19 de Março de 2010 (17:14) – Depois de tanto tempo passado, é certo e sabido que a selectividade da memória vai-se fazer sentir no relato da segunda parte das férias no reino da Cambodja. E que depois disto já houve aulas, dois anos novos – um chinês e um português – um Natal e uma viagem ao Laos com passagem pelo Vietname.
A minha memória tem quase a certeza de que apanhámos o autocarro de Phnom Penh para Siem Riep às 14h00 do dia 20. Fomos levados até ao sítio – uma rua qualquer – onde era possível apanhar o autocarro de tuk tuk – que português tão fraco… Foi uma viagem de 6 horas com os seus pontos de interesse, a começar pelos vídeos que passavam na televisão de música pimba em khmer com as letras em rodapé, talvez para ajudar a quem quisesse depois fazer uma carreira no mundo do karaoke. O percurso foi feito quase sempre em linha recta, numa estrada ocupada por vários tipos de veículos que se iam afastando do caminho à medida das buzinadelas do condutor do nosso autocarro, as quais pouco s intervalos tinham entre si. Ao longo do caminho, houve duas ou três paragens para idas à casa de banho e reabastecimento de víveres. A paisagem rural era bastante diferente da da urbana, no sentido em que a pobreza rural parecia mais próxima da suficiente. De resto, a maioria das casas eram feitas de madeira e a cerca de dois metros do solo – porque seria não sei, mas a verdade é que o espaço evitavam melhor eventuais cheias além de servirem como espaço para armazenamento de materiais ou sala de refeições ou de quarto de sesta. A terra seca e o pó que tudo cobre, omnipresente, compõe o resto do quadro. Nas paragens à beira da estrada, os bolos, os biscoitos e os pedaços de ananás, todos dentro de sacos de plástico, são os itens alimentares mais consumidos. É já noite – anoitece cedo deste lado do mundo – quando chegamos a Siem Riep, a um lugar que é o terminal apenas porque lá se vislumbram autocarros – o sítio não é iluminado; a luz existente é a proveniente dos faróis das viaturas. De posse das malas, vejo que um portão feito de ferro soldado e chapa ondulada a abrir-se. Do outro lado da escuridão saem ao nosso encontro condutores de tuk tuk prontos para nos levarem aos nossos destinos, quaisquer que eles fossem. Depois de regateado o preço, lá entrámos na noite de Siem Riep. As construções degradadas de tijolo, de madeira e de ferro ladeiam a estrada, de modo semelhante ao que havia visto em Phnom Penh. A escassa iluminação ao longo da estrada que mascara mal a miséria, mas não é por causa disso que a vida aqui pára: depois dos Khmeres Vermelhos...
Chegámos finalmente à hospedaria – guesthouse – que havíamos marcado em Phnom Penh. De nome Babel, é ainda hoje o meu sítio de referência no que respeita a local de estadia porque foi uma conjugação óptima de vários factores, como o preço – 13 dólares por noite – e a qualidade das instalações: os quartos não eram fantásticos, embora tivessem tudo quanto era necessário. Na Babel a qualidade que mais se destacava era a – mais do que familiaridade – a atmosfera de uma certa convivialidade. O pequeno espaço exterior tinha talvez uma dúzia de mesas para as refeições, com um tecto feito de cana ou de palmeira – não me lembro bem. O estabelecimento, gerido por um espanhol, um francês e um italiano, era um misto de bom local de férias e casa. Infelizmente, devido ao desentendimento gerado pelo fraco nível de entendimento de um dos recepcionistas da hospedaria onde tínhamos ficado em Phnom Penh, só ficámos no Babel uma noite, embora lá voltássemos para uma ou outra refeição ou mesmo um copo depois do jantar. A hospedaria para onde nos mudámos era muito diferente: os quartos eram semelhantes em qualidade, mas o ambiente não era propício à convivialidade – na Babel, os empregados eram eficazes e simpáticos e a comunicação e o convívio com eles faziam-se sem problemas. nesta hospedaria o tratamento era obsequioso e o serviço demorado. (Fins de Fevereiro de 2010)
Já não me lembro o que aconteceu na primeira noite. Provavelmente, jantámos e estivemos pela Babel a beber um copo – eles tinham uma espécie de zona de chill-out no exterior – e a contemplara as estrelas. Coisa rara, pois não há estrelas no céu de Macau: em Macau, estrelas, só talvez as que se passeiam no asfalto. No dia seguinte, acordámos cedo para irmos à zona dos templos de Angkor – mais de mil de todos os tamanhos possíveis, segundo consta – para vermos – para ver tudo seriam precisos cerca de 7 dias –os mais importantes templos do complexo, a começara por Angkor Wat, i.e. ‘templo da cidade’, talvez o maior monumento religioso do planeta. Os tuk tuk pararam à entrada do complexo, para que adquiríssemos um ingresso do qual viria a constar uma fotografia que eles nos tiraram na hora – é claro que tenho o meu! Viria a ser, não surpreendentemente, uma viagem inesquecível. Andámos por uma estrada relativamente bem pavimentada e com postes de iluminação na estrada – tão rara aposta justifica-se pelo orgulho nacional que os cambodjanos sentem por aqueles monumentos; afinal, Angkor Wat está incorporado na bandeira do país. O importante retorno financeiro que aquilo proporciona também justifica o investimento. Depois de mais uns minutos de tuk tuk, parámos em frente ao templo e fomos ‘assaltados’ por miúdos a venderem água fresca, livros, guias e bebidas gaseificadas frescas, assim como os seus serviços de guias. Tudo em inglês, debitados a toda a velocidade, pois o dinheiro é um bem bem escasso por ali. Dizemos-lhes que não e começamos a entrar.
O edifício está um pouco degradado, mas isso é rapidamente esquecido quando vemos todos os espaços do templo com figuras e motivos que giram à volta de representações do Buda e de Vishnu, assim com de histórias à volta deles. Para mais consultem um livro... volumoso. No exterior, a quantidade, o tamanho e o grau de pormenor dos baixos relevos impressiona. Os mais afamados deles são um que retrata a batalha entre dois clãs e a outra o Churning Of The Sea Of Milk, que trata da obtenção do elixir da imortalidade e cuja busca é motivada por um episódio de despeito – os dois episódios são provenientes da mitologia hindu. Passamos o tempo a passar por pessoas e espíritos-guardiões, a descer e a subir escadarias de pedra de graus de inclinação e erosão variáveis e, à sombra ou ao sol, sermos objectos fotográficos das nossas máquinas. O tempo estava muito quente e seco.
Passadas umas duas horas, fomo-nos embora e a paragem seguinte foi a do Templo de Bayon – o mais importante de Angkor Thom, em tempos uma capital do império khmer. É o famoso templo das torres feitas de quatro rostos serenos representando o Buda. Para chegarmos ao cimo das torres e ficarmos próximos dos rostos, tivemos de subir uma escadaria de pedra muitíssimo inclinada feita de meios degraus provocadas pelo uso. Maravilhámo-nos, tirámos fotografias, descemos e acabámos por ir almoçar. Fomos novamente ‘assaltados’, desta vez por crianças e não foi fácil dizermos ‘não’ a quase todas elas. Miúdos e miúdas, muitos deles muito persuasivos, a venderem bugigangas, postais e livros pirateados, falando sobretudo inglês e com conhecimento de algumas capitais europeias – uma arma de vendas muito importante. De Bayon seguimos para Preah Khan, um templo khmer onde as árvores crescem vindo de dentro das ruínas, a caminho do qual passámos pelo bonito Terraço do Elefantes, o qual tem uma parede de 350 metros onde os elefantes estão esculpidos.
Em Angkor, as ruínas convivem mais ou menos bem com as árvores que delas nascem – que remédio! – e não há nada aqui que não seja bonito, mas o pouco tempo não permite não permite uma apreciação devida. Acho que foi em Preah Khan que comprei que comprei um berimbau e um chocalho, ambos feitos de cana... mas talvez não: se calhar, o que comprei lá foi um par de CD-Rs de música tradicional khmer aos músicos amputados que lá estavam a tocar. Onde se calhar comprei os instrumentos foi em Ta Phrom, outro templo khmer onde as árvores também vêm de dentro das ruínas – bonito de ver e sem tempo para o fazer, claro. O miúdo que me vendeu o chocalho vendeu tudo quanto tinha em cinco minutos, graças a muitos de nós. Terá sido uma tarde com menos trabalho para ele? Talvez, mas isto é só para me tentar fazer sentir bem, pois vivemos em mundos muito diferentes. Daqui subimos até ao templo de – segundo creio – Phnom Bakheng, templo hindu em forma de montanha, hoje muito popular por dali se poder ver um bonito pôr-do-sol. Depois de subirmos – mais uns – uns lances de escadas íngremes de degraus muito estreitos, juntámo-nos às outras dezenas de pessoas para o momento do pôr-do-sol – gostei da vista, embora não me parece que o meovimento descendente do sol tenha conferido tons especialmente extasiantes à paisagem. A massa humana que ali se encontrava voltou a fazer o percurso inverso, descida no fim da qual comprei mais uns CD-Rs de música khmer a músicos com os membros amputados – consequência das minas anti-pessoais, que continuaram a existir com o beneplácito do Império.Era já noite, e a saída de Angkor, apesar do trânsito intenso, fez-se com relativa rapidez. O resto da noite teve o jantar e uma ou outra actividade que foi ou um copo+conversa ou uma ida à vila fazer compras.
O dia seguinte foi o da ida ao Tonle Sap, um lago ligado ao rio Mekong que é o maior lago de água doce do Sudoeste Asiático e dentro do qual estão aldeias que dependem do lago para a sua subsistência. Foi isso que fomos ver. Saímos depois de tomado o pequeno-almoço e fomos, durante cerca de trinta minutos, de tuk tuk até um ponto não muito distante do lago onde, a troco de já não me recordo quantos dólares, alugámos um barco e as motas nas quais iríamos até ao dito cujo. Gostei da minha experiência de andar de mota, acho que me portei bem – apagou a anterior. O acidentado do percurso fez-me pensar no que será a dureza de uma prova de motocross. Chegados ao barco, lá começámos a nossa viagem até à aldeia, assente em cima de estacas bastante altas – na época das monções, quando o lago dos 2700 km2 da época seca passa a 16000 km2. Tinham viveiros de peixe e todos os percursos eram feitos de barco. Fomos recebidos por um aldeão simpático já de uma certa idade e que arranhava o francês. O nosso percurso continuou até uma zona de floresta ‘submersa’, onde a paz reinava e o silêncio tinha cheiro e textura muito agradável aos sentidos. Alguns de nós mergulhámos no Mekong na orla do lago. Apreciámos o máximo que pudemos aqueles momentos e depois regressámos, não sem antes distribuirmos cadernos e lápis, comprados a raparigas de uma escola associada a um templo budista e depois distribuídos às crianças da mesma escola, construída em madeira e também ela assente em estacas.
Depois almoçámos num restaurante-barco, findo o qual voltámos ao ponto de atracagem. Nova viagem de 10-15 minutos de mota, desta vez mais desconfortável. Chegados à hospedari, tomámos banho, jantámos e eu depois acabei por receber uma massagem ao corpo todo e na qual fui esticado em todas as direcções. Soube bem. O dia seguinte, dia 22 de Dezembro de 2009, foi o da preparação para o regresso a Phnom Penh e o da viagem de seis horas com muitas buzinadelas, karaoke na televisão e o ”Rambo II” em khmer. Chegados à cidade, eu, a Cátia e a Paula, depois de umas voltas, lá conseguimos achar uma hospedaria decente no centro da cidade. Pousados os nossos haveres, fomos em busca de alimento. Encontrámo-lo num bar e quem nos serviu foi uma portuguesa, não me lembro se do Porto se de Aveiro, que já trabalhava ali há alguns anos. Passeámos um pouco mais e depois recolhemo-nos. A manhã seguinte foi uma de compras, onde vimos livrarias e lojas de CD/ DVDs – tudo pirateado, com uma apresentação sofrível. Estava calor, o sol ocupava o céu sem nuvens e assim continuou até à nossa chegada ao aeroporto, onde 25 dólares depois – pagámos a saída também – consegui passar com o meu saco a tiracolo e as minhas duas estátuas de madeira em pé do Buda, uma em cada braço – elas foram pesadas numa balança mecânica antes de sermos autorizados a entrar na zona de embarque.
A paragem seguinte foi Banguecoque, onde passámos uma noite num hotel simpático e onde recebi, grátis, uma massagem de corpo inteiro bem menos violenta que a anterior. Tal como nos lá tinham deixado, assim também nos foram buscar às 7 da manhã para apanharmos o voo da de regresso a Macau – claro que na verificação da bagagem de mão tivemos que descalçar os sapatos. Chegámos a Macau cerca das 13 horas, se não me falha a memoria. Termino esta crónica reafirmando que, das ruas sujas aos templos, esta viagem acabou por ter tudo o que foi preciso para ser a viagem inesquecível que neste momento é. (3 de Março de 2009)
A felicidade enche-nos de silêncio...e o silêncio fica gravado na nossa memória para todo o sempre...
ResponderExcluirBoas. A felicidade é uma coisa frágil e tem de ser tratada com cuidado e respeito, até porque não depende só da vontade de cada pessoa. Fico grato sempre que a felicidade me faz companhia. Abraço.
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