4 de Outubro de 2009 (21:26) – Foi uma semana de trabalho mais curta, a razão o 60º aniversário da implantação da república popular na China, a qual é comemorada durante dois dias. Este ano calhou serem na quinta e na sexta-feira. Ainda bem.
As aulas correram bem, mas para a semana espero que já tenha o material extra todo pronto para lhes dar e só então estarei verdadeiramente descansado. As probabilidades são reduzidas. As aulas no IFT vão precisar de algo mais do que as folhas que tenho, pois não me parece que eles estejam seguros quanto aos seus conhecimentos de português. Vão ser precisas revisões de compreensão oral, até porque não deve haver tempo para mais. O pessoal do Módulo I está prestes a entrar em cena mais uma vez; isto é, para a semana que vem vão fazer uso do que lhes ensinei. Os do Módulo 6 também vão ter de fazer compreensão oral. De segunda a quarta-feira, o tempo – fora o das aulas – foi passado a preparar material e a esquecer-me disto e daquilo no IPOR. Na quarta-feira fui almoçar com a Cátia para prepararmos as aulas dela no CCAC – ontem vi que ela não vai ter muito tempo para acabar a unidade 3, terei de ver quantas horas é que ela vai ter ao certo, teste incluído. O almoço foi interessante: é sempre interessante conhecermos os outros e darmo-nos a conhecer. A última noite da semana de trabalho terminou com um jantar no restaurante chinês do Leal Senado onde servem pratos tailandeses – eu escolho sempre o Singapore Fried Vermicelli.
Na quinta-feira de manhã, depois dos cafés no Ou Mún, parti para Zhuhai com a Paula e o Pedro. Chegámos de autocarro às Portas do Cerco – é lá o terminal –, um treta da qual só sobrou uma parede com um arco – imaginem uma secção de um aqueduto pequeno pintado de amarelo post-it – e tirámos uma fotografia, antes de entrarmos para dentro do terminal alfandegário de construção recente. Com o meu BIR e a minha impressão digital as cancelas electrónicas escancaram-se de par em par facultando-me a saída de Macau. Caminhei numa zona de ninguém convenientemente pavimentada e entrei no terminal de Gongbei – tal como o outro tinha lojas de duty free e pastelarias – o qual servia de ponto de entrada na China continental. Depois de preenchidos a declaração de saúde e um cartão de imigração – chegada e entrada separados por um picotado – e esperarmos na fila atrás da linha amarela pela nossa vez, mostrei o passaporte, enquanto a funcionária se certificava de que era eu a pessoa que estava de pé em cima dos pés vermelhos pintados no chão. Carimbado o passaporte, saí para o ar natural exterior da China continental.
Ficou decidido que a vista ao centro comercial mesmo à beira do terminal alfandegário ficaria para a vinda. A nossa missão era a visita a um dos sítios que constavam de uma folha de sugestões – não me lembro por quem foram dadas – que a Paula tinha. Quando olhei à minha volta, além de pessoas, vi um largo razoavelmente grande, na orla do qual estavam edifícios altos e de onde partia ma avenida larga, ladeada por palmeiras pouco viçosas e, segundo pude investigar, com 300 metros de comprimento – teria a via mais do que uma avenida? No topo de um dos edifícios estava uma televisão gigante, que me fez esquecer a profusão delas existentes no interior do terminal alfandegário do qual tinha saído – a única forma de evitar o contacto visual com aquela aparição orwelliana era ou fechar os olhos ou olhar para o chão. Após breve conferência, ficou decidido que iríamos ver o New Yuan Ming Palace. Foram precisos alguns minutos e a simpatia e presteza de um chinês – estava a vender bandeiras – e de uma chinesa – à espera de ser passageira de um autocarro – para apanharmos, do lado certo da rua, a carreira nº1, uma das que tinha paragem próxima do nosso destino. Havia muita gente na rua a comemorar aquela a implantação da República Popular da China e a vender bandeiras. O tráfego era intenso, mas não me pareceu que fosse muito mais que o habitual: Zhuhai é a terceira maior cidade da província de Cantão, salvo erro a mais industrializada do país. Mora aqui muita gente mas, contrariamente a Macau, é bastante espaçosa.
Lá apanhámos o 1 e descemos na paragem próxima do palácio. Fomos às bilheteiras, demos 120 renminbis por entrada e lá entrámos. O palácio é uma réplica ampliada de um existente em Pequim e que está profundamente ligada à história da China, quer por o Palácio Yuan Ming pertencer à primeira dinastia de imperadores chineses, que por os jardins imperiais terem sido queimados por tropas francesas e britânicas durante a Segunda Guerra do Ópio – aliás, essa destruição é, na China de hoje, ainda um símbolo de agressão estrangeira e humilhação. O espaço incluía uma espécie de aquaparque, um lago muito grande – há outro mais pequeno – e outros pontos de diversão, os quais incluem espectáculos a bordo de embarcações que circulam no lago maior. É sítio com muita sombra e muita humidade. Passeámos durante um bocado e ainda se falou numa viagem de teleférico para se ver a vista, mas os 60 renminbis facilmente nos dissuadiram dos nossos intentos.
A paragem seguinte foi à beira do lago, onde havia uma casa de madeira, onde se escrevia o nome em chinês de quem lá fosse pagar para ser feito – já numa outra casa do outro lado do lago me tinha dado a vontade. Lá me decidi e então a senhora disse-me que fazê-lo custava 50 RMB e pediu-me o nome. Eu dei-lhe o meu e mais os dois de família e ela escreveu-o em mandarim com os caracteres chineses. Gastei mais 120 RMB e comprei um quadro – um rolo em baixo e outro em cima – de seda, onde tinha o papel onde seria escrito o meu nome quase completo. Deu-o ao calígrafo, um tipo novo que fez um poema partindo do que a senhora lhe tinha dado. Em cima da mesa tinha a carteira profissional, da qual constava o nome do seu mestre – segundo informação da senhora, um dos mais afamados na China. Com um pincel preto bastante grosso lá escreveu desenhando o poema e terminou aquilo com a aposição de três carimbos e o nome do seu mestre, em sinal de respeito e homenagem. Aparentemente eles nunca assinam as obras com o seu próprio nome – de qualquer modo, o quadro está pendurado na minha sala. Demos mais uma volta e fomos almoçar, não sem antes termos reparado que havia muitos chineses a olhar para nós. Chegámos à conclusão que seria por, possivelmente, sermos os únicos ocidentais que ali havia – eu não vi nenhum em todo tempo que ali estivemos. Depois de almoçados, fomo-nos embora.
Novo problema: onde apanhar o autocarro de volta – normalmente, uma dada carreira aqui não faz o mesmo percurso à ida e à volta. O que acabou por acontecer foi apanharmos um autocarro até ao fim da linha e depois fazermos a volta até ao posto fronteiriço. A viagem acabou por ser demorada porque foram quase duas vezes percursos longos que só passaram por 4 ou 5 avenidas. Valeu a pena: as pessoas continuavam a olhar para nós fomos passando por aquilo que pareciam subúrbios. É imaginar uma Pontinha ou um Camarate várias vezes maior, localizada numa área relativamente plana, com sítios cheios de gente e sujidade e prédio muito altos entremeados com oficinas e fábricas. Tanto as pessoas quanto as construções têm um ar gasto e é grande a lista de razões. É difícil de descrever a escala correcta daquilo que assaltou os meus sentidos naquela viagem. Tudo é vasto e há muita gente a trabalhar ali, apesar de Zhuhai ser um sítio relativamente agradável para se viver. Em toda a viagem não vi mais nenhum ocidental, apenas o olhar admirado de alguns dos passageiros chineses e até uma postura que parecia de receio quando nos sentávamos ao lado deles. Nada disso me incomodou.
Já na avenida do posto fronteiriço, voltei a ver a discoteca – casino? – Yesterday, uma construção cuja fachada cruzava a traça de vários monumentos egípcios – Gizé, Esfinge e Luxor – decorado por – talvez falsos – baixos-relevos, tudo coberto com tinta dourada foleira. Cinco minutos depois, desci do autocarro para a rua, agora com mais gente do que de manhã. Um polícia – parecia da PSP – em modo de passeio e que tinha passado por mim, haveria de, uns metros adiante, ir atrás de – e apanhar – um miúdo que estava a vender coisas no passeio, para de seguida deixá-lo, virar-se e começar a embirrar com o calígrafo sem antebraços que estava no passeio a desenhar para tentar fazer algum dinheiro. Depois de atravessada a praça, descemos por umas escadas rolantes até ao ‘centro comercial’, uma galeria labiríntica de lojas de tecto baixo facilmente do tamanho do Colombo e no qual as indicações se resumem a pouco mais do que os letreiros verdes a indicar a saída. O átrio, ao qual vão dar as escadas rolantes, foi tomado por bancas que vendem ou tabaco ou vendem telemóveis e acessórios electrónicos vários. Comprei uma caixa com 10 filmes do Jim Jarmush, a primeira série do Sons of Anarchy, um concerto-documentário com o John Zorn e um leitor ‘universal’ de formatos digitais – um LUFD. Comprei também um duplo CD dos Metallica, composto do último álbum e do ‘álbum preto’, embora uma das fotografias interiores tivesse sido tirada do “Master of Puppets”. Adquiri também um suporte para incenso num senhor cujo negócio principal era o dos colares, anéis e estatuária, tendo tido direito a um shot de chá.
O regresso a casa foi feito pelo mesmo caminho e passando pelas mesmas formalidades. Chegado a casa, pus o aparelho a funcionar, fiz o jantar, trabalhei um pouco e depois fui-me deitar. O dia de Sábado fica para amanhã.
Qual o significado do poema que o calígrafo escreveu sobre ti? Revelou-te algo que ainda não sabias?
ResponderExcluirCurioso teres arranjado o "Sons of Anarchy". Já tinha ouvido falar bem da série, em que a história de um gang de bikers( a semelhança com os Hells Angels não pode ser coincidência...) se reveste de contornos "shakespereanos"...
Outra série muito boa é a "Mad Men", sobre uma agência de publicidade americana nos anos 60 e a forma como os seus slogans ajudaram a moldar a sociedade da altura, que é basicamente aquela em que ainda hoje vivemos. Consegui vê-la online, mas também deves conseguir arranjá-la em DVD (são duas séries).
LUFD?! Isso é tipo um ipod ou um rádio leitor de CDs?
O poema deu conselhos e desejou boa sorte. A minha professora de mandarim dar-me-à uma tradução melhor do que a que me deram. Quanto ao Mad Men, já a vi em Zhuhai. Vou lá e compro. Quanto À sigla inventada é o leitor de DVD, CD, MP3, etc que eu comprei em Zhuhai. Abraço.
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