagem de cerca de uma hora e um quarto a preencher boletins de saúde e formulários de chegada/ partida – ou entrada/ saída – aterrámos na República Democrática do Povo do Laos – Laos PDR. Nas costas dos formulários constavam algumas frases úteis no Laos. Ei-las: Sabai-Dee – Olá; Sabai-Dee Bor? – Como está/ estás?; Kalunaa – Por favor; Khawp Jai – Obrigado; Anee Thau Dai – Quanto é que isto custa?; Sohk Dee Der – Adeus e toma cuidado. Dentro do aeroporto preenchemos um formulário para a obtenção de visto, o qual, para alem de uma fotografia – tinha pensado que eram necessárias duas e, por isso, tinha tirado a do meu passe dos autocarros – custou 35 dólares – o preço variava de país para país; este era para os oriundos da União Europeia.
O objectivo seguinte era conseguirmos transporte para Luang Prabang. Preferíamos ir de aviao, mas os voos estavam cheios ficámos em lista de espera para o caso de haver desistências, mas sem resultados. O preço de ida era 85 dólares por pessoa; o de ida e volta, algo como 140 ou 150 dólares. Sobrou a viagem de 10 horas de autocarro que, tanto quanto então sabíamos, começava às 19 horas. Entretanto, encontrámo-nos com Sandra e com o Rogério, que também iam para Luang Prabang... de avião. Estivemos um pouco a conversar, até que eles partiram; combinámos encontrar-nos em Luang Prabang. Nós apanhámos um tuk tuk – custo da viagem: 40000 kips – e fomos até ao terminal de autocarros para comprarmos os bilhetes. A Cátia trouxe-os dizendo que iríamos no autocarro das 13h30. Fomos almoçar à cidade a um restaurante/ café/ padaria que ostentava o nome Swedish Bakery. O almoço foi bom. Voltámos ao terminal e, depois de termos pago mais 40000 kips pela viagem ao centro da cidade, apanhámos um que estava prestes a sair – eram 13 horas.
Iam tantos turistas quanto cidadãos laoseanos no autocarro, um veículo com cerca de 40 anos de idade e com um ar condicionado que não funcionava. Face ao calor intenso – ainda assim, não opressivo – que se fazia sentir, aquela não era uma boa notícia... a primeira. A viagem de 10 horas transformar-se-ia numa de quase 12, com paragens constantes – semelhante, em frequência, às do comboio inter-regional em Portugal – e quase sempre breves. Mochilas e sacos ocupavam os bancos vazios e partes do corredor de acesso aos lugares. A música funcionava intermitentemente, com um dos condutores ao comando do leitor de discos – leitor de todos os formatos e feito, quem sabe, na China – a trocar de CDs e a verificar as ligações entre o aparelho e o sistema de altifalantes. O grande contra de tudo foi o autocarro não possuir suspensões ou amortecedores: de cada vez que havia uma irregularidade na estrada, por pequena que fosse, éramos, sentados, sacudidos em várias direcções, a violência das sacudidelas variando com o grau da irregularidade.
A paisagem, verde, tinha um ar seco; algo natural, pois estamos na estação seca. As habitações, as pessoas e as povoações apresentam-se-nos e dispõe-se-nos de uma foram que me lembra o que vi no Cambodia, mas sempre sem um grau de pobreza tão acentuado. As estradas alcatroadas são longas e estreitas, ladeadas por terras vermelhas/ castanhas-claras onde, aos aglomerado as de casas sobretudo de madeira ou de tijolo, se sucedem espaços pontuados por esta ou aquela casa. Os veículos de eleição são as motos; é também frequente vermos autocarros. Em termos topográficos, a paisagem é dominada por vales e muitas zonas montanhosas cobertas de árvores. Cerca da meia-noite e meia chegámos a Luang Prabang. Descemos e logo nos ofereceram os serviços de um tuk tuk. Regateado o preço, entrámos para o tuk tuk que nos cabia. Esperámos meia dúzia de minutos. O ‘nosso’ condutor estava a demorar-se porque queria levar mais pessoas. Saímos e pusemo-nos à procura de outro tuk tuk; ele logo o conduziu até nós e lá nos levou até à hospedaria onde a Sandra e o Rogério estavam – aquando da nossa partida de Vientienne, tínhamos-lhes pedido para nos reservarem um quarto. Depois de um pequeno episódio de mau entendimento entre as partes, lá chegámos à hospedaria no exterior da qual estava o Rogério à nossa espera. A rua estava deserta e era quase nula a iluminação.

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