12 de Agosto de 2009 (12:44) – São de trovoadas e chuva intensa que são feitas as condições meteorológicas por aqui. Ontem uma das coisas relevantes foi o fim do visionamento do “Gomorra”. Gostei muito do filme. A única maneira de o descrever seria o de chamá-lo ‘ficção documental’, o que é um pouco absurdo: no filme, a ficção é o motor, com o lado documental, muito bem misturado, a dar-lhe todo o sabor. Findo o filme e prévio aos créditos finais, falam um pouco da dimensão – também – económica da Camorra e de como eles lavam o dinheiro das operações ilegais investindo-o em actividades legais como a bolsa. Faz pensar: será que ninguém sabe? A resposta é ‘sim’, claro que sim! Não há mesmo ninguém que não saiba: a serpente teria conseguido entrar no Paraíso sem o consentimento de Deus? Ainda não sei qual será o filme seguinte.
A outra coisa relevante foi o de ter sintonizado a televisão na TDM e ter estado a ouvir o jornal da tarde da RTP em diferido. Durante o noticiário, fui sentido desapontamento – ou tristeza – e ansiedade. O conteúdo do noticiário e a forma com as notícias são apresentadas não mudaram, nem eu deveria estar à espera que isso acontecesse: a sensação de desapontamento só revela que ainda existe em mim alguma credulidade. Continua a falar-se da AH1N1, uma designação mais asséptica e menos prejudicial para a economia e para a política do que Febre Suína, que é o que de facto ela é. Mas teria de se mostrar onde é que ela teve origem, logo teria de se mostrar em que condições é que os porcos no México – resultado da deslocalização norte-americana da produção destes animais – ou em qualquer parte do mundo são criados. Essas imagens são de uma violência difícil de ver porque não há nada de parecido na ficção, o que ajudaria a torná-las suportáveis. Bom, mas nada de criar pânico, não obstante a maior parte do telejornal ser ocupado com a divulgação de mais alguns casos. Só pode haver propósito: será o de criar medo ou será criá-lo para tentar algo? Será esse ‘algo’ um conceito ou será apenas um medicamento? Falta saber, pois morrem mais pessoas de acidentes, de doenças cardiovasculares ou de fome de que de Febre Suína e nenhuma destas ocorrências são tratadas com a mesma atenção. A Quimonda não sai dos noticiários e não me parece que seja por ter relevância pública nacional, embora seja um exemplo – dos muitos – de quão mal está a vida em Portugal. Senti-me insultado com as justificações – a recuperação económica foi uma delas – dada pela Galp, mas já não é a primeira vez que as oiço. A política é um espaço em branco e, em tom de campanha eleitoral, um artigo de opinião que termina com uma variante menos óbvia ao ‘Ou estás connosco ou estás contra nós’. Depois vem o desporto – futebol – e a seguir os desastres internacionais: novamente a contagem de mortos, em tom dramático… e é esse tom de telenovela que torna as imagens inócuas. A distância que sinto em relação ao país é residual, o oposto do que se passa com as pessoas. É verdade que há o clima e a comida, mas o resto torna-se cansativo. É ingrato ser-se produtivo em Portugal.
Hoje, depois do café, virei-me outra vez para o trabalho, interrompido para almoçar e dar início ao visionamento de “The U.S. vs John Lennon”, produzido pela VH1 e que fala das razões que o levaram a ser uma figura pouco querida do governo central norte-americano – dependências incluídas – e que foi a do seu envolvimento com grupos cívicos de protesto e resistência, nomeadamente com os Black Panthers. É interessante porque confirma como o governo central jamais teria cedido qualquer direito se não fossem as acções que foram levadas a cabo. Jamais.
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