5 de Setembro de 2009 (12:51) – Pois é, acabou-se o que era doce: segunda-feira às nove da manhã os níveis de nervosismo vão estar altos quando for para o IFT – Instituto de Formação Turística – e for dar conta dos critérios de avaliação em Powerpoint, o sumário e as faltas a serem inseridas num lugar digital e por aí fora. Conversa de velho. Daqui a dois meses vou continuar a não gostar da ideia, burocracia num espaço não-físico dependente de máquinas é um tipo de indeterminação que se adequa pouco ao meu gosto, mas lá diz a canção: “We’re mentally ill/ But not quite dead yet”.
A reunião de quarta-feira, continuação da do dia anterior, permitiu estabelecer com mais clareza pontos que tinham ficado em suspenso. Terminada a reunião, todos os que iam dar aulas no IFT juntaram-se para distribuir tarefas respeitantes à preparação dos materiais. Passado um bocado, saí do IPOR e fui ver de panelas nas lojas de uma das paralelas ao Leal Senado, tendo depois seguido para o supermercado Royal lá para onde a Paula mora. Antes de entrar, reparei que só tinha 220 patacas e desejei que fosse o suficiente, mas a memória que guardava do preço não me permitia acalentar grandes esperanças. E assim sucedeu: faltavam-me duas patacas, o cartão multibanco que eu tinha não era aceite ali e não havia uma caixa de levantamento a uma distância razoável. Tinha HK dollars em moedas e achei que ali aceitariam, que é o que acontece em certos locais. Cheguei à caixa e dei-lhe as patacas e uma moeda de cinco Hong Kongs e ela começou a falar comigo de um modo que me parecer querer dizer que havia um problema com aquela moeda. A verdade é que ela aceitou a moeda e deu-me três patacas de troco, que era tudo quanto queria. Depois de uns minutos de conversa com a Cátia e a Bárbara no caminho de regresso, fui à loja da CTM – Companhia de Telecomunicações de Macau S.A.R.L. – para pedir que me instalassem a Internet em casa. Cerca de 10-15 minutos depois estava despachado e com a instalação do equipamento marcada para segunda-feira entre as 11h00 e as 13h00. Este é dos momentos em que não tenho saudades de Portugal. Daí fui até à Daiso, loja de uma cadeia de lojas supostamente japonesa parecida com o AKI, constituída por quatro andares subtérreos e comprei sete pratos, um escorredor de loiça em madeira e uma colher de pau. Daí fui até ao Royal comprar comida e utensílios para a casa, onde cheguei finalmente e onde, passado um bocado, pude jantar.
Depois de ver um bocado de televisão – sei lá, nem uma hora – fui-me deitar e acordei na quinta-feira com o objectivo de ir para o IPOR e trabalhar, o que foi cumprido. Estive lá cerca de três horas e meia e fui até ao BNU tratar de assuntos bancários prementes, tendo daí passado para a compra de música: o duplo CD de Beirute “March of the Zapotec/ Realpeople Holland” – um tipo de nome Zach Condon é quem está por trás disto – e “Hymn to the immortal wind” dos Mono, tendo deixado encomendado o álbum de 2008 dos Carsick Cars e para aquisição posterior um disco que dizia na capa “Mininoise Hong Kong 2008” – será uma compilação? Depois vim para casa com o objectivo de fazer a sessão de exercício, o que não foi fácil, pois tinha vontade de ir dormir. Deve ter a ver com o início das aulas no IFT e o medo de um desconhecido feito de exigências que passo o tempo a imaginar que não domino. Errar e não ser bem sucedido não é coisa má, não se dê o caso disso implicar outros, quer a palavra de quem me contactou, quer a palavra de quem me contratou para o trabalho. Tenciono dar por bem empregue tanto a disponibilidade e o afecto, quanto o dinheiro e a aposta feita. Levei a sessão por diante: mentalizei-me o suficiente e os Slayer fizeram o resto – a partir de 2 de Novembro vou ter mais material disponível. Depois veio o jantar a ver o BBC World News, aqui e ali semelhante à SIC Notícias, a começar pelo logótipo e a acabar nas notícias debitadas de forma ‘imparcial’ e sem explicações adequadas, facto comum à maioria das televisões. Faltam as razões que expliquem a abordagem. Depois fui preparar material para apresentar no dia seguinte.
Ontem o dia começou no IPOR às 10h00 com a correcção dos testes de colocação de pessoas que se candidataram a aulas. A correcção não foi demorada, embora houvesse situações-limite relativamente à colocação num nível mais alto ou mais baixo, tendo sido decidido que em quatro delas teria de se recorrer a um teste oral. Acabadas essas correcções, chegou a vez da do meu trabalho, a qual continuou depois de almoço e terminou por volta das 16h00. Daí em diante, foi preparar segunda-feira, preparação interrompida às 18h00 com as orais, findas as quais fui acabar o que tinha para acabar. Saí do IPOR às 19h00 e fui comprar águas naturais e um sumo natural. Chegado a casa, jantei frente ao BBC World News e foi interessante observar a forma como a informação é transmitida. A reportagem que eu vi chamava-se “The New Wild West” e tratava do tráfico de droga que decorria ao longo da fronteira entre o México e os EUA, principalmente entre El Paso e Juarez – não sei se é assim o nome da localidade mexicana. Mostraram, entre outras coisas, os americanos a patrulharem as ‘Badlands’ para, dizia a reportagem, protegerem o seu país. Talvez não fosse má ideia qualquer dos lados procurar pelos responsáveis nas hierarquias governamentais – a título de exemplo, a DEA, a CIA, o FBI –, pois elas têm sido instrumentais em manter os EUA os maiores consumidores de drogas ilegais – e legais? – do mundo. A voz off disse duas ou três vezes que, mau grado os esforços do governo norte-americano e dos seus aliados, ainda não foi possível acabar com a actividade dos cartéis mexicanos. Ficamos a saber quem são os bárbaros…
Várias vezes anunciaram uma outra reportagem de transmissão futura, cujo tema será o estado de recuperação do mundo um ano depois de ela ter atingido a banca norte-americana – foram estes os termos em que foi enunciada a reportagem a transmitir. ‘Atingido’? O que foi que a atingiu, um raio vindo dos céus? E quem foi o responsável, Deus ou – a mesma entidade noutra língua e cultura – Alá? A crise, começada por pessoas que trabalham em bancos e outras instituições financeiras, é uma espécie de guerra na qual os economicamente desfavorecidos sofrem as baixas, enquanto os mais favorecidos pela posição que ocupavam – com a preciosa ajuda dos seus amigos políticos – sofreram bem pouco, quer financeiramente, quer judicialmente: os gestores de algumas das instituições que mais contribuíram para a crise receberam indemnizações acima dos 40 milhões de dólares, chegando num caso a, salvo erro, 112 milhões. E isto é de certeza só a superfície, mas é quanto é preciso para uma imagem suficiente da situação: é repugnante, por maior que tenha sido a legalidade e que tudo tenha decorrido. Não esqueço esta e outras situações semelhantes, é o mínimo que posso fazer. Hoje, só depois de regressado dos cafés da manhã, me dei conta de que tinha deixado a minha pen no IPOR… da qual necessito para apresentar a avaliação. Não será um acto falhado, mas a causa talvez seja fácil de explicar, já é a segunda vez. Logo à noite a Mariza vai actuar aqui no Centro Cultural de Macau. Veremos como decorre o espectáculo.
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