19 de Janeiro de 2010 (14:00) – E aqui estamos todos para mais uma volta no calendário. Ninguém sabe o que este ano nos trará... enfim, um mistério igual ao dos anteriores, dependendo da quantidade que quisermos investir em especulações do género. O Natal e o Ano Novo foram bons, apesar de longe de todos quantos estão em Portugal. A família vai crescendo aos poucos e a do Oriente mitiga um pouco a saudade da família no Ocidente. O Natal e as suas festividades começaram bem cedo, logo no dia 15 e 16, com a festa do IPOR, no qual professores e alunos – os que vieram – conviveram à volta de doces e salgados portugueses, alguns deles característicos de todas as épocas, com ou sem festividades. No dia 15 ao fim da tarde – aqui noite, pois em Macau ela começa cedo – houve um concurso de soletração no qual desempenhei o papel de apresentador – um papel novo, no qual me senti mais ou menos à vontade – e no qual houve oportunidade para gafes e risos. Divertido.
O dia 16 – quarta-feira – começaria com o almoço dos colaboradores do IPOR e o da troca de presentes entre todos: cada uma das pessoas do grupo compra um presente, o qual depois é numerado para ser sorteado e ser recebido por outra pessoa do grupo. Para o presente há, por vezes, um tecto monetário previamente acordado, o que faz realçar o seu carácter simbólico. No fim de semana acontecido dois ou três dias antes, os ‘suspeitos do costume’ também tinham procedido à troca de presentes . Estas cerimónias renderam-me uma máscara de rena, um sapatinho para a chaminé e um quadro com uma – general – figura da ópera chinesa. Depois das festas... não houve muito tempo para o ‘depois’ porque sexta-feira às 10h00 estávamos no aeroporto de Macau de partida para o Cambodja. Segue-se a primeira parte desse relato.
“22 de Dezembro de 2009 (15:00) – À hora do primeiro rascunho, são duas e meia e estou – estamos eu, a Cátia e a Paula – no autocarro que nos leva de volta a Phnom Penh e que teve Siem Riep, onde se situa a cidade de Angkor, como local de partida.
Mas tudo começou às 10h15 no aeroporto de Macau e eram seis os que partiam: eu, Cátia, Paula, Sandra, Rogério e Olga – ainda longe do “Rambo II” em khmer que agora vejo e mal ouço neste veículo que nos leva de volta à capital do Reino do Cambodja. Entre um e outro lapso meu, lá fizemos o check-in e, cerca das 11h30, o avião levantou voo, deixando para trás o frio de Macau. Cerca de quatro horas depois, aterrámos no aeroporto de Bangkok na Tailândia. Preenchemos os habituais boletins de saúde e cartões de imigração. É um aeroporto grande, moderno e com muita gente, como é normal nesta zona do globo – neste momento, Rambo, num avião russo, dizima vietcongs como quem bebe Sumol e salva camaradas de armas supostamente desaparecidos. Fiz o check-out e o check-in, com um cigarro de permeio no exterior do aeroporto, o único sítio onde é permitido fumar. As paredes de vidro do aeroporto que tinha à minha frente estavam decoradas com episódios da vida politica da Tailândia, todos eles com o então jovem – hoje doente e velho – rei da Tailândia como figura central. O rei, árbitro que impede que os militares e os representantes se atirem às goelas uns dos outros – com a consequente morte de milhares de pessoas – é muito querido pelos tailandeses, os quais o veneram – a fotografia dele está em todo o lado – como um autêntico deus vivo: a Tailândia é um pais onde o crime de lesa-majestade existe e é aplicado.
Muitas nacionalidades e proibições a granadas, armas e drogas depois, fomos comer uma pizza, antes de seguirmos para um curto período de espera que antecedeu a nossa partida do Reino da Tailândia e que uma hora de voo permitiria com que aterrássemos no Reino do Cambodja. Á nossa espera, novas formalidades e em maior número, as quais incluíram um visto para o qual foi preciso uma fotografia e 25 dólares americanos – a moeda que quase sempre substitui o riel, pelo menos no que toca aos turistas. Mau grado a burocracia, ao fim de 20 minutos já tínhamos entrado no pais... e sem termos de ter tido de nos descalçar, como aconteceu quando verificámos a nossa bagagem à saída de Bangkok – neste momento, na televisão do autocarro, vejo e ouço música pimba romântica khmer em formato karaoke, enquanto o condutor apita antes de ultrapassar alguém, coisa que acontece em média a cada 15 segundos.
No Cambodja, o ‘transporte nacional’ é veículo motorizado de duas rodas, seguido da bicicleta. O tuk tuk, um táxi feito de uma moto que puxa um atrelado semelhante a um coche – uma espécie de riquexó motorizado – é o meio de transporte que, por 7 dólares, nos levará até à hospedaria – guesthouse – onde vamos ficar uma noite. A viagem ao longo da comprida avenida – a da Federação Russa – será uma viagem que não esquecerei. O dominante da paisagem é o pó e a ferrugem – a natureza em acção contra a actividade, contaminando-a e conferindo-lhe um ar perecível. Vou dividir a descrição entre a actividade à beira da estrada e aquela que se desenrola dentro dos limites da mesma.
Beirando a estrada, dominavam as construções de todo o tipo – de madeira, de madeira e chapa de zinco, de ferro, de tijolo, de tijolo combinado com outros materiais, assim como construções acabadas recentes e antigas. Todas elas têm por perto stands que vendem bijutarias, brinquedos, gasolina em garrafas de vidro de Pepsi-Cola e de Fanta e mostruários de tabaco de diversas marcas, onde pontuam os cigarros Alain Delon – “The taste of France”, diz a frase do anúncio. Há depois os edifícios governamentais, construções grandes, recentes e grandiosas, espelho da diferença abismal de estatuto social e económico entre os dirigentes e os dirigidos. Nas ruas, a azáfama é grande, embora inferior ao espírito de iniciativa de qualquer cambojano. As pessoas, cobertas do pó que tudo cobre, são pobres e têm as roupas bastante sujas. Não me parecem tristes; têm um ar simpático e, por natureza ou por necessidade que seja, são muito dadas e comunicativas. Apesar das circunstâncias, querem viver e isso é visível – sem lágrimas no canto do olho ou coisa que o valha.
Na estrada o tráfego é intenso, mas não caótico. As motos e as motorizadas são o meio de transporte dominante, frequentemente com mais de uma pessoa, em especial no casos de tudo quanto é motorizado – agora na televisão, passa uma espécie de “Morangos com Açúcar” em modo “Guerreiros de Shaolin”, que usam ursos de peluche, no que parece ser uma série sobre vampiros com actores talvez japoneses. Os automóveis e os jipes também estão bem presentes, embora possuidores de lógicas diferentes: os primeiros, nos quais se incluem muitos de caixa aberta, servem para transportarem bem mais pessoas e bens que os da capacidade oficial. Os segundos são bastante menos ‘abertos’ ao público: tendo em conta que são Lexus, são pessoas de outra classe social e são talvez os ‘carros dos deuses’.
São muitas as pessoas que passam por nós; nós passamos por muitas. O trânsito tem dois sentidos, mas as inversões de marcha e a locomoção em sentido inverso não é infrequente. Os cabos eléctricos, as perpendiculares de terra não-batida e a gasolina em garrafas de refrigerantes aparecem regularmente no nosso campo de visão. Passamos por lojas que vendem sacos de arroz com 50 kg e, passados alguns minutos, chegamos à hospedaria Ma Mate, depois de termos dispendido os primeiros dólares. Entramos e instalamo-nos. O quarto onde eu e a Cátia ficámos tinha varanda para a rua, contrariamente ao quarto dos outros. Vimos para baixo e bebemos qualquer coisa, antes de irmos dar uma volta pelo – por um – mercado nocturno de Phnom Penh. Já é de noite e a caminhada de 15-20 minutos confirma o que o dia mostrara, mas de noite todos os gatos são pardos e as impressões com que o dia me deixou são menos aparentes. O mercado não tem nada de especial, apenas artesanato produzido industrialmente e comida Rita ou cozida, a maioria da qual nos deixa indiferente. Decidimo-nos por uma tasca e comemos arroz com vegetais, vegetais e vários outros tipos de comida de cujos nomes não me recordo. Não é uma comida muito picante e é saborosa. Pagamos em dólares e regressamos à hospedaria, passando por uma ou outra livraria fechada e respondendo negativamente à insistência dos condutores de tuk tuk. À chegada, tomo um banho e eu, a Cátia e a Paula estamos um bocado à conversa até chegar à hora da caminha.
A manhã é tempo de tomar banho e arrumar a mochila para, antes de tomar o pequeno-almoço que demorará bastante a ser servido, a estadia ser paga e a bagagem ser deixada na recepção, pronta para a nossa partida entre as 13 e as 13h30. Quando acabamos o pequeno-almoço, vamos ter com os taxistas – condutores de tuk tuk – com os quais havíamos combinado levarem-nos a ver dois dos ‘monumentos’ do regime de Pop Pot: as ‘Killing Fields’ de Choeng Ek – campos de execução em massa com valas comuns – e o centro de detenção Tuol Sleng, uma ex-escola secundária que virá a ser conhecida por S-21. Será uma manhã instrutiva, no mínimo.
O caminho até ao campo de extermínio demorou cerca de 20-30 minutos e a paisagem urbana e humana não sofre alterações substanciais: pessoas pobres e muito pobres – muitas delas crianças – a fazerem pela vida, seja a venderem gasolina, seja a venderem mobília ou tabaco. De vez em quando passamos por barbearias e carpintarias à beira da estrada, assim como por arcos ricamente decorados – são a porta de entrada de um caminho que acabará à porta de um templo ricamente decorado. Finalmente chegamos e o local tem um aspecto exterior nada invulgar – mais adiante, saberei que muitas das construções presentes no campo foram, a dada altura, desmontadas. Pagamos dois dólares cada um e entramos.
Vamos direitos à stupa comemorativa – um relicário gigante – de cerca de 10 metros de altura, com prateleiras de 50 em 50 centímetros cheias de caveiras de muitos dos que foram executados naqueles campos. Vamos passando por onde era a casa de ferramentas e por onde era a casa dos oficiais. Não longe, estão as covas comuns de onde foram tirados os ossos e as roupas de todos quantos para lá foram atirados. Depois passamos pela árvore onde as crianças eram mortas: agarravam as crianças pelas pernas e batiam com elas repetidamente contra a árvore até elas estarem mortas. Depois passámos pela ‘árvore mágica’, uma árvore onde era instalado um altifalante do qual saía música de modo a abafar os gritos das vítimas. Saímos um pouco da área das execuções e andámos um pouco pelas redondezas. É desconcertante estar rodeado daquele silêncio próprio do campo. De seguida vamos ao museu, onde estão expostos os instrumentos de tortura e fotografias dos principais dirigentes dos Khmeres Vermelhos. Antes de partirmos, compro um livro e dois CDs.
O destino seguinte é a S-21, o centro de interrogatório e de detenção de Tuol Sleng – segundo investiguei, a tradução do nome é ‘Monte da Árvore Envenenada’. Chegamos e, antes de entrarmos, vamos beber um café e fumar um cigarro, algo que não é proibido nem mesmo em interiores. Entramos e o que pude observar mudou-me o estado de espírito – fá-lo a qualquer um.”
(Umas semanas depois...) O centro, uma antiga escola secundária de três edifícios formando um espaço rectangular entre si, tem um aspecto destruído, velho – nada embelezado, apenas o necessário para aquilo tudo não cair. Não há nada de especial... antes de começar a ler as regras/ mandamentos de conduta dos prisioneiros interrogados diante dos seus interrogadores. Lê-los foi estar na presença do inexplicável; dizer que aquilo é de uma crueldade infantil misturada com uma infantilidade cruel, não faz justiça e não descreve um sensação de vazio que aquilo provoca. Ei-las:
1. You must answer accordingly to my questions - don't turn them away.
2. Don't try to hide the facts by making pretexts this and that. You are strictly prohibited to contest me.
3. Don't be a fool for you are a chap who dare thwart the revolution.
4. You must immediately answer my questions without wasting time to reflect.
5. Don't tell me either about your immoralities or the essence of the revolution.
6. While getting lashes or electrification you must not cry at all.
7. Do nothing, sit still and wait for my orders. If there is no order, keep quiet. When I ask you to do something, you must do it right away without protesting.
8. Don't make pretexts about Kampuchea Krom in order to hide your jaw of traitor.
9. If you don't follow all the above rules, you will get many lashes of electric wire.
10. If you disobey any point of my regulations you shall get either ten lashes or five shocks of electric discharge.
Entrei no rés-do-chão no bloco A, aquele onde eram interrogados os prisioneiros mais importantes – a certa altura, dirigentes dos próprios Khmeres Vermelhos. Eram espaços onde havia uma cama de ferro, uma caixa a servir de latrina, umas grilhetas e instrumentos de tortura. Na parede, uma pintura retratava a forma como a tortura era feita – em cada uma das salas, uma tortura diferente. As salas do piso superior – havia um outro, ao qual não pude aceder – eram um pouco maiores e estavam vazias – soube depois que eram onde cerca de 50 a 100 prisioneiros ficavam agrilhoados à espera da sua vez de serem torturados. Saí e diante de mim o placard branco de letras pretas com os dez mandamentos.
O bloco B, que ficava de frente para o local de acesso ao centro, tinha no piso térreo uma espécie de ‘museu’ do holocausto – é Tuol Sleng Genocide Museum – onde, em vários placards, estão dispostos alguns dos milhares de adultos e crianças de ambos os sexos que ali foram torturados antes de serem enviados para Choeng Ek para serem mortos. As fotografias mostravam prisioneiros numerados com expressões que variavam pouco: o olhar vazio, com a ocasional expressão de terror ou, bizarro, com um sorriso. A um canto, os bustos danificados de três dos altos dirigentes do regime, incluindo Pol Pot – de verdadeiro nome Saloth Sar. Nos andares de cima, as celas dos prisioneiros ‘comuns’: ‘traidores’, o que incluía intelectuais, engenheiros, pintores, pessoas que usassem óculos ou que eram consequência da denúncia de outros – obtida, ou não, através da tortura. Celas de dois ou três metros quadrados, construções cruas e toscas de tijolo ou madeira. Uma lata para as necessidades e o chão nu foi tudo quanto havia para ver em cada cela; algumas delas tinham janela. Em cada piso, o corredor – fazia as vezes de uma varanda – estava fechado com arame farpado – por confirmar, se era ou não electrificado – para impedir as tentativas de suicídio dos que estavam presos. O último dos blocos que vi era uma outra ala do museu onde estão dispostos outros instrumentos de tortura – incluindo os usados no waterboarding, muito usado por militares norte-americanos nos tempos recentes, o que implica que não é uma forma de tortura. Havia também pinturas alusivas a essa e outras torturas.
Eu e a Paula saímos e fomos ter com a Cátia e depois reunimo-nos às restantes pessoas do grupo. Fizemos compras no comercio local – de ‘comércio justo’ – e daí fomos para um outro mercado para mais compras. Enquanto andávamos às voltas, havia pessoas a tentarem vender-nos postais, carteiras e livros – muitos deles sobre os Khmeres Vermelhos e sobre Pol Pot. Depois fomos comer e abastecer-nos de comida para a viagem de 6 horas até Siem Riep – a porta de entrada para Angkor Wat. Às 13h30, depois de os termos despedido dos nossos condutores de tuk tuk, fomos levados por outros até à paragem do autocarro seguinte, a qual nos levaria para o nosso segundo destino das nossas férias no reino do Cambodja."
Da segunda parte da viagem darei conta em tempo oportuno. Agora há testes e notas finais para preparar. Até depois.
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