sábado, 1 de agosto de 2009

1de Agosto de 2009

1 de Agosto de 2009 (17:40) – A partida do aeroporto da Portela é agora uma memória agridoce e sem consequências épicas. A paragem seguinte é Paris, no aeroporto Charles de Gaulle. O aeroporto é gigantesco e com um desenho moderno, o que está de acordo com a dimensão e o renome da cidade. Situa-se no meio de um complexo de auto-estradas onde abundam não só os táxis, como também os autocarros, em especial os dedicados em exclusivo ao transporte de pessoal. É um aeroporto não – fumador, mas é fácil o acesso ao exterior para quem fuma. Talvez o número de viagens torne indistintos os aeroportos, mas um olhar menos desatento revela-nos diferenças substanciais quanto às facilidades oferecidas, caso dos muitos locais com tomadas para carregar telemóveis ou computadores portáteis.

O voo de onze e horas e vinte e seis minutos até Hong Kong revela-se um duro teste. A comida é aceitável e o pequeno ecrã que cada passageiro tem direito a utilizar oferece uma razoável panóplia de distracções. Destaco a equilibrada variedade de filmes e uma selecção musical que inclui John Coltrane, Jimi Hendrix, Miles Davis, Eric Dolphy, Led Zeppelin e James Brown. Prévio à aterragem no aeroporto de Hong Kong – à beira-mar a este conquistado – sou recebido pelo tempo encoberto, até então uma das marcas da região. Ainda no avião, dão-me um folheto de emigração – immigration card – e um folheto das autoridades de saúde: o primeiro determina o período legalmente permitido de estadia no território; o segundo, tem como objectivo a despistagem de casos de gripe. Preencho os dois e não entrego nenhum, pois não farão parte dos – para mim, misteriosos – trâmites burocráticos que me trazem a Macau.

Aterro e saio para o exterior quente e não muito abafado. O aeroporto de Hong Kong parece-me um tanto complicado, o que talvez se explique por parecer estar a sofrer uma remodelação. Espero para passar para o jetfoil, espécie de cacilheiro vermelho moderno, semelhante aos que encontramos a fazer a travessia para o Barreiro. Aparentemente, a empresa que opera os jetfoils são propriedade da família Ho, detentora de muitos casinos em Macau – em número suficiente para serem, tanto quanto sei, dominantes em relação à concorrência. Espero meia hora para entrar no autocarro que me há-de levar ao barco e observo os funcionários a brincarem uns com os outros. É estranho, mas a situação não vai durar muito. Há um que parece claramente o chefe, a postura dele a lembrar-me os dos exemplares funcionários dos partidos mostrados nos filmes. Uma portuguesa com dois filhos, que reconheço da partida em Lisboa, é ajudada por uma funcionária a pôr o carrinho de bébé no autocarro. Sem surpresa, sou só um dos poucos portugueses ali dentro.

O autocarro parte. O percurso tem algo de invulgar, pois nela misturam-se o militar e o portuário, com vedações encimadas por arame farpado. À chegada, a mãe portuguesa é ajudada pelos funcionários e vamos todos para dentro de uns pré-fabricados e esperamos mais 15 minutos. Há um bar, mas os preços não são muito em conta. Entramos no barco e repete-se o immigration card e o formulário de saúde para a entrada em Macau. Sento-me à frente para tentar ver a paisagem, mas o céu está escuro e os vidros estão sujos. Há um bar a bordo do barco: os preços continuam pouco apelativos. O percurso demora 45 minutos. Desembarco e caminhando pelo cais quando olho em volta. a água, a topografia e a construção circundantes levam-me de volta a um desembarque num Cais de Sodré antigo. Entro no edifício e espero 5 minutos até entregar o meu passaporte e restantes papeis – immigration card e formulário de saúde – ao funcionário da alfândega. Vê os meus papéis e, validando a minha estadia por um período de 3 meses, carimba-os sem dizer palavra. Cinco minutos depois revejo a minha mala com rodas comprada na loja dos chineses.

Um ou dois ou três minutos depois a cara familiar e depois o abraço amigo. À noite virá mais um, um outro que me recebe e me lembra a quem devo a minha vinda, a quem devo a oportunidade. Lembra-me o incentivo de todos quantos ficaram em Portugal; lembra-me novamente quem aqui me recebe e me dá guarida.

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