domingo, 21 de março de 2010

21 de Março de 2010


21 de Março de 2010 – segunda parte (15:00)No dia seguinte, acordámos e, antes de termos mudado de quarto – do 103 para o 202 – fomos tomar o pequeno-almoço. estávamos num espaço aberto de algumas árvores, com adeiras e mesas de madeiras a fazerem, do lado oposto da estrada, de esplanada da hospedaria, com vista sobre o rio Mekong. É difícil de descrever o prazer e o agrado que sentíamos em estar ali. O pequeno-almoço, de 30000 kips – 30 patacas, dois euros e meio – tinha – teve sempre – como constantes a taça de frutas – banana, papaia, manga, ananás, melancia ou maçã – e um sumo natural de frutas várias. O saboros e suave café do Laos, ao qual podíamos adicionar leite condensado, podia ser substituído por chá. Para comer, os diferentes combinados combinavam as baguetes com ovos estrelados, omoletes, bacon e fiambre. Havia combinados com sandes de vegetais, carne de porco ou atum.
O primeiro dia foi passado a comer e a passear..  enfim, algo de comum ao resto dos dias. Mas esse foi marcado pela obtenção, numa agencia de viagens a troco de 140 dólares por pessoa, de um voo de Luang Prabang para... Hanói. Aquela viagem de autocarro foi de uma irrepetibilidade que quisemos que fosse permanente. Depois, eu o Rogério e a Sandra subimos, a troco de 20.000 kips, ao monte Phu Si, de oonde se podia ver toda a cidade eonde também havia alguns templos budistas – aqui não vi estátua do Buda que não fosse dourada ou cuja expressão não fosse fascinante e enigmática. A subida do monte nada teve de especial, contrariamente à descida, com muitas fotografias tiradas a Budas de tamanhos vários sentados, deitados e de pé, ao ar livre ou em cavernas.
Ao exercício, sucedeu-se o almoço, tendo nós os quatro andado às voltas – às compras ou a beber café – até cerca das 16h30, quando fomos fazer a viagem de barco, arranjada numa das muitas agencia que por ali havia, de duas horas com o único objectivo de vermos o por-de-sol no Mekong no rio Mekong. Foram duas horas muito bem passados e o por-de-sol era muito bonito. Éramos nós os quatro mais o condutor numa espécie de barco estreito observando a vida à beira-rio e até parámos numm banco de areia para uns banhos e fotografias com uns miúdos curiosos que por lá apareceram. Era noite quando acabámos o passeio. Depois decidimo-nos por uma ida – a primeira de três – ao mercado nocturno fazer compras. É difícil escolher coisas, de que de facto precisamos, de entre tanto artesanato produzido industrialmente. Nessa noite, comprámos umas sandes gigantes com recheio variável, a um preço simpático, a uma senhora à qual voltaríamos mais duas vezes.
O dia seguinte, terça-feira, foi um e acordar cedo par irmos fazer um trekking, que incluiu passar por uma aldeia da, salvo erro, tribo Hmong e que depois de uma caminhada de cerca de duas horas, nos levaria à queda de água de, se não me engano, Kuang Si. Estava quente, o sol era forte e o ar estava seco. A caminhada soube-nos bem: muitas árvores com alguma humidade por elas causada, além dos trilhos nos quais era preciso caminhar – sobretudo a descer – com algum cuidado. Chegámos ao sítio onde a queda de água terminava o seu maior percurso e dava lugar a outras bem mais pequenas, entre elas havendo alguns sítios onde era possível nadarmos – sempre com cuidado, pois o fundo era bastante irregular. Naturalmente, tomámos banho. Depois dos mergulhos, almoçámos e seguimos caminho até à saída, não sem antes vermos ursos pretos do Laos enjaulados a brincarem – estão próximos da extinção. Ainda esperámos um pouco pela carrinha que nos tinha levado, mas 15 minutos depois lá apareceu. O resto do dia foi passado a andar por Luang Prabang e, ao anoitecer, tomarmos o caminho do mercado e da banca das sandes. Antes de nos irmos deitar, sentámo-nos os quatro a conversar na mesma mesa onde havíamos tomado o pequeno-almoço – nunca a veríamos ocupada por ninguém a não ser por nós.
Na quarta-feira, levantámo-nos à mesma hora e, tomado o pequeno-aloço, eu e a Cátia esperámos um pouco a té uma carrinha com pelo menos 20 anos de idade apanhar-nos para o nosso passeio de kayak. Até chegarmos ao local da partida, demorámos cerca de 45 minutos, pois foi preciso ir buscar as embarcações para nós e para o guia. Lá chegámos e pusemo-nos na água para o que viria a ser umja viagem de um pouco mais de três horas, paragem breve  para o almoço – de arroz, como no dia anterior – incluído. Foi uma viagem cansativa, mas bonita. Navegávamos no meio de um rio tranquilo muito visitado, muito usado pela população laociana. É um local onde o rio corata a terra feita de árvores e elevações de altura variável. É-me difícil de descrever. O percuros foi encurtado devido ao nosso cansaço e acabei por cair ao rio... no momento em que estava na margem a sair do kayak. Enquanto os kayak estavam a ser carregados, havia uns franceses que queriam fazer negocio com os guias: eles iam de kayak até Luang Prabang e os guias levam-lhes as bicicletas. O negocio não foi por diante,, pois o casal francês, tanto quanto me lembro, propuseram-lhes um preço muito baixo... demasiado baixo. Lá fizemos o caminho de volta e, quando chegámos à hospedaria, eu fui para a esplanada escrever – ou se calhar foi no dia anterior e nesse dia sentámo-nos na esplanada a conversarmos os quatro até chegar a hora do jantar e irmos fazer um percurso semelhante ao da noite anterior. O fim da noite era na esplanada à conversa até às duas ou três da manhã.
Na quinta-feira de manhã, depois do pequeno-almoço, não me lembro do que fizemos ou a que sítio fomos – acho que ficámo-nos pelas imediações da hospedaria. seja como for, a Sandra e o Rogério partiram e eu e a Cátia, depois de almoçarmos, alugámos um par de bicicletas e fomos dar um mergulho no, salvo erro, Nam Khan, um dos rios que vai dar ao Mekong. Depois de termos pago 22.500 kips, atravessámos a ponte de bambu por cima do rio. Lá estivemos a nadar e a deixar-nos levar pela corrente numa zona de rápidos – havia umas miudinhas a fazerem-no e nós imitámo-las – em que a água ficava abaixo do joelho. A noite começava a sentir-se. Saímos do banco de areia onde tínhamos estado e ainda estivemos a nadar um pouco mais numa zona de água quieta e observámos uns putos a tentarem fazer com que os papagaios voassem – só um dos miúdos é que o conseguiu fazer com sucesso. Fizemos o caminho de volta no, se não me engano, Sikhunmeuang , templo budista onde assistimos às orações, cantadas pelos monges. Foi um momento intenso, gostei muito. Depois, já noite, fomos até uma outra esplanada a um quilometro de onde estávamos hospedados e, com vista – outra – para o Mekong, bebemos uma cerveja e conversámos. No regresso, começou a chover. Fomos jantar e acabámos por nos deitarmos não muito tarde.
No dia seguinte, às 9 horas, preparámos as nossas coisas e saímos da hospedaria pouco depois do meio-dia. Almoçámos e, por 40.000 kips, um tuk tuk levou-nos até ao aeroporto, um edifício pequeno. Fizemos o scanning da bagagem enquanto entrávamos. Quatro metros depois, verificaram-nos os passaportes; outros tantos depois, fizemos o check-in – se calhar foi ao contrario... – e andámos dez metros até à sala de espera de – quê? – 100 metros quadrados e esperámos uma hora para apanharmos um bimotor da Air Laos onde, no percurso de 40 minutos até Hanói, nos foi servida uma refeição – não me desagradou. Aterrámos e apanhámos um táxi de 9 lugares que deixava as pessoas em vários lugares. Pagámos cerca de 8 dólares e, depois de umas voltas em que acabámos os únicos dentro do táxi, lá achámos uma hospedaria, onde dormimos num quarto limpo por 17 dólares. O episódio do táxi não me pareceu invulgar, pois aqui parece funcionar a lógica do que é mais prático, ainda que o cliente possa ser um tudo nada ‘prejudicado’.
O que restava desse dia foi passado a passear, a jantar e a ver televisão antes de acordarmos no dia seguinte para a nossa partida de Hanói, não sem antes termos feito umas compras. Fomos para o aeroporto num táxi com taxímetro e acabámos por pagar 16 dólares. Esperámos uma hora, durante a qual pudemos, perplexos, assistir a uma – invulgar – cena de pugilato à entrada do aeroporto, com meia dúzia de policias atentarem controlar um dos homens da disputa. Hora e meia depois da partida, o avião aterraria em Macau. Na memoria, ficaram as pessoas do Laos e do Vietname – simpáticas, tal como as do Cambodia – e as montanhas, motos, barcos e rios. No coração... é fácil de adivinhar.

21 de Março de 2010


21 de Março de 2010 – primeira parte (14:00) – No momento em que estou a começar a passar o texto a limpo, estou a tentar ouvir Secret Mommy, enquanto o vizinho do lado me proporciona o prazer do berbequim a furar a parede. Falta saber se sou mais ou menos teimoso que o berbequim. O texto que se segue começou a ser composto em fins de Fevereiro, já as aulas tinham começado. Neste momento, o primeiro terço do segundo semestre já está quase cumprido.
“As semanas anteriores, dominadas pela minha lentidão na correcção dos testes finais ,  exames orais do primeiro semestre, os testes de colocação e respectivas provas orais deram lugar ao início das aulas no IFT. Comecei o nível IV com uma nova postura que espero se traduza em comentários menos negativos. O tempo também ocupado pela preparação do segundo semestre no IPOR – sobretudo o lado burocrático – foi, no entanto, o da expectativa da ida para o Laos, com a passagem em Hanói, durante uma semana. As férias começaram às 14:20 de sábado, quando eu e a Cátia partimos do aeroporto de Macau com destino a Hanói, eu com vontade de sentir até que ponto o Vietname era diferente do Cambodia – várias eram as pessoas que diziam haver sobretudo semelhanças entre os países, em tempos relativamente distantes conhecidos por Indochina. Depois de duas horas de viagem, aterrámos. O tempo estava encoberto e os poucos agasalhos que trazíamos vestidos de Macau – nas mochilas, só tínhamos roupa de Verão – forma opção adequada, pois a temperatura no exterior rondava os 13ºC e fazia-se sentir uma aragem, embora não fosse excessivamente fria.
Dentro do aeroporto, fomos a um posto de informações. Com aquilo que nos deram, apanhámos um táxi e, 15 dólares americanos depois, apeámo-nos em frente ao Hotel Prince, no Old Quarter. A ideia era procurarmos uma estalagem ou lugar que não nos custasse 20 dólares por noite. Acabámos por ficar no hotel, pois o que ouvimos dos recepcionistas foi de que o preço da dormida eram 13 dólares – diferença substancial em relação ao valor que nos tinham dado no posto de informações. Deixámos as nossas coisas no quarto – pequeno, agradável, com televisão, com um frigorífico cheio de bebidas e casa-de-banho privativa -  e fomos à pastelaria em frente saciar o animal que começava a rugir no nosso estômago. Pagámos um pouco mais de 200.000 dong, pouco mais de 10 dólares. Viríamos a descobrir que o câmbio de rua variava entre os 17.000 e os 19.000 dong por dólar.
Vou agora falar das impressões que o caminho do aeroporto até ao hotel – um percurso de 30 quilómetros. Hanói – aliás, Ha-Noi – fica no fim de um percurso feito em auto-estradas cruzando-se umas com as outras, ladeadas por campos cultivados e por cultivar, assim como fábricas, inseridas ou não em complexos industriais – do táxi pude ver as instalações da Canon e da Panasonic. Aquelas marcas da engenharia humana, relativamente espaçadas entre si, contra o céu encoberto e de alguma humidade no ar, fizeram-me lembrar as ‘manhãs de nevoeiro‘. Já na cidade, o frenesim não me apanhou de surpresa. O tráfego, dominado pela presença das motos, era intenso e o buzinar das viaturas era constante, quase um traço cultural. Neste aspecto, os condutores em Lisboa são uns meninos. Toda a arquitectura da cidade estava normalmente degradada e era visível a pobreza dos vietnamitas; ainda assim, e do que pude observar, não tão acentuada como a dos cambodianos, que tiveram de penar por causa do Pol Pot e do Nixon.
Às 17h00, já a noite se fazia sentir, fomos dar uma volta por aquela zona da cidade de pelo menos 6,5 milhões de habitantes, a qual ‘tem‘ como ‘eixo‘ um grande lago – Hoan Kiem – à beira do qual pudemos ver os néons coloridos de alguns arranha-céus e a luz de potentes holofotes que rasgavam o escuro da noite – talvez tamanha efusividade tivesse a ver com o facto de a cidade comemorar, em 2010, 1000 anos de existência. Fomos andando ao longo do espaço ajardinado à volta do rio, a traça colonial misturada com os traços do cosmopolitismo recente: estruturalmente, nada de muito diferente quando comparado com o Ocidente. As iluminações de Natal – estrelas e pinheiros de néon – que iluminavam as avenidas de Lisboa, não são diferentes das de Hanói encimadas pelo foice e o martelo. Continuámos a andar mais um pouco um pouco ao acaso, até que voltámos a dar com o hotel. Vimos um pouco de televisão e depois fomos jantar.
Para quem está habituado a uma hora portuguesa, o início da noite às 18 horas provoca sempre estranheza. As 22 horas na Ásia parecem-me sempre meia-noite ou perto disso. Jantámos perto do hotel, num restaurante apenas acessível a bolsas europeias ou outras mais endinheiradas de qualquer dos hemisférios. A escolha de sítio para comermos era limitada, pois muito do comércio estava fechado por ser o Ano Novo Chinês – começava, salvo erro, nod ia seguinte às 10h51 da manhã. Depois de uma refeição de pratos-a-atirar-para-o-picante, voltámos para o hotel e vimos um pouco de televisão – não havia leitor de DVD, pois de outro modo teríamos visto alguns dos DVDs que tínhamos comprado à tarde. Muitas das cópias aúdio e vídeo não são de boa qualidade; isto é, as capas eram manhosas.
O dia seguinte começaria às 5h30 da manhã, pois tínhamos de apanhar o avião para Vientienne no Laos às 8h10. Depois de termos acordado os empregados que estavam a dormir na recepção do hotel e de termos pago, de forma inesperada e a contragosto, 50 dólares pelas despesas – 30 pela estadia e 20 pelo táxi – lá atravessámos a manhã húmida e de nevoeiro até ao aeroporto. Depois de uma viagem de cerca de uma hora e um quarto a preencher boletins de saúde e formulários de chegada/ partida – ou entrada/ saída – aterrámos na República Democrática do Povo do Laos – Laos PDR. Nas costas dos formulários constavam algumas frases úteis no Laos. Ei-las: Sabai-Dee – Olá; Sabai-Dee Bor? – Como está/ estás?; Kalunaa – Por favor; Khawp Jai – Obrigado; Anee Thau Dai – Quanto é que isto custa?; Sohk Dee Der – Adeus e toma cuidado. Dentro do aeroporto preenchemos um formulário para a obtenção de visto, o qual, para alem de uma fotografia – tinha pensado que eram necessárias duas e, por isso, tinha tirado a do meu passe dos autocarros – custou 35 dólares – o preço variava de país para país; este era para os oriundos da União Europeia.
O objectivo seguinte era conseguirmos transporte para Luang Prabang. Preferíamos ir de aviao, mas os voos estavam cheios ficámos em lista de espera para o caso de haver desistências, mas sem resultados. O preço de ida era 85 dólares por pessoa; o de ida e volta, algo como 140 ou 150 dólares. Sobrou a viagem de 10 horas de autocarro que, tanto quanto então sabíamos, começava às 19 horas. Entretanto, encontrámo-nos com Sandra e com o Rogério, que também iam para Luang Prabang... de avião. Estivemos um pouco a conversar, até que eles partiram; combinámos encontrar-nos em Luang Prabang. Nós apanhámos um tuk tuk – custo da viagem: 40000 kips – e fomos até ao terminal de autocarros para comprarmos os bilhetes. A Cátia trouxe-os dizendo que iríamos no autocarro das 13h30. Fomos almoçar à cidade a um restaurante/ café/ padaria que ostentava o nome Swedish Bakery. O almoço foi bom. Voltámos ao terminal e, depois de termos pago mais 40000 kips pela viagem ao centro da cidade, apanhámos um que estava prestes a sair – eram 13 horas.
Iam tantos turistas quanto cidadãos laoseanos no autocarro, um veículo com cerca de 40 anos de idade e com um ar condicionado que não funcionava. Face ao calor intenso – ainda assim, não opressivo – que se fazia sentir, aquela não era uma boa notícia... a primeira. A viagem de 10 horas transformar-se-ia numa de quase 12, com paragens constantes – semelhante, em frequência, às do comboio inter-regional em Portugal – e quase sempre breves. Mochilas e sacos ocupavam os bancos vazios e partes do corredor de acesso aos lugares. A música funcionava intermitentemente, com um dos condutores ao comando do leitor de discos – leitor de todos os formatos e feito, quem sabe, na China – a trocar de CDs e a verificar as ligações entre o aparelho e o sistema de altifalantes. O grande contra de tudo foi o autocarro não possuir suspensões ou amortecedores: de cada vez que havia uma irregularidade na estrada, por pequena que fosse, éramos, sentados, sacudidos em várias direcções, a violência das sacudidelas variando com o grau da irregularidade.
A paisagem, verde, tinha um ar seco; algo natural, pois estamos na estação seca. As habitações, as pessoas e as povoações apresentam-se-nos e dispõe-se-nos de uma foram que me lembra o que vi no Cambodia, mas sempre sem um grau de pobreza tão acentuado. As estradas alcatroadas são longas e estreitas, ladeadas por terras vermelhas/ castanhas-claras onde, aos aglomerado as de casas sobretudo de madeira ou de tijolo, se sucedem espaços pontuados por esta ou aquela casa. Os veículos de eleição são as motos; é também frequente vermos autocarros. Em termos topográficos, a paisagem é dominada por vales e muitas zonas montanhosas cobertas de árvores. Cerca da meia-noite e meia chegámos a Luang Prabang. Descemos e logo nos ofereceram os serviços de um tuk tuk. Regateado o preço, entrámos para o tuk tuk que nos cabia. Esperámos meia dúzia de minutos. O ‘nosso’ condutor estava a demorar-se porque queria levar mais pessoas. Saímos e pusemo-nos à procura de outro tuk tuk; ele logo o conduziu até nós e lá nos levou até à hospedaria onde a Sandra e o Rogério estavam – aquando da nossa partida de Vientienne, tínhamos-lhes pedido para nos reservarem um quarto. Depois de um pequeno episódio de mau entendimento entre as partes, lá chegámos à hospedaria no exterior da qual estava o Rogério à nossa espera. A rua estava deserta e era quase nula a iluminação.

sexta-feira, 19 de março de 2010

19 de Março de 2010


19 de Março de 2010 (17:14) – Depois de tanto tempo passado, é certo e sabido que a selectividade da memória vai-se fazer sentir no relato da segunda parte das férias no reino da Cambodja. E que depois disto já houve aulas, dois anos novos – um chinês e um português – um Natal e uma viagem ao Laos com passagem pelo Vietname.
A minha memória tem quase a certeza de que apanhámos o autocarro de Phnom Penh para Siem Riep às 14h00 do dia 20. Fomos levados até ao sítio – uma rua qualquer – onde era possível apanhar o autocarro de tuk tuk – que português tão fraco… Foi uma viagem de 6 horas com os seus pontos de interesse, a começar pelos vídeos que passavam na televisão de música pimba em khmer com as letras em rodapé, talvez para ajudar a quem quisesse depois fazer uma carreira no mundo do karaoke. O percurso foi feito quase sempre em linha recta, numa estrada ocupada por vários tipos de veículos que se iam afastando do caminho à medida das buzinadelas do condutor do nosso autocarro, as quais pouco s intervalos tinham entre si. Ao longo do caminho, houve duas ou três paragens para idas à casa de banho e reabastecimento de víveres. A paisagem rural era bastante diferente da da urbana, no sentido em que a pobreza rural parecia mais próxima da suficiente. De resto, a maioria das casas eram feitas de madeira e a cerca de dois metros do solo – porque seria não sei, mas a verdade é que o espaço evitavam melhor eventuais cheias além de servirem como espaço para armazenamento de materiais ou sala de refeições ou de quarto de sesta. A terra seca e o pó que tudo cobre, omnipresente, compõe o resto do quadro. Nas paragens à beira da estrada, os bolos, os biscoitos e os pedaços de ananás, todos dentro de sacos de plástico, são os itens alimentares mais consumidos. É já noite – anoitece cedo deste lado do mundo – quando chegamos a Siem Riep, a um lugar que é o terminal apenas porque lá se vislumbram autocarros – o sítio não é iluminado; a luz existente é a proveniente dos faróis das viaturas. De posse das malas, vejo que um portão feito de ferro soldado e chapa ondulada a abrir-se. Do outro lado da escuridão saem ao nosso encontro condutores de tuk tuk prontos para nos levarem aos nossos destinos, quaisquer que eles fossem. Depois de regateado o preço, lá entrámos na noite de Siem Riep. As construções degradadas de tijolo, de madeira e de ferro ladeiam a estrada, de modo semelhante ao que havia visto em Phnom Penh. A escassa iluminação ao longo da estrada que mascara mal a miséria, mas não é por causa disso que a vida aqui pára: depois dos Khmeres Vermelhos...
Chegámos finalmente à hospedaria – guesthouse – que havíamos marcado em Phnom Penh. De nome Babel, é ainda hoje o meu sítio de referência no que respeita a local de estadia porque foi uma conjugação óptima de vários factores, como o preço – 13 dólares por noite – e a qualidade das instalações: os quartos não eram fantásticos, embora tivessem tudo quanto era necessário. Na Babel a qualidade que mais se destacava era a – mais do que familiaridade – a atmosfera de uma certa convivialidade. O pequeno espaço exterior tinha talvez uma dúzia de mesas para as refeições, com um tecto feito de cana ou de palmeira – não me lembro bem. O estabelecimento, gerido por um espanhol, um francês e um italiano, era um misto de bom local de férias e casa. Infelizmente, devido ao desentendimento gerado pelo fraco nível de entendimento de um dos recepcionistas da hospedaria onde tínhamos ficado em Phnom Penh, só ficámos no Babel uma noite, embora lá voltássemos para uma ou outra refeição ou mesmo um copo depois do jantar. A hospedaria para onde nos mudámos era muito diferente: os quartos eram semelhantes em qualidade, mas o ambiente não era propício à convivialidade – na Babel, os empregados eram eficazes e simpáticos e a comunicação e o convívio com eles faziam-se sem problemas. nesta hospedaria o tratamento era obsequioso e o serviço demorado. (Fins de Fevereiro de 2010)
Já não me lembro o que aconteceu na primeira noite. Provavelmente, jantámos e estivemos pela Babel a beber um copo – eles tinham uma espécie de zona de chill-out no exterior – e a contemplara as estrelas. Coisa rara, pois não há estrelas no céu de Macau: em Macau, estrelas, só talvez as que se passeiam no asfalto. No dia seguinte, acordámos cedo para irmos à zona dos templos de Angkor – mais de mil de todos os tamanhos possíveis, segundo consta – para vermos – para ver tudo seriam precisos cerca de 7 dias –os mais importantes templos do complexo, a começara por Angkor Wat, i.e. ‘templo da cidade’, talvez o maior monumento religioso do planeta. Os tuk tuk pararam à entrada do complexo, para que adquiríssemos um ingresso do qual viria a constar uma fotografia que eles nos tiraram na hora – é claro que tenho o meu! Viria a ser, não surpreendentemente, uma viagem inesquecível. Andámos por uma estrada relativamente bem pavimentada e com postes de iluminação na estrada – tão rara aposta justifica-se pelo orgulho nacional que os cambodjanos sentem por aqueles monumentos; afinal, Angkor Wat está incorporado na bandeira do país. O importante retorno financeiro que aquilo proporciona também justifica o investimento. Depois de mais uns minutos de tuk tuk, parámos em frente ao templo e fomos ‘assaltados’ por miúdos a venderem água fresca, livros, guias e bebidas gaseificadas frescas, assim como os seus serviços de guias. Tudo em inglês, debitados a toda a velocidade, pois o dinheiro é um bem bem escasso por ali. Dizemos-lhes que não e começamos a entrar.
O edifício está um pouco degradado, mas isso é rapidamente esquecido quando vemos todos os espaços do templo com figuras e motivos que giram à volta de representações do Buda e de Vishnu, assim com de histórias à volta deles. Para mais consultem um livro... volumoso. No exterior, a quantidade, o tamanho e o grau de pormenor dos baixos relevos impressiona. Os mais afamados deles são um que retrata a batalha entre dois clãs e a outra o Churning Of The Sea Of Milk, que trata da obtenção do elixir da imortalidade e cuja busca é motivada por um episódio de despeito – os dois episódios são provenientes da mitologia hindu. Passamos o tempo a passar por pessoas e espíritos-guardiões, a descer e a subir escadarias de pedra de graus de inclinação e erosão variáveis e, à sombra ou ao sol, sermos objectos fotográficos das nossas máquinas. O tempo estava muito quente e seco.
Passadas umas duas horas, fomo-nos embora e a paragem seguinte foi a do Templo de Bayon – o mais importante de Angkor Thom, em tempos uma capital do império khmer. É o famoso templo das torres feitas de quatro rostos serenos representando o Buda. Para chegarmos ao cimo das torres e ficarmos próximos dos rostos, tivemos de subir uma escadaria de pedra muitíssimo inclinada feita de meios degraus provocadas pelo uso. Maravilhámo-nos, tirámos fotografias, descemos e acabámos por ir almoçar. Fomos novamente ‘assaltados’, desta vez por crianças e não foi fácil dizermos ‘não’ a quase todas elas. Miúdos e miúdas, muitos deles muito persuasivos, a venderem bugigangas, postais e livros pirateados, falando sobretudo inglês e com conhecimento de algumas capitais europeias – uma arma de vendas muito importante. De Bayon seguimos para Preah Khan, um templo khmer onde as árvores crescem vindo de dentro das ruínas, a caminho do qual passámos pelo bonito Terraço do Elefantes, o qual tem uma parede de 350 metros onde os elefantes estão esculpidos.
Em Angkor, as ruínas convivem mais ou menos bem com as árvores que delas nascem – que remédio! – e não há nada aqui que não seja bonito, mas o pouco tempo não permite não permite uma apreciação devida. Acho que foi em Preah Khan que comprei que comprei um berimbau e um chocalho, ambos feitos de cana... mas talvez não: se calhar, o que comprei lá foi um par de CD-Rs de música tradicional khmer aos músicos amputados que lá estavam a tocar. Onde se calhar comprei os instrumentos foi em Ta Phrom, outro templo khmer onde as árvores também vêm de dentro das ruínas – bonito de ver e sem tempo para o fazer, claro.  O miúdo que me vendeu o chocalho vendeu tudo quanto tinha em cinco minutos, graças a muitos de nós. Terá sido uma tarde com menos trabalho para ele? Talvez, mas isto é só para me tentar fazer sentir bem, pois vivemos em mundos muito diferentes. Daqui subimos até ao templo de – segundo creio – Phnom Bakheng, templo hindu em forma de montanha, hoje muito popular por dali se poder ver um bonito pôr-do-sol. Depois de subirmos – mais uns – uns lances de escadas íngremes de degraus muito estreitos, juntámo-nos às outras dezenas de pessoas para o momento do pôr-do-sol – gostei da vista, embora não me parece que o meovimento descendente do sol tenha conferido tons especialmente extasiantes à paisagem. A massa humana que ali se encontrava voltou a fazer o percurso inverso, descida no fim da qual comprei mais uns CD-Rs de música khmer a músicos com os membros amputados – consequência das minas anti-pessoais, que continuaram a existir com o beneplácito do Império.Era já noite, e a saída de Angkor, apesar do trânsito intenso, fez-se com relativa rapidez. O resto da noite teve o jantar e uma ou outra actividade que foi ou um copo+conversa ou uma ida à vila fazer compras.
O dia seguinte foi o da ida ao Tonle Sap, um lago ligado ao rio Mekong que é o maior lago de água doce do Sudoeste Asiático e dentro do qual estão aldeias que dependem do lago para a sua subsistência. Foi isso que fomos ver. Saímos depois de tomado o pequeno-almoço e fomos, durante cerca de trinta minutos, de tuk tuk até um ponto não muito distante do lago onde, a troco de já não me recordo quantos dólares, alugámos um barco e as motas nas quais iríamos até ao dito cujo. Gostei da minha experiência de andar de mota, acho que me portei bem – apagou a anterior. O acidentado do percurso fez-me pensar no que será a dureza de uma prova de motocross. Chegados ao barco, lá começámos a nossa viagem até à aldeia, assente em cima de estacas bastante altas – na época das monções, quando o lago dos 2700 km2 da época seca passa a 16000 km2. Tinham viveiros de peixe e todos os percursos eram feitos de barco. Fomos recebidos por um aldeão simpático já de uma certa idade e que arranhava o francês. O nosso percurso continuou até uma zona de floresta ‘submersa’, onde a paz reinava e o silêncio tinha cheiro e textura muito agradável aos sentidos. Alguns de nós mergulhámos no Mekong na orla do lago. Apreciámos o máximo que pudemos aqueles momentos e depois regressámos, não sem antes distribuirmos cadernos e lápis, comprados a raparigas de uma escola associada a um templo budista e depois distribuídos às crianças da mesma escola, construída em madeira e também ela assente em estacas.
Depois almoçámos num restaurante-barco, findo o qual voltámos ao ponto de atracagem. Nova viagem de 10-15 minutos de mota, desta vez mais desconfortável. Chegados à hospedari, tomámos banho, jantámos e eu depois acabei por receber uma massagem ao corpo todo e na qual fui esticado em todas as direcções. Soube bem. O dia seguinte, dia 22 de Dezembro de 2009, foi o da preparação para o regresso a Phnom Penh e o da viagem de seis horas com muitas buzinadelas, karaoke na televisão e o ”Rambo II” em khmer. Chegados à cidade, eu, a Cátia e a Paula, depois de umas voltas, lá conseguimos achar uma hospedaria decente no centro da cidade. Pousados os nossos haveres, fomos em busca de alimento. Encontrámo-lo num bar e quem nos serviu foi uma portuguesa, não me lembro se do Porto se de Aveiro, que já trabalhava ali há alguns anos. Passeámos um pouco mais e depois recolhemo-nos. A manhã seguinte foi uma de compras, onde vimos livrarias e lojas de CD/ DVDs – tudo pirateado, com uma apresentação sofrível. Estava calor, o sol ocupava o céu sem nuvens e assim continuou até à nossa chegada ao aeroporto, onde 25 dólares depois – pagámos a saída também – consegui passar com o meu saco a tiracolo e as minhas duas estátuas de madeira em pé do Buda, uma em cada braço – elas foram pesadas numa balança mecânica antes de sermos autorizados a entrar na zona de embarque.
A paragem seguinte foi Banguecoque, onde passámos uma noite num hotel simpático e onde recebi, grátis, uma massagem de corpo inteiro bem menos violenta que a anterior. Tal como nos lá tinham deixado, assim também nos foram buscar às 7 da manhã para apanharmos o voo da de regresso a  Macau – claro que na verificação da bagagem de mão tivemos que descalçar os sapatos. Chegámos a Macau cerca das 13 horas, se não me falha a memoria. Termino esta crónica reafirmando que, das ruas sujas aos templos, esta viagem acabou por ter tudo o que foi preciso para ser a viagem inesquecível que neste momento é. (3 de Março de 2009)