domingo, 16 de agosto de 2009

16 de Agosto de 2009

16 de Agosto de 2009 (10:34) – Estou no Ou Mun para o ritual do café, ao som do “Remar, remar” dos Xutos & Pontapés. Já ontem os estavam a passar também. Do “Circo de Feras” para trás, gosto de tudo; depois disso, nem por isso. Há canções em que parece que lhes falta ‘gana’; além disso, há letras que acho fracas, como se fossem escritas por adolescentes… de 13 anos. Mesmo a crítica social deles parece ser feita a partir de um certo conforto, deixou de ser radical. Ter-lhes sido dado o grau de comendador parece-me um sinal; por outro lado, não deixaram de ser genuínos. Dizem verdades, mas parece-me fraca a mordedura. Eles tornaram-se músicos de rock’n’roll muito bem sucedidos, com tudo o que isso implica. Alguém como o José Mário Branco tem muito menos contradições desse tipo, além de, nas suas canções, utilizar uma linguagem que, reflectindo as suas preocupações, está de acordo com a distância que tem dessas realidades: parece-me estranho os Xutos & Pontapés falarem do fim do mês e da falta de dinheiro da forma que eles o fazem, pois a linguagem dos que por conta de outrem vivem de ordenados baixos cantada pelo Tim soa a pastiche. Faltam os palavrões, a dureza ou desespero com que são ditos e um certo tipo de estrutura discursiva desses momentos. Hoje não andam a contar tostões, ainda que isso tenha sucedido há anos atrás. Os Metallica são outra história…

Entretanto, desligaram a música e eu acabei com a digressão à volta da música. Ontem foi um dia moderadamente cheio, iniciado com uma nova visita à casa que vira na semana passada. Desta vez, fiquei com uma noção mais adequada, tanto das dimensões da casa, quanto da sua luminosidade. Vi também armários e tanto os da cozinha quanto os do quarto são espaçosos; vi o sítio da varanda onde vou a roupa a secar e é suficiente. A casa parecia-me estranha, mas seria normal, pois não só não estava acostumado ao espaço dela, como também por então ainda não ser ‘minha’. Tudo quanto era electrodoméstico estava em ordem, assim como os ‘acessórios’ – por exemplo, as bilhas de gás. Quando saí de lá, disse ao Calvin que daria uma resposta na 2ª feira. Depois vim ao Ou Mun beber o café e fui às compras. De volta a casa, pus-me a ver correspondência e a tentar corrigir material antes do almoço constituído por sumo de manga, sopa de cenoura com feijão de soja e duas sandes de queijo.

Na televisão, acabei de ver os ‘extras’ do “Sicko” e proveitoso constatar o óbvio: nos Estados Unidos, mais do que entregues a si próprios, estão entregues aos bichos. Porém, o Michael Moore acaba por escrever direito, mas quase utilizando circunferências para o fazer: não é isento porque não fala das pessoas que esperam horas para serem atendidas ou meses para lhes ser feita uma intervenção cirúrgica, assim como não fez uma comparação entre pessoas com situações económicas semelhantes. Na Europa, onde estão a tentar vender às pessoas a beleza do sistema americano, uma pessoa não é abandonada pelos médicos por não terem dinheiro para tratamentos – sem os quais uma pessoa pode morrer. Não foi preciso o Michael Moore para saber que é bem sabido que os medicamentos nos EUA – já agora, há muito que há propostas de políticos para haver um sistema semelhante ao europeu – são várias vezes mais caros do que na maioria dos países do mundo. Também vemos as filmagens da sua viagem à Noruega: de facto, na maioria dos países do mundo as pessoas são ou tratadas como lixo ou não existem. Para os histéricos e lunáticos norte-americanos pagos a peso de ouro – políticos, apresentadores ou outros – algo como o sistema norueguês seria uma descida ao Inferno. O filme é populista e panfletário, mas a ganância criminosa de seguradoras de saúde e companhias farmacêuticas sai intacta. A falta de sustentabilidade do sistema de saúde pública é falácia: há sempre forma de se arranjar dinheiro, SEMPRE. Infelizmente, as pechas do filme tornam-no num alvo fácil para os ataques dos seus conterrâneos neo-medievais.

À tarde, continuei com a morosa correcção de material, mas fui interrompido com um telefonema do Calvin a dizer que a casa já tinha sido arrendada. “Tudo bem, procuro outra”, pensei eu. Meia hora depois telefona-me a dizer que o dono estava disposto a arrendar-me a casa por 4600 KD Dollars – 4745 MOP; isto é, patacas. Eu aceitei e fui até à agência tratar do contrato provisório e do pagamento, o equivalente a 4 meses de renda – 1 deles comissão da agência, 2 deles depósito e o outro o mês de renda adiantado. Entreguei 4745 patacas no momento; o restante seria entregue aquando da assinatura do contrato definitivo e essa altura teria tempo para limpar a casa e para transferir para lá os meus poucos pertences. Acabei por demorar uma hora na agência, até porque o contrato tinha de ser redigido em inglês e em mandarim. Depois de assinado lá voltei para casa e fiz o jantar, na companhia das imagens de “O Caçador” – “The Deer Hunter” –, realizado por Michael Cimino e com o Robert de Niro e a Merryl Streep, entre outros. Sendo sobre o Vietname, acho que é dos primeiros filmes a tratar criticamente essa guerra. Depois de teria trabalhado se tivesse tido força mental para isso, mas não tive. Mas não foi fácil adormecer, pois estava calor e eu não arrefeci o quarto o tempo suficiente, mas lá acabei por acordar hoje de manhã.

Depois da minha ida ao Ou Mun para 2 cafés, fui comprar t-shirts – meia dúzia por 200 patacas. Depois fui à YSIS – Yun Seng Ieng Si – para comprar um duplo CD –colectânea de 2006 da Universal – dos Rotary Connection. Fundados, salvo erro, por um dos filhos do dono da Chess Records, viviam da fusão de soul, funk e jazz. Já o tinha visto e a minha curiosidade levou-me a ouvi-lo na Internet. Gostei e, como era preço era amigo do ambiente, fui a loja comprá-lo. Fui à procura de calções, mas não havia. No caminho de regresso, encontrei o Sérgio e a Cristina estivemos a falar um bocado. É bom encontrar vizinhos que conheço, com quem tenho alguma relação e com quem falo acerca de certos factos ou assuntos por serem comuns ao meio social no qual nos cruzamos. Sabe bem. Ao almoço, continuei a ver “O Caçador” e depois comecei a tratar desta entrada, mas dois telefonemas do Calvin depois, a próxima 3ª feira transformou-se no dia em que vou assinar o contrato definitivo e pagar os restantes três meses. Tenho dinheiro que chegue, o que sobra dá até ao fim do mês, mas fico menos à vontade: chateia-me a pressa, mas o dono insistiu porque vai fazer uma viagem que o impede de estar cá no dia 28, que era para quando tinha sido marcada a assinatura. Por outro lado, o problema fica resolvido: trato já de limpeza, ele trata de arrumar – ou de levar de lá para fora – loiças e outras coisas avulsas e vou tratando da electricidade, da água e do gás. É assim.

O resto da noite vai ser jantar e ir até à Pin-to ver o que por lá há e, havendo depois vontade, corrigir mais qualquer coisa.

8 comentários:

  1. essa vida parece boa, embora ainda mais de turista, do que de trabalhador!
    não se trabalha por essa terra, ou estás de férias?

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  2. Parabéns pela nova casa! Só estou um pouco intrigado por te pedirem 2 meses de caução... Será que isso é legal?... Não seria melhor perguntares a outras pessoas que tenham arranjado casa através do Calvin se também tiveram de pagar 2 meses de caução mais comissão agência?...

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  3. espero que a nova casa tenha espaço para visitas, ou se não tem, o couchsurfing aceita-se, porque quero muito ir visitar-te!

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  4. Estou de férias apenas porque o IPOR fecha durante o mês de Agosto. Logo, por princípio, não há aulas. Em Setembro, vou começar ter essa experiência que é a de dar aulas o ano inteiro para depois, findo o mês de Julho, eu ir de férias. Estou a trabalhar noutras coisas: tenho sempre trabalho para fazer. Beijo.

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  5. Não sei se é legal ou não, mas não é a primeira vez que o pedem: conheço quem em Portugal tenha passado pela mesma situação, ainda que o pedido tenha posteriormente sido descontinuado. É um bocado chato, mas se eu não estragar nada, devolvem-me no fim. Não é grave, até porque essa devolução está estipulada no contrato. Abraço.

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  6. A nova casa tem espaço para visitas. Não será preciso recorrer ao couchsurfing. Vou gostar muito de receber a tua visita aqui, tem a certeza. Beijo.

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  7. Rotary Connection, muito bom, banda da genial cantora Minnie Riperton, A única que conseguia chegar aos calcanhares da Yma Sumac em extensão vocal

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  8. Sim. Só agora descobri isso. Comprei a colectânea porque o preço - 115 patacas - estava dentro dos limites que estabeleci e investiguei porque, quando olhei para a capa, uma voz interior me disse que eu deveria ouvir aquela música. O meu próximo passo é investigar bandas aqui da zona - com excepção da cena musical nipónica, já bastante conhecida. Há algumas com algum interesse. Abraço.

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