14 de Agosto de 2009 (17:55) – Antes de ontem acabei de ver o filme à volta do John Lennon. É laudatório do seu papel e é talvez um filme feito para manter o seu estatuto de ícone da juventude, mas foi tempo bem gasto. Foi interessante ver a comparação entre George W. Bush e Richard Nixon. À excepção de um dos inquiridos – um alto funcionário da administração do segundo deles –, o qual permaneceu ‘neutro’, os restantes disseram que o primeiro dos presidentes foi muito mais longe quanto Às diversas formas de supressão das diversas liberdades. Gore Vidal, Noam Chomsky, Geraldo Rivera e Tariq Ali, entre outros, prestaram depoimentos de vária ordem, uns acerca dos seus encontros com Lennon, outros para falar de factos históricos da época tratados no filme.
As minhas pesquisas e viagens fazem-me muitas vezes parar na KCRW, onde o Henry Rollins faz um programa de duas horas de música, toda ela bastante boa. A KCRW é uma rádio pública no sentido em que não recebe doações nem exibe publicidade de multinacionais; vive do pouco dinheiro de um fundo público e, sobretudo, da subscrição dos ouvintes. São os apresentadores que escolhem convidados, além de só passarem a música por eles escolhida. O conceito é bom: a programação justifica o meu interesse. Estão a fazer um pedido de subscrição pública: 10 dólares por mês é quase nada… mas por enquanto não me sinto inclinado a aderir. Esta urgência de aderir aparece e desaparece, pois tem a ver com uma espécie de ‘síndroma de fã’: procura de pertença, talvez. A melhor opção é apoiar a Pin-to comprando-lhes coisas – um mês de subscrição é quase CD e meio de um artista desta área geográfica. Se houver uma rádio aqui – ou até em Portugal – que se regule por princípios de independência e que tenha qualidade informativa semelhantes aos da KCRW, apoio-os. Parece-me que faz mais sentido tentar arranjar uma forma de me ligar à comunidade local.
Ontem fui fazer compras e depois do habitual café, fui ver mails e vaguear um bocado pelo sítio da Southern Records. Uma das novidades era um artigo do Penis Rimbaud – baterista e co-fundador dos Crass – que girava à volta de discórdias despoletadas pela remasterização e nova reedição dos discos da banda. Nesse artigo também era referido o fecho da Southern Records, assim como as consequências desse fecho. Cheguei tarde aos Crass: foi em 1991 em Londres, depois de ter lido referência a eles num artigo acerca da segunda vaga do punk em Inglaterra, publicada na revista Spiral Scratch, também título de uma canção dos Buzzcocks, salvo erro. As honras de capa pertenceram aos Ramones – já não me lembro se num dos meus acessos de limpeza não a terei deitado fora. Os Crass não eram só uma banda de músicos, eram uma comunidade artística. É coisa pretensiosa de se dizer, mas está muito próximo da verdade. A música é mal gravada e a execução é um bocado tosca e essas características são ‘intencionais’; faziam parte do programa, do modo como encaravam a vida: tinha algo de ‘caseira’, no sentido de resultado da experiência adquirida de viverem num determinado local. A parte gráfica, talvez devedora dos de alguns dos ismos do início do século, tem como único propósito a eficácia: é a técnica ao serviço da arte, semelhante a um canalizador que utiliza as ferramentas necessárias de modo a ter uma elevada probabilidade de certeza de levar a cabo a reparação. Penso sempre que, se houvesse um desastre que destruísse os relativamente poucos discos que possuo, seriam os dois vinis deles que eu quereria que se salvassem. Talvez porque simbolizem o incorrompido do acto de criação; incorrompido por certo cálculo ou pensamento, mais próximo do primeiro instinto vizinho da chamada loucura. Há sempre essa procura de um ‘estado de graça’ afim do que se imagina ser o nascimento ou do que se imagina ser a morte: não é nirvana quando sabemos que o atingimos, mas sem o podermos sentir ou exprimir?
Depois do exercício, veio o jantar. Depois de dois dedos de conversa com a Cristina e o Sérgio, o regresso a casa e uma vista de olhos por aquilo que andam a fazer a Lydia Lunch e a Diamanda Galás – bom, andam a trabalhar. Depois fui dormir, com a chuva intensa e 30 minutos de sons de explosões – cortesias da trovoada – como música de embalar.
Hoje fui ver duas casas, uma próxima daqui – perto do Resort Ponte 16 – e outra próxima do estádio/ pavilhão desportiva de Macau; a primeira a 3500/ mês, a segunda a 4000/ mês. Acabei por ir ver a segunda delas em primeiro lugar porque as senhoras que iam mostrar a casa não conseguiam com que a porta do prédio abrisse, nem com o conjunto de chaves que tinham e nem mesmo depois de terem ligado para uma vizinha e pedir para ela abrir a porta. O impasse resolveu-se connosco – eu, o Calvin e uma das senhoras – a apanhar um táxi para eu ir ver a outra casa. Chegados à rua, estivemos uns minutos à espera de uma outra senhora. Entramos num prédio sem elevador e subimos 4 ou 5 andares. Vi a casa com alguma atenção: a casa de banho não era interior e as janelas do quarto eram maiores, mas a luminosidade da casa era menor – tinha prédios mais altos a rodeá-la – que a da semana passada. Não estava tão bem tratada. Voltámos à inicial: era semelhante à que tínhamos acabado de ver, estava um poço menos bem tratada que a referida e tinha grades à volta. Depois de lá sair, falei com o Calvin para no dia seguinte – amanhã, Sábado – voltarmos a ver a da semana anterior – semana passada – e ver se seria possível baixar o preço até aos 4700. Amanhã verei.
Penis Rimbaud ou Penny Rimbaud?...
ResponderExcluirFreud não desdenharia este dilema...
A simplicidade e acutilância de algumas das tuas reflexões são também uma forma de "estado de graça". As palavras iluminam-te quando as escreves e a nós quando as lemos.
ResponderExcluirUm abraço.
Tens toda a razão: é Penny Rimbaud. Deixo estar com o engano, incluo uma errata na próxima entrada.
ResponderExcluirMuito obrigado pelas palavras. Um abraço.